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Folha de S. Paulo - 2003

São Paulo - Brasil

 

O jogo é outro

12/10/03

 

Rubens Ricupero

SE A economia mundial fosse comparada a uma torta, conforme costuma fazer o presidente do Banco Mundial, Jim Wolfensohn, ou a uma pizza, para usarmos conceito familiar no Brasil, qual seria a sua dimensão e como seria repartida? A dimensão total andaria aí por uns US$ 31 trilhões. A fatia maior, de quase um terço, caberia aos EUA, com US$ 10 trilhões, seguidos pela União Européia, com mais ou menos US$ 9 trilhões, e o Japão, entre US$ 4 trilhões e US$ 5 trilhões. O restante ficaria para dividir em talhadas mais minguadas para os outros desenvolvidos e os países em desenvolvimento.

Essa imagem sugestiva ajuda a compreender o tamanho relativo dos pedaços do bolo da economia internacional e por que, desde 2001, seu crescimento tem sido sempre inferior ao previsto, ano após ano. A razão é simples: mais de 77% do setor produtivo do mundo vem gerando pouca demanda de produtos e serviços, pois o Japão continua estagnado, a Europa cresce pouco ou nada e os EUA se expandem muito abaixo do seu potencial. Os americanos ainda contribuem para atenuar o problema, pois, graças ao maciço estímulo do déficit orçamentário e dos gastos militares, seguem importando do mundo mais do que vendem, aprofundando o gigantesco rombo da balança comercial e provocando o inevitável enfraquecimento do dólar.

O panorama só não é pior por causa da única região de crescimento rápido, a Ásia e o Pacífico, que se recuperou da crise de 1997 e persiste em crescer aceleradamente, apesar da frouxidão da economia mundial, da epidemia de Sars (síndrome respiratória aguda grave), do conflito do Iraque, dos atentados terroristas na Indonésia. A exceção que impede as estatísticas internacionais de mergulhar a profundidades polares é, no fundo, a China, crescendo a 7,8% ou mais por ano e puxando o conjunto das 41 economias em desenvolvimento da Ásia, com expansão de 5,3% esperada para este ano e 6,1% no próximo. Tendem, assim, a repetir o desempenho médio de 6% anuais que mantiveram em toda a década de 1990.

Uma das explicações para essa robustez resistente a choques externos é o dinamismo do comércio entre os asiáticos, que, até certo ponto, os protege da anêmica demanda de fora. A China superou os EUA, por exemplo, como primeiro mercado da Coréia do Sul e de outros dos seus vizinhos do continente.
Aliás, mesmo para fornecedores distantes como o Brasil e a Argentina, o mercado chinês está demonstrando voracidade insuspeitada, abrindo oportunidades de exportação de alimentos e minérios onde menos se esperava.

É em larga medida devido a esse fabuloso fenômeno da expansão rápida das economias nacionais e do aumento do comércio entre os asiáticos que começamos a assistir a uma transformação histórica na estrutura profunda do intercâmbio mundial. Em 1980, quando a grande virada chinesa apenas engatinhava, 69% das exportações dos países em desenvolvimento se destinavam aos mercados industrializados do Norte (EUA, Europa, Japão). Em 2001, essa porcentagem havia baixado a 57%, redução de 12% em 20 anos. Nessa data, os mercados das nações em desenvolvimento já respondiam por 48% das vendas japonesas ao exterior, 43% das americanas e 34% das européias, excluindo o comércio intra-regional da União Européia.

Duas conclusões emergem dessas cifras. A primeira é que as economias ricas e avançadas cada vez necessitam mais dos mercados em desenvolvimento, intensificando o grau de interdependência da economia global. A segunda é que o êxito econômico dos asiáticos, a China no presente e a Índia no futuro, está aos poucos criando novas locomotivas, fontes autônomas de demanda de importações de outros países em desenvolvimento, inclusive do Brasil, revolucionando por completo as perspectivas do comércio Sul-Sul.

Essa dimensão econômica concreta é uma das razões subjacentes que explicam e justificam a crescente convergência entre o Brasil, a Índia, a China, outros asiáticos de relevo, a África do Sul, na conformação de alianças e coalizões para negociações comerciais ou econômicas. Foi o que sucedeu em Cancún e pode voltar a repetir-se em outras situações similares em que se identifiquem interesses comuns ou afins. Deveria ser esse o caso da reforma da arquitetura financeira, a fim de dar mais voz e voto às economias emergentes no FMI e no Banco Mundial, das questões de propriedade intelectual, mudança climática ou proteção aos recursos da biodiversidade.

É pena que, no âmbito latino-americano, brilhem pela ausência os exemplos individuais de êxito em crescer e de vocação de afirmação da autonomia. Falta-nos, de fato, uma massa crítica de países capazes de gerar uma dinâmica intra-regional, como a da Ásia, o que torna particularmente desequilibradas e perigosas negociações do tipo da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), devido à dificuldade de compor alianças de contrapeso ao desmesurado poder americano.

É um erro, por isso, comparar situações dissimilares como a atuação do Grupo dos 20 em Cancún e as perspectivas para a reunião da Alca em Miami. Na OMC (Organização Mundial do Comércio), fórum de quase 150 nações, o poder dos EUA e da Europa é diluído pelo volume e diversidade dos outros membros, bem como pela presença de um número razoável de atores de tamanho médio (como o Brasil), dispostos a promover seus legítimos interesses, se necessário, em oposição aos grandes.

Na Alca, em contraste, o panorama sempre se anunciou muito mais ingrato por ser geograficamente a área de direta influência da única hiperpotência política e econômica do globo e porque, salvo raríssimas exceções, quase todos os países latino-americanos e caribenhos destinam ao mercado dos EUA entre 40% e 88% de suas exportações.

Contra essa realidade econômica concreta, é de valor limitado a capacidade diplomática de articular aliança como a do G20, sem prejuízo da reconhecida competência da diplomacia brasileira. Outro fator complicador adicional é ser o Brasil talvez o único exemplo, na América Latina, de nação continental como a China e a Índia ou, em menor escala, a África do Sul.

"Gigante pela própria natureza" não é apenas expressão retórica do hino, mas traz consequências práticas, uma das quais a que prefiro chamar de "excepcionalidade brasileira" e outros descrevem com palavras mais negativas. De qualquer modo, o jogo na Alca é diferente do de Cancún e muito mais duro. Os nossos jogadores vão precisar jogar unidos e precisam de todo o apoio e estímulo que a torcida lhes pode dispensar.

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