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Folha de S. Paulo - 2003

São Paulo - Brasil

 

Minha pátria é a Terra

21/12/03

 

Rubens Ricupero

NO TERRAÇO do hotel Mamounia, Churchill passava o inverno pintando aquarelas dos picos do Atlas, majestosamente vestidos de gelo. A seus pés, as laranjeiras carregadas cintilavam como árvores de Natal mediterrâneas. No centro, o pomar de oliveiras seculares, as fontes e os espelhos-d'água de um jardim escondido por altos muros, parente próximo do Alhambra de Granada.

Acordei com as vozes dos muezins convocando à prece da madrugada, do alto de minaretes dominados pelo da Kutubia, mais antigo e quase gêmeo da Giralda de Sevilha. Escrevo pouco antes de deixar Marrakech para viajar de automóvel a Casablanca.

Por acaso, dias atrás, revi na TV cenas do filme que melhor encarnou, num momento do século 20 psicologicamente cada vez mais distante, o mito do amor truncado pela fatalidade, Orfeu e Eurídice, Tristão e Isolda, Ingrid e Bogart. Desde então, o nome Casablanca mexe com as emoções dos que crescemos enxugando uma furtiva lágrima no fim do filme. Para os que nunca estiveram aqui, talvez desaponte saber que Casablanca, grande cidade comercial e marítima, corresponde pouco a essa imagem mágica. Parafraseando Caetano Veloso, que disse de Gilberto Gil ser ele o Lula de Lula, não é demais arriscar que Marrakech é a verdadeira Casablanca de Casablanca, a cidade que dá mais brilho e intensidade ao sonho.

Aqui, como em Fez, mergulha-se no poço do tempo. Vielas e becos da medina, pátios interiores plantados de limoeiros, artesãos de habilidade imemorial nos mercados ("souks") de ofícios como na Idade Média européia: o "souk" El Maazi, dos curtidores de peles de cabra, o Larzal, da lã, o El Zrabia, dos tapetes, do ferro batido, o dos estandartes coloridos dos tintureiros.

Só num lugar como este, em que os artesãos continuam, exatamente como em 1300, a lavrar a madeira, a cinzelar o cobre, a rendilhar o gesso, seria possível construir em 1923 o hotel Mamounia, prodígio do casamento da arquitetura marroquina com a Secessão de Viena e o art déco. Não há uma luminária, um espelho cinzelado, uma cabine telefônica que não pareça desenhada por Otto Wagner. Impecavelmente restaurado há uma década, mais que hotel, é o monumento ao espírito de uma era em que os europeus começavam a aventurar-se por desertos e oásis em caravanas de automóveis. Findas as excursões, gente como Ravel e Paul Valéry, Arletty e Rita Hayworth vestiam-se a rigor como nos transatlânticos, bebericavam no piano-bar de paredes forradas de couro verde almofadado, esticando no "night-club" cuja pista de dança rivaliza com a do cassino da Pampulha, as mesas faiscando com a luz de rubi que se irradia do interior dos globos de cristal lapidado.

Há pobreza, desemprego, a economia é pouco produtiva, mas pode-se dizer que se trata de povo subdesenvolvido? Certamente não do ponto de vista cultural. Muito do que as histórias de Sherazade evocam de elegância e requinte, de agudeza e sofisticação nas "Mil e Uma Noites" sobreviveu apenas em Marrocos, depois que os massacres, as invasões coloniais, a ferocidade de tiranos e libertadores fizeram de Bagdá, Damasco, Beirute terras convulsionadas. Sefarad, a Espanha dos Almoravides, de Averroes, continua viva em Marrocos, para onde vieram as grandes famílias mouras e judias expulsas pela Reconquista, trazendo, há seis séculos escondidas nos baús, as chaves das casas deixadas na Andaluzia.

Nos oito anos que levo na ONU, em viagem quase permanente, talvez a mais fascinante das descobertas tenha sido a da cultura árabe e a da islâmica: Marrocos, Iêmen, Egito, Tunísia, Irã, Líbano, Zanzibar. Lamento haver chegado tão tarde a esse universo para mim desconhecido e hoje demonizado no Ocidente pelo medo, pelo preconceito, pelo oportunismo político de direita. Não nos é fácil decifrar esse código, nós que vivemos num mundo desencantado de onde foram banidos Deus e o sobrenatural. Esta é, ao contrário, a vida que não se pode separar de Deus e do sagrado, no qual se banham todas as coisas, como na cristandade medieval. Tudo se inicia em nome de Deus, clemente e misericordioso, a quem também eu rendo graças por me haver revelado, no crepúsculo da existência, uma ponta da infinita diversidade e surpresa da experiência humana, tal como manifesta na variedade inesgotável das culturas.

É o que me permite repetir o verso de Gibran que os calígrafos árabes reproduzem em todos os estilos: "A Terra é minha pátria, a humanidade é minha família".

Aliás, uma das minhas afinidades com essa cultura é ter ela elevado ao status de arte maior a caligrafia, a princípio destinada a fixar a palavra divina, revelada ao Profeta: "O que é a palavra? É um vento que passa. Quem pode encadeá-la? A escritura" (Al Qalqashandi, século 15). Outro mestre da caligrafia árabe ensinava, no século 10º, que, na origem de todas as letras, só havia dois traços, o reto, correspondente ao diâmetro do círculo, e o curvo, sua circunferência. A primeira letra é o traço reto, o "alif". Aliado ao sinal "hamza", o "alif" exprime o som "a", vogal longa. O que levou Ibn Arabi a escrever, no século 13: "Deus, a ele a glória, fez do 'alif' a primeira letra da escritura, do 'hamza' a primeira na pronúncia. O 'alif' representa a existência da Essência em sua perfeição, pois ele não tem necessidade de ser movido por nenhuma vogal".

Antes dele, Mansur Al Hallaj (857-922) havia fornecido aos místicos sufis um dos conteúdos ideais para a composição em "espelho", onde a caligrafia é representada em dobro e ao inverso, como se vista no espelho. O princípio sufi é ir do exterior, as trevas, ao interior, a luz. Nascido opaco, o homem tem de trabalhar sobre si mesmo para começar a brilhar até tornar-se puro como a superfície do espelho. Só então ele há de refletir a divindade. Os versos de Al Hallaj escritos em espelho são estes:

"Eu sou aquele(a) que eu amo e aquele(a) que eu amo sou eu
Nós somos duas almas em um corpo
Ver a mim é ver a ele(a) e vê-lo(a) é nos ver a ambos".

Depois disso, quem é o bárbaro, quem escreveu essas palavras há 800, mil anos ou os que pretendem fazer o insosso computador substituir a nós todos, que só escrevemos à mão para sentir a textura das letras?

...


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