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Folha de S. Paulo - 2003

São Paulo - Brasil

 

Histórias de braços (e de gente)

17/08/03

 

Rubens Ricupero

ELA VIU que seria forçada a intervir. A visitante japonesa tentava explicar-se em inglês, mas os funcionários não a compreendiam. A diretora decidiu-se afinal a chamá-la e ouviu a seguinte história. Poucas semanas antes, aparecera-lhe em sonho no Japão um menino pequeno, dizendo-se seu irmão mais velho. Morrera havia mais de meio século e reclamava o ritual tradicional de preces realizado alguns meses após o sepultamento. Acordou perturbada e perplexa. Sabia que, quando moço, o pai havia emigrado ao Brasil, onde as coisas não tinham dado certo, levando-o a regressar à ilha natal. Nunca ouvira falar de um primogênito morto.

Na família, sempre se considerara primogênita uma irmã mais velha, já morta. Não teve coragem de inquietar o pai de mais de 80 anos com o sonho estranho. Ao virar o dorso da foto no altar da irmã morta, deparou com expressão indicando que ela tinha sido a segunda. Em busca da verdade, resolveu vir ao Brasil.

A diretora, que fala japonês, ajudou-a a abrir caixas raramente consultadas onde dormem os papéis de imigrantes retornados às origens. Numa delas, lá estava a história toda. Era verdade. Um menino, precocemente morto, ficara para trás, enterrado no Brasil. De posse da documentação, a visitante localizou o cemitério do interior, reconstruiu e fotografou o túmulo. Fez vir um punhado de terra japonesa, que misturou ao solo brasileiro, do qual leva uma amostra para a cerimônia pacificadora no Japão.

Lembrei-me de sermão sobre são José, que uma vez ouvi no norte do México. Dizia o padre: "José tuvo un sueño. Y el sueño le bastó". A ela também bastou-lhe o sonho para empreender a comprida e incerta expedição até o Museu e Memorial do Imigrante, na velha Hospedaria do Brás. Esse é um museu de sonhos, pobres sonhos de fazer a América de gente humilde, machucada pela vida. Ficaram por ali seus vestígios, em papéis amarelecidos, nos grossos tomos com os nomes e idades dos desembarcados.

Não fosse pela diretora, Midory Figuti, e um punhado de abnegados, toda essa lembrança palpitante de esperanças e ilusões teria virado pó anônimo. Quando a Hospedaria fechou, em 1976, a funcionária Midory foi deixada para a liquidação do acervo. Foi ela que decidiu impedir que o esquecimento engolisse aquele mundo precioso. Começou a recolher o que os outros destinavam ao lixo e ao ferro-velho. Os antigos linotipos do Fanfulla, os vagões da estrada de ferro, os teares, as forjas, as ferramentas de trabalho. Com doações esporádicas, como por ocasião da filmagem de "Terra Nostra", adquiriu computadores e está terminando a informatização dos dados esparsos por aquele universo de documentos.

Duvido que exista no mundo museu que preste serviços mais úteis que os desse. Qualquer um nele pode encontrar o papel de que precisa para afirmar direitos ou reconstruir a identidade. Midory é uma mina de informações vivas. Não há o que não saiba sobre os grupúsculos mais obscuros. Alguém já ouviu falar, por exemplo, que, no interior de São Paulo, houve duas comunidades de gente da brumosa Letônia? Ou que, no Vale do Ribeira, há comunidades ucranianas da misteriosa Galícia austro-húngara?

Tragédias da Segunda Guerra saltam das páginas dos ingressados nos anos 40 e 50, como na ameaçadora atmosfera de "O terceiro homem": nomes estranhos, de sonoridades eslavas, magiares, romenas, com a anotação "nacionalidade indefinida". Que fim terão levado esses náufragos da história do século 20, esses seres que tentamos adivinhar atrás de origens nebulosas na Bessarábia, na Transilvânia, na Bukovina?

Pobre na aparência é o Memorial, como pobres eram as pessoas a que foi dedicado. Nas fotos envelhecidas, as mães que banham os filhos na Hospedaria após a longa travessia, as crianças descalças, mas de chapeuzinho na cabeça à saída da fábrica de tecidos, encaram-nos como se nos interpelassem em desafio manso. Não temos o direito de deixá-las morrer de novo pelo esquecimento. É justo que a arte sacra, a Pinacoteca, sejam prestigiadas com verbas públicas. Por que, porém, não ser um pouco mais generoso com esse museu de utilidade indiscutível?

Faltam apenas R$ 200 mil para informatizar os últimos tomos de registros de chegada. Será que os consulados estrangeiros não podem fazer algo para retribuir a generosidade com que foram recebidos seus compatriotas? E os empresários, políticos, o governador (do qual depende o Memorial), a prefeita, que esperam, na véspera dos 450 anos de São Paulo, para fazer do Museu o que os norte-americanos fizeram de Ellis Island no bicentenário da Independência: o símbolo do sonho americano, da construção do novo mundo? Para isso, é indispensável valorizar e apoiar Midory, pois esse é um daqueles casos em que o valor humano, a força da personalidade da dirigente fazem a diferença entre o sucesso ou o fracasso da instituição.

Imigrantes de terras longínquas e do Brasil esquecido, pois milhares de brasileiros, vindos nos itas do Norte, passaram por aqui. Imigrantes somos todos, os que arribaram nas caravelas de Martin Afonso e meus quatro avós, ingressados em 1895, o ápice da imigração, cujos nomes com grafia estropiada encontrei no mesmo tomo, em setembro, separados por três semanas e 70 páginas formigando de gente. Pode-se imaginar a emoção com que li aqueles nomes queridos e, nesta véspera da Assunção, me lembrei de minha mãe, Assumpta Jovine, napolitana da melhor gema, nascida a poucos metros da Hospedaria, na rua da Alegria.

Os imigrantes de ontem eram os sem-teto, sem-terra, de hoje. Naquele tempo, o Estado de São Paulo pagava-lhes a passagem de navio e de trem, os acolhia e os abrigava na Hospedaria, dava-lhes às vezes um lote de terra. Será que progredimos desde então? Deixo à meditação dos leitores frase de escritor suíço, acho que de Max Fritsch: "Pensamos que estávamos importando braços, mas os que chegaram eram homens". Será que ela não se aplica também aos sem-emprego, sem-teto, sem-nada?

* Nota: mais informações podem ser obtidas pelo e-mail: imigrant@plugnet.com.br.

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