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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

A lúgubre ciência

01/02/04

 

Rubens Ricupero

O FEIO adjetivo que se aplica à demografia na Inglaterra provém de uma falsa profecia. Malthus, um dos primeiros e raros economistas a valorizar a população como variável fundamental da economia, enganou-se ao prever que os seres humanos cresceriam em número mais depressa que a capacidade de alimentá-los. Desde então, os economistas reverteram em geral à tradição de negligenciar a demografia ou a tratá-la como parte de um imutável pano de fundo, como o clima ou a geologia.

Foi preciso recorrer a gente de outras disciplinas, quase sempre de mais aguda consciência da historicidade de todo o conhecimento humano, para compreender que a população não tem a estabilidade da astronomia. Fernand Braudel conferia às tendências demográficas posição central na determinação dos ciclos de longa duração, às vezes seculares. Em 1976, coube a um historiador e demógrafo, Emmanuel Todd, a primazia de anunciar, em "La Chute Finale", a "decomposição da esfera soviética", na base da baixa da natalidade, combinada a outros indicadores.

A centralidade da demografia ganhou atualidade nesta nossa época, na qual a transição demográfica acelerou-se tanto que obriga a corrigir previsões a intervalos cada vez menores. Dez anos atrás, por exemplo, a Divisão de População da ONU tinha estimado que, em 2050, a população mundial atingiria 9,8 bilhões. A projeção caiu agora a 8,9 bilhões, quase uma Índia a menos. Explicação: a taxa de fertilidade desabou muito mais rápido que se imaginava, e o impacto da Aids na explosão da mortalidade na África é bem pior do que se temia.

Calcula-se que sejamos hoje cerca de 6,4 bilhões no planeta e que aumentemos à taxa de 1,2%, mais ou menos 77 milhões a cada ano. No próximo meio século, metade do crescimento da população virá de oito países: Índia (21%), Paquistão, Nigéria, EUA, China, Bangladesh, Etiópia e Congo. Será uma surpresa para os brasileiros não ver na lista o nome do Brasil, que ingressou no século 20 com pouco mais de 17 milhões e saiu com 170 milhões. Em compensação, na Índia, a população cresce, em uma só semana, mais do que a da União Européia inteira em um ano.

Quase toda a expansão esperada se dará em países pobres. A única exceção notável é os Estados Unidos, país no qual o relativo dinamismo demográfico continuará a ser componente essencial do poderio econômico e militar. A excepcionalidade americana, em comparação com as outras sociedades abastadas, se origina de uma taxa de fertilidade mais elevada, reforçada por imigração também maior. Aliás, no fundo, o primeiro fator se resume ao segundo, pois são os imigrantes que mantêm alta a fertilidade ianque até que seus descendentes aos poucos comecem a adotar o mesmo comportamento reprodutivo do resto da população.

A fertilidade, isto é, a média de filhos de uma mulher em seu período de reprodução, mergulhou, em quase todos os países ricos, a níveis bastante inferiores ao mínimo indispensável para repor a população, evitando que ela decresça (em torno de 2,1). Na Europa, só a paupérrima Albânia está acima desse mínimo. Os demais oscilam entre 1,9 para a Irlanda e 1,15 para a Espanha. O curioso é que o declínio da fertilidade é fenômeno menos grave nos prósperos (França, Noruega, Dinamarca) do que nas nações mais modestas do Mediterrâneo (Grécia, Itália, Portugal e Espanha).

A conseqüência é que, em 50 anos, muitos desses povos vão encolher fisicamente. Se o comportamento demográfico não se alterar, em 2050, o Japão terá população 14% menor que hoje, a Itália, 22%, a Rússia, 30%, e a Estônia sofrerá autêntica catástrofe populacional, com redução de 52%! Estima a Comissão Européia que, devido a isso, a taxa de crescimento econômico potencial para a União Européia poderá cair de 2% a 2,25% por ano a 1,25%, com redução igualmente apreciável na produtividade.

Exemplo dramático é o da Itália, durante mais de um século um dos países clássicos da emigração. O "Corriere della Sera" calculou que, entre abril e junho de 2001, houve, no país, mais nascimentos de empresas (102 por dia) que de bebês (96)! O povo italiano foi o primeiro na Europa a ver o número de pessoas de mais de 65 anos (17%) exceder o de crianças de menos de 15 (13%). O Triveneto, a macrorregião que compreende o Veneto, o Friuli, o Trentino-Alto Adige, isto é, o nordeste italiano, considerada a região cuja prosperidade cresce mais em toda a Europa, assiste com apreensão à tensão crescente entre dinamismo econômico e declínio demográfico.

Zona de forte vocação industrial, onde a indústria representa ainda 40% ou mais do emprego e da produção, o nordeste italiano irá sofrer, nos próximos 20 anos, o choque simultâneo de 20 mil aposentados a mais e 30 mil trabalhadores a menos por ano!

Em contraste com o panorama melancólico europeu, os EUA atingiram em 2000 cerca de 285 milhões de habitantes, um salto de 13,2% na década de 1990, a de maior crescimento em termos absolutos de toda a história. Na mesma década, mais de 13 milhões de imigrantes legais ou ilegais ingressaram nos EUA.

Um dado significativo é que metade dos que engrossaram a força de trabalho nesses anos era de imigrantes. Considerando apenas os trabalhadores homens, a proporção é de oito em cada dez dos novos empregos. Em 2050, os americanos passarão a ser mais de 400 milhões, ao passo que os europeus se reduzirão de 726 milhões a 632 milhões. Nessa hipótese, receia a Comissão Européia que a proporção da Europa no bolo da produção mundial poderá desabar de 18% a 10%, enquanto a dos EUA aumentaria de 23% a 26%.

Outro estudo, do Instituto Francês de Relações Internacionais, utilizando dados um pouco distintos, chega a conclusões semelhantes. O peso europeu na produção global passaria de 23%, em 2000, a 12%, em 2050, uma divisão por dois do poderio econômico em meio século! Ao longo desse período, os EUA conservariam aproximadamente a mesma posição (entre 25% e 23%) e a Ásia saltaria de 35% a 45%.

À luz dessas tendência, é fácil entender por que muitos europeus consideram a demografia como uma ciência lúgubre. Caso não haja mudanças rápidas no horizonte, pode-se ainda falar seriamente de uma Europa unida contribuindo à emergência de um mundo cada vez mais multipolar diante dos EUA?

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