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Folha de S. Paulo - 2003

São Paulo - Brasil

 

O Piauí tem sul (com o perdão dos piauienses)?

07/12/03

 

Rubens Ricupero

A PROPÓSITO da associação semântica que fazemos das palavras sul ou norte com progresso ou atraso, variável conforme o país, ouvi de um dos mais inteligentes políticos do Nordeste _só não dou o nome por não saber se ele gostaria_ a seguinte pilhéria, como se diria antigamente. Durante reunião de governadores da Sudene, os assessores conversavam em sala ao lado. Tendo um novato declinado que era de Buriti Grande, perguntaram-lhe onde ficava essa terra desconhecida. E ele: "É no sul do Piauí". Ao que comenta o interlocutor: "Ué, menino, e Piauí tem sul?!".

De fato, para nós, no Brasil, sul é sinônimo de riqueza, mas, para o resto do mundo, é o lugar onde moram a miséria e suas mazelas. Esse preconceito explica por que só se fala no mercado dos EUA, nas negociações da Alca ou nas do Mercosul com a União Européia. A única coisa que conta é o norte; fora disso, só há pé-rapado feito a gente.

Não obstante, enquanto a bancada da Flórida continua decidida a não nos deixar vender açúcar ou suco de laranja aos consumidores americanos, o mesmo fazendo os europeus com outros produtos agrícolas nossos, os vorazes chineses converteram-se, na calada, sem alarde nem estardalhaços nos segundos clientes do Brasil. E não é só conosco. Para a Coréia do Sul, grande exportadora, eles passaram os EUA e tornaram-se o primeiro mercado, fato espantoso se lembrarmos da Guerra da Coréia, 50 anos atrás. Inúmeros países asiáticos duplicaram as exportações à China, o que ocorreu igualmente com a Argentina. O que vem até agora estimulando a combalida economia nipônica é o comércio com os demais asiáticos, a começar por Pequim. O refrão da marchinha carnavalesca do meu tempo, "Chinês, só come uma vez por mês", foi parar na lata de lixo da história.

Contrariamente à sabedoria convencional, há algo de novo debaixo do sol. A crise de 1997 ficou para trás e a recuperação tem sido vigorosa e sustentada, com liquidação antecipada dos acordos com o FMI, acompanhada de redução rápida e substancial do endividamento externo. Em ano sorumbático como o atual, quem salvou o espetáculo do crescimento foi a Ásia, com expansão de 5,5% do PIB. Em relação aos dez anos próximos, o Asian Development Bank projeta aumento médio do PIB de 6% ao ano para as 43 economias em desenvolvimento da Ásia e do Pacífico. O cálculo nada tem de fantasista se tomarmos em conta que a China vem crescendo entre 7% e 8%, e a Índia, a 6%, com taxas de investimento superiores a 30% do PIB. A primeira, com 1,3 bilhão de habitantes, a segunda, com 1 bilhão. Juntas, representam boa parte da Terra.

O fenômeno não é tão recente como pode parecer. Em 1940, a Ásia respondia por 60% da população mundial e por apenas 19% da economia. Em 1995, eram asiáticos 57% dos habitantes do planeta, correspondendo a 37% do PIB. Em 2025, estima-se que a população oriental vá ser de 55% do conjunto, mas o produto alcance pouco mais da metade do mundo, ou seja, 51%.

Expansão dessa durabilidade, sem retrocessos nem oscilações graves, não pode ser qualificada de episódica ou circunstancial. Não tardará muito para caracterizar o que Braudel consideraria uma tendência de longa duração, destinada a mudar secularmente o panorama do globo. O crescimento gera, por sua vez, cada vez mais comércio entre os asiáticos, tornando-os menos vulneráveis às flutuações de outros continentes. Aliás, aprendendo a lição da crise de 1997, os orientais estão passo a passo construindo um fundo monetário próprio de reservas de emergência, a fim de não depender dos escassos recursos do FMI, sempre apimentados por condicionalidades complicadas.

Embora essa explosão do comércio entre nações em desenvolvimento seja mais espetacular na Ásia, ela contagia também outras áreas. A prova é que, em 1980, 69% das exportações dos países em desenvolvimento, mais de dois terços, se escoavam em direção aos mercados avançados do Norte. Em 2001, essa proporção tinha caído a 57%, redução de 12% em 20 anos.

Não é que esses países tenham passado a vender menos ao Norte, em termos absolutos. É que, nessas duas décadas, período de ascensão da China e dos asiáticos, o intercâmbio no seio do grupo em desenvolvimento foi muito mais acelerado. É o que se vê também no outro lado da medalha. Quase a metade das exportações japonesas, 48%, vai para os países em desenvolvimento, porcentagem que é de 43% para os EUA e 34% da Europa.

Esse movimento tende a se acentuar por razão simples. Não é que os ricos vão ficar menos ricos, mas porque inelutavelmente estão ficando menos numerosos. O declínio demográfico no Japão, na Itália, na Espanha, na Europa, em geral, vai encolher uma população que já está próxima da saturação no nível de consumo. A exceção até aqui é os EUA, que continuam a crescer apenas graças a perto de 1 milhão de imigrantes legais ou não por ano. Em poucas décadas, 90% dos jovens, os mais propensos a consumir, estarão no Sul.

Quando, na década de 80, o embaixador Paulo Nogueira Batista tomou a iniciativa visionária de levar a Unctad a criar um sistema de preferências tarifárias entre as economias em desenvolvimento, o comércio Sul-Sul parecia promessa para o futuro, quase ficção científica. Hoje, ele é realidade com potencial que começa somente a ser arranhado. Quem duvida precisa notar que, entre os sete principais mercados do Brasil, nada menos que três são nações em desenvolvimento: China, Argentina, México.

No momento em que as negociações com os EUA e a Europa patinam perigosamente, em que os do Norte nos ameaçam com arrogante exclusões ou indiferença, como se apenas dependêssemos deles e não eles igualmente de nós, é tempo de olhar mais para os parceiros do Sul, nossos sócios no G3 ou no G20. Esses não nos exigem concessões em propriedade intelectual ou em investimentos como condição para o que é do nosso interesse mútuo: explorar a complementaridade de nossas economias. Em outras palavras, são gente como a gente, que não nos exigem que vendamos a alma.

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