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Folha de S. Paulo - 2003

São Paulo - Brasil

 

"Estão todos mortos"

28/12/03

 

Rubens Ricupero

"SE O QUE tens a dizer não é mais belo que o silêncio, cala-te." Maria Werneck de Castro não teria nada a temer desse provérbio, iluminado incontáveis vezes pelos calígrafos árabes. Os fragmentos autobiográficos que seu irmão Moacir organizou para saírem em breve sob o título de "No Tempo dos Barões: Esplendor e Ruína de uma Família Fluminense no Ciclo do Café" vencem com folga o cotejo com o silêncio. Não é apenas a beleza pungente que faz dessas lembranças de menina um grande pequeno livro, obra-prima que já nasce clássica, como o diário de Helena Morley, com o qual foi comparado. É que essas menos de cem páginas contêm tanta intensidade de vida, mágoa tão machucada, mas sem indulgência diante do naufrágio humano do brilhante e efêmero capítulo fluminense do Império, que o silêncio nos privaria de chave essencial para a compreensão da experiência brasileira.

Eduardo Silva, o historiador de "Barões e Escravidão", realça, em prefácio penetrante, que se trata de documento histórico substancioso e sem par sobre a vida privada de período pouco estudado da decadência fluminense no pós-Abolição. Maria Werneck nasceu 17 anos depois do fim da escravidão, na fazenda Abahyba, como se escrevia em 1905, perto de Vassouras. Seus primeiros dez anos, vividos na fazenda, fornecem o ângulo de visão de baixo para cima, a partir do qual as crianças enxergam o mundo dos adultos, resultando, segundo o prefácio, em autêntica etnografia da vida familiar numa fazenda de café, o espaço secreto do cotidiano íntimo. Tudo isso é verdade e muito mais. Por exemplo, o prefaciador valoriza com razão a análise exata do fim de uma estrutura econômico-social, o papel central de mulheres fortes que se afirmam na hora da crise, o nível admirável dos estudos que começavam em casa sob a guia dessas mulheres. Nota também a argúcia com que se desmascara o preconceito contra o trabalho, as tenazes sobrevivências da escravidão que, tal um ar de pestilência, condenava a todos, ex-senhores e antigos escravos, a análogo destino de existências truncadas.

Valiosas e indiscutíveis, as qualidades históricas e sociológicas são, no entanto, como que consequências indiretas, não buscadas conscientemente. O que desejava a autora era simplesmente relatar o que sabia da vida dos pais. A tarefa fora, de início, confiada à irmã mais velha, Elsa, que conhecera mais gente e ouvira mais histórias. Mas um dia Elsa confessou: "Não posso. É tanta tristeza, que começo a chorar. Não aguento esse sofrimento, não só o nosso, mas o dos parentes". O "pathos" do episódio, um dos primeiros do livro, reaparece em muitas páginas. Veja-se o trecho em que Maria descreve o "enterro de pobre" de sua avó, a viscondessa de Arcozelo, obrigada a vender a fazenda principal e morar numa casa de colono: "Nunca esqueci a cena, eu, sozinha de luto, (...) vendo passar o caixãozinho carregado pelos ex-escravos maltrapilhos, descalços, de chapéu na mão, um a um".

A compaixão abraça a todos, parentes desafortunados, mas igualmente e sobretudo as vítimas da estrutura de injustiça e exploração. Não há esnobismo na reconstituição genealógica, indispensável à narrativa. Muito menos deformação mistificadora e nostálgica de passado indefensável. Aos poucos, os herdeiros tomam consciência de onde vinha a chorada riqueza que se perdeu. Elsa diz que não consegue usar as jóias da família porque os brilhantes eram "lágrimas de escravos". A lucidez do juízo não permite absolver os antepassados. Esses, aliás, deixaram confissão escrita. O bisavô, barão de Pati do Alferes, escreveu obra prática, "Memória sobre a fundação de uma fazenda na província do Rio de Janeiro" (1847), em que lamenta a destruição da Mata Atlântica para plantar café: "Ela mete dó e faz cair o coração aos pés daqueles que estendem suas vistas à posteridade e olham para o futuro que espera seus sucessores". Comenta, em outro ponto, que a escravidão é "o germe roedor do Império do Brasil", que, apressa-se em acrescentar, "só o tempo poderá curar". Sendo os escravos o "nosso melhor capital", deveria o senhor deixar-lhes um bocado de terra para plantar, pois: "Estas suas roças e o produto que delas tiram fazem-lhes adquirir certo amor ao país, distraí-los um pouco da escravidão e entreter o seu pequeno direito de propriedade (...) O extremo aperreamento desseca-lhes o coração, endurece-os e inclina-os para o mal". À luz de tal crueza no realismo, conclui a bisneta: "Um dia a festa acabou. Não foi só a Abolição: já antes (...) o ciclo do café estava condenado pelo esgotamento das lavouras, que haviam ocupado o espaço de florestas seculares destruídas. Nós, os descendentes, (...) pagamos o preço do atentado cometido contra a natureza, à custa da exploração do braço escravo".

Elegia a um Brasil defunto, testemunho de amor filial, tributo comovente ao amor conjugal dos pais, o relato evoca um tempo e mundo caducos com emoção contida, pudor e concisão. Coerente com a intenção original, detém-se na morte do pai, em 1926, quando a autora tinha pouco mais de 20 anos. Teria de viver ainda 74 e só principiou a rabiscar esses pedaços de vida após os 90 anos, extinguindo-se em 2000. Marisa e eu a conhecemos em 1961, quando ela de pouco havia ultrapassado a metade do seu caminho. Pioneira dos tempos heróicos de Brasília, representante principal da Caixa Econômica Federal durante a construção, morou na Cidade Livre, mudando-se mais tarde para uma das casas da Caixa perto da Av. W-3, onde a encontramos, recém-casados. Não obstante os 33 anos que nos separavam, ela foi para nós mãe, irmã mais velha, amiga, conselheira e, acima de tudo, mestra de vida, até de receitas tradicionais, de pequenos conselhos práticos que se incorporaram ao nosso cotidiano. Vindos de São Paulo, de meio majoritariamente italiano, Maria sempre representou para nós o Brasil no que tinha de melhor. Não só no elo de continuidade com um passado prestigioso, mas na retidão de caráter, na finura de espírito, na elegância do estilo de vida de simplicidade e refinamento despojado. Com o coração do lado certo, o dos movimentos de emancipação social, de rigoroso espírito científico, que se exprimiria na carreira tardia de desenhista botânica de espécies da flora ameaçadas de extinção, tinha a paixão do conhecimento e da beleza, que nos inoculou. Arrastava-nos aos cursos e projeções da jovem UnB, de introdução à música e ao cinema, guiava-nos no seu jipe a Pirinópolis, a fazendas setecentistas, fazia-nos descobrir o esplendor do cerrado, apresentava-nos a gente que vivia como ela para a cultura e a arte.

Junto com Wladimir Murtinho, desaparecido em dezembro passado e que só viemos depois a encontrar, Maria Werneck de Castro foi a influência mais benfaseja e transformadora de nossa vida, a que mais nos ajudou a dar-lhe sentido, a recriar-nos a nós mesmos. Ler essas páginas foi ouvir de novo sua voz cristalina, sua pronúncia precisa, seus juízos perspicazes. Moacir termina a apresentação dizendo: "Estão todos mortos". Não para nós, que só os conhecemos graças a essa voz querida. E, menos que todos, Maria, de quem beijamos de novo as mãos, como da última vez, comovidamente abraçando a silhueta fragilizada pela dor física, certos em Deus de que nada poderá jamais aniquilar a consciência pessoal e imortal que nos espera na terceira margem do rio do tempo.

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