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Folha de S. Paulo - 2003

São Paulo - Brasil

 

A perda da inocência

26/10/03

 

Rubens Ricupero

A reunião de Madri para financiar a ocupação iraquiana e o memorando em que o secretário de Defesa Rumsfeld se pergunta se os EUA estariam ganhando ou perdendo o pós-guerra no Iraque e no Afeganistão são expressões da perda da inocência (ou das ilusões, se se preferir) que caracteriza este duro início de século. A intratável realidade do Oriente Médio desmontou em poucos meses a auto-suficiência, obrigando os americanos a reconhecer por palavras e atos que o poder unilateral não basta. Do mesmo modo, o atentado contra Sérgio Vieira de Mello e seus companheiros em Bagdá liquidou para sempre a inocência da ONU, o falso sentimento de que ela não precisava de proteção porque encarnava a causa da humanidade.

A ilusão sobre a quase onipotência americana dissipou-se mais depressa que as relativas ao "fim da história" ou aos benefícios de uma globalização supostamente capaz de, por toda parte, consolidar prosperidade e democracia. Mais uma vez se comprova que as transformações históricas, ainda as melhores, trazem embutida a podridão, assim como a vida tem dentro de si a semente da morte.

Os livros de tese sobre o "novo Império" que proliferaram desde 2001, epígonos ou derivação generalizada dos clássicos da teoria do imperialismo, de Hobson e Hilferding a Lênin e Rosa Luxemburgo, não tiveram comparável originalidade ou talento para captar as diferenças do fenômeno atual. Em comum com os ultra-reacionários americanos, partidários do ativismo militar e intervencionista de Washington, embora em sentido contrário, tendem a igualmente ignorar ou subestimar o peso decisivo que as limitações econômicas e de tropas acabarão por impor a essa militarização da política externa.

Desde a abolição do recrutamento obrigatório, 30 anos atrás, os EUA dispõem apenas de um exército de voluntários e dependem de reservistas da Guarda Nacional. Esse recurso tem sido acionado de forma cada vez mais frequente. Entre a Primeira Guerra Mundial e a Guerra do Golfo, em 1991, houve nove mobilizações da reserva em 75 anos. A partir de então, em pouco mais de uma década, as reservas já tiveram de ser mobilizadas dez vezes. No caso da Força Aérea, mais de um terço dos combatentes no Iraque pertencem à Guarda Nacional, porcentagem que ultrapassa a metade quanto aos fuzileiros navais. Como os reservistas ganham mais na vida civil e enfrentam dificuldade em sustentar as famílias com o soldo militar, é compreensível que apenas 49% das reservas cogitem de realistamento futuro.

Os EUA mantêm 135 mil soldados no Iraque, número insuficiente. A fim de aumentá-los até 200 mil, teriam de desguarnecer a Coréia do Sul e a Bósnia. Imaginem se resolvessem atacar a Coréia do Norte ou outro "Estado-bandido"! Forças militares compactas podem ganhar guerras rápidas contra adversários fracos na base da parafernália tecnológica. Ocupar o território, contudo, exige efetivos numerosos e dispostos a sofrer desgaste contínuo.

Os limites impostos pela capacidade da economia agravam mais o panorama. Os EUA passaram de um superávit orçamentário de US$ 240 bilhões a um déficit de mais de US$ 400 bilhões em três anos, sem computar os US$ 87 bilhões solicitados para o Iraque. Não faz muito tempo, previa-se excedente acumulado de US$ 5 trilhões a US$ 6 trilhões para a década que termina em 2013. Agora, as projeções são de déficit entre US$ 1,8 trilhão e US$ 4 trilhões. Com o déficit externo em mais de US$ 600 bilhões, a economia precisa atrair recursos estrangeiros ao ritmo de cerca de US$ 2,8 bilhões por dia!

Recente estudo de economistas da UBS Warburg indica como vem se agravando o peso dos gastos militares. O orçamento militar em sentido amplo _não só defesa externa mas também segurança interna, reconstrução, programas de ajuda militar_ era de 10% do PIB nos anos 50, diminuindo para 5%, 6% na década de 80. Graças ao "dividendo da paz", após o fim da Guerra Fria, chegou a 3%, o ponto histórico mais baixo, em 2000 (não por acaso, o ano do grande saldo orçamentário), com previsão de baixa adicional.

A tendência se inverteu com o atual governo e, após os atentados terroristas, saltou a 3,5%. O estudo projeta que essa cifra deverá dobrar no futuro próximo e poderá atingir 8% a 9% do PIB. Se isso ocorrer, não seria possível manter as reduções de impostos, que teriam de sofrer acentuado aumento. A alternativa seria reprimir as despesas domésticas a níveis politicamente insuportáveis ou deixar explodir o déficit do Orçamento.

É saudável às vezes baixar das alturas exaltantes das elucubrações sobre o novo Império à realidade prosaica da aritmética. Algumas contas simples de somar e diminuir bastam para mostrar que, com um déficit gêmeo de 5% a 6% do PIB, no Orçamento e nas contas externas, e reduzidos a um exército de voluntários, os americanos estão longe não só dos romanos mas até dos britânicos da era vitoriana, quando Londres montou o Império na base de seguidos e volumosos excedentes no balanço de pagamentos.

A tirania dos números é incompatível com a repetição infindável de invasões como as do Afeganistão e do Iraque. Não é outra a explicação para a resolução do Conselho de Segurança e a reunião de Madri: o governo dos EUA necessita dos recursos simbólicos da ONU em termos jurídicos e políticos e precisa do aporte concreto de terceiros em tropas e dinheiro, talvez não para pagar a conta inteira como na Guerra do Golfo de 1991 (US$ 60 bilhões), mas parcela substancial dessa fatura.

Multiplicam-se os sinais de que a confiança inicial está trincada e que principia um autoquestionamento, como o que transparece no memorando no qual o chefe do Pentágono se interroga sobre os resultados da presente orientação. Apesar de embaraçosa para a propaganda governamental, a autocrítica é salutar, sobretudo porque vem a se somar a outros indícios de mal-estar, tais como a tendência desfavorável das pesquisas, a resistência do Congresso aos créditos adicionais e até fatos menores, como a recusa de regressar ao Iraque de 29 militares.

Mais significativas são as decisões de retirar do Pentágono a supervisão da ocupação e a ascensão do secretário de Estado Colin Powell após o êxito no Conselho de Segurança. O efeito cumulativo disso tudo, mais o do debate da campanha eleitoral, torna razoável imaginar que a postura agressiva pós-11 de Setembro não deverá sobreviver às eleições, salvo se houver fatos novos de gravidade análoga à dos atentados. Em parte, isso ocorrerá devido à perda das ilusões, mas em parte em razão de fato que termina, cedo ou tarde, por impor-se: o de que, em circunstâncias não-excepcionais, a diplomacia custa invariavelmente mais barato que a guerra e a ocupação.

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