Home <> busca


Biografia

Conferências

Artigos

Textos na UNCTAD

Entrevistas

Livros

Prefácios

Na imprensa

Contato


<<Voltar

Artigos


Folha de S. Paulo - 2003

São Paulo - Brasil

 

O tempo de crescer é já

10/08/03

 

Rubens Ricupero

NÃO SEI se o governo terá oportunidade melhor do que a aprovação da reforma da Previdência para sair da fase de repressão para a de crescimento da economia. A fim de viabilizar essa transição, duas coisas eram necessárias: deter a inflação e demonstrar a determinação reformista pela mais difícil de todas as mudanças. Ambas estão presentes.

Os dois últimos meses foram de queda de preços e, para os próximos 12, projeta-se inflação em acentuado declínio. A votação na Câmara constituiu vitória inegável para o governo, que a conquistou com sacrifício no limite do possível. Pode-se discordar de aspectos, como ressalvo ser meu caso, mas não é razoável exigir mais.

É agora, não daqui a um mês ou dois, o momento de uma amputação cirúrgica da taxa de juros, de um sinal forte de que queremos chegar ao fim do ano com juros reais de um só dígito. Esse gesto deveria ser completado por outro, o de que desejamos manter taxa de câmbio em torno de R$ 3 a R$ 3,20, estimulante de saldo comercial expressivo.

Se necessário, deveríamos estar dispostos a taxar na entrada capitais especulativos do gênero da "morte súbita". Esse é o único aumento da carga fiscal que não só se justifica mas é salutar, pois incide sobre os especuladores, não sobre o setor produtivo nacional, desestimulando aqueles que, nas palavras de um cínico, "querem continuar no baile mas preferem dançar perto da porta de saída".

Caso esperem demais, as autoridades correm, por excessiva cautela, o risco de não ter cedo _e talvez nunca_ outra oportunidade comparável. O choque positivo gerado nos mercados pela votação da Câmara cria o melhor clima possível para tornar irrecusável um corte profundo nos juros. Vacilar é perder a vantagem psicológica. Nas próximas semanas, quem sabe lá o que pode acontecer aqui, nos EUA, no Iraque, na Coréia do Norte?

Prudência é virtude que, como todas as outras, deve ser exercitada com equilíbrio e medida. Em excesso, vira defeito: medo, paralisia. Marcílio Marques Moreira gosta de adágio romano apropriado para a ocasião: "A dose é que faz o veneno". Os homens do mercado preferirão a versão em inglês: "Too much of a good thing", isto é, até as melhores coisas podem ser exageradas.

Perdoe-me um exemplo pessoal. Quando me tornei ministro da Fazenda, em abril de 1994, tinha-se de decidir a data de introdução do real. Alguns economistas da equipe _e dos melhores_ queriam esperar até um ano, com razões que não eram desprezíveis. A maioria, na qual eu me incluía, decidiu que era chegado o momento. Alguém acredita que teria sido factível dominar a hiperinflação se, nas condições complicadas daquele ano, tivéssemos esperado até abril de 1995 (na presunção de que o governo a ser eleito houvesse mantido a equipe e o plano)?

O episódio mostra que nas decisões cruciais, nos instantes definidores, há sempre um nevoeiro de incerteza, que requer a coragem de saltar, a audácia de agir. Gustavo Corção expressa muito bem o problema, em sua aplicação à conversão religiosa, ao intitular um capítulo de "A Descoberta do Outro" de "Quem pensa não casa". O seguinte se chamava "Quem casa não pensa". Quer dizer, após pesar com cuidado o pró e o contra, é preciso confiar em algo mais, no amor ou na graça.

No presente caso, trata-se de confiar na esperança, a virtude que nos faz acreditar naquilo que ainda não se vê, de acordo com o apóstolo Paulo. Sobretudo quando ela é amparada nos fatos _a superação da meta do saldo primário do Orçamento, o alentador superávit comercial, a queda de preços_ e inspirada na compaixão.

Olhando na televisão o dilacerante espetáculo de miseráveis sem teto ateando fogo aos pobres barracos de que iam ser desalojados, ao contemplar aquela cena espantosa de esqualidez e desespero debaixo da triste chuva a tombar de um céu de chumbo, quem é capaz de não sentir piedade e medo? Esse, sim, o medo verdadeiro, o da cólera do Senhor, que não há de deixar sem resposta o pranto das viúvas e dos órfãos.

Contra isso, só há um remédio: o crescimento solidário e distributivo. Não a mediocridade que nos prometem assessores atuais, de mais um quarto de século com taxa anual de 3%. É meta raquítica, inferior à que o Federal Reserve (o BC dos EUA) projeta no próximo ano para a obesa economia americana (de 3,75% a 4,75%)! Nós, país com economia anêmica, abaixo do potencial, temos de crescer muito mais, como fazem a China e a Índia, nações igualmente populosas e continentais. Uma dieta de 3% não dá nem para absorver o desemprego de 13% no país e 20% em São Paulo, quanto mais atender à expansão adicional da população ativa, que cresce a 2% ao ano.

Tal ração jamais permitirá recuperar os níveis acumulados de miséria e desemprego. As invasões e ocupações dos sem-teto, sem-terra, sem-nada se multiplicariam, os crimes ficariam cada vez mais hediondos, e a sociedade, mais bárbara. Não duraria 25 anos, pois, com desemprego a partir de 13% e em aumento, a explosão viria muito antes, como veio na vizinha Argentina.
Sem crescimento acelerado, a equação brasileira não fecha. O presidente e o ministro da Fazenda já demonstraram compreender essa verdade e desejam retomar o desenvolvimento o quanto antes. A vitória parlamentar oferece-lhes a oportunidade em bandeja de ouro. O momento de aproveitá-la é já.

...


Anos

2006        2005        2004        2003        2002        2001        2000

1999        1998        1997        1996        1995       

 

 


<<Voltar