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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

O mistério do consumo de massa

01/08/04

 

Rubens Ricupero

COMO EXPLICAR que, em país com desemprego alto e erosão da renda média, haja 53 milhões de telefones portáteis e que nada menos que 1,5 milhão deles tenham sido comprados no período de vendas do Dia das Mães? No artigo de Mac Margolis "Profit and Poor", na "Newsweek" (19/07/04), em que constam esses dados, sugere-se explicação. O aumento de quase 20 milhões de aparelhos em dois anos deve-se, em quase 80%, aos pré-pagos, aparelhos básicos com cartões de chamadas pagas e prestações mensais baixas.

Esse é apenas um dos exemplos mais espetaculares da verdadeira explosão de consumo de massa no Brasil e em alguns outros países da América Latina, que vem sendo documentada e estudada de modo pioneiro pelo Instituto Fernand Braudel de Economia Internacional. Associado à Fundação Armando Alvares Penteado, o instituto tem como diretor-executivo meu amigo Norman Gall. Nova-iorquino da gema, nascido e crescido numa das áreas de maior vitalidade popular da "Capital do Século 20", Norman tornou-se um paulistano integral, cidadão de Higienópolis empenhado em melhorar a vida dos adolescentes da periferia com idéias práticas como os Círculos de Leitura.

Conheci-o quase 30 anos atrás, em Washington. Ele preparava então um estudo sobre o programa brasileiro de energia nuclear. Fascinou-me sua cultura enciclopédica sobre economia internacional, e logo descobrimos afinidades na paixão pela abordagem da chamada história global, a riqueza humana da América Latina, a música, nossa origem comum de descendentes de imigrantes criados em ambiente de metrópole, ele, no Bronx, eu, no Brás.

Justamente por haver escapado à burocratização do conhecimento na universidade e ter optado por "vivere pericolosamente", sem segurança econômica, mas em contato com a realidade empírica dos mais diversos países do continente, ele preservou uma originalidade e frescor de inteligência que o colocam sempre "adiante da curva". Isto é, em vez de chover no molhado e repetir o que todo mundo diz, ele está constantemente identificando histórias novas que ocorrem debaixo do nariz do establishment universitário e jornalístico, mas passam quase despercebidas. Foi assim quando começou a escrever, nos anos 60, sobre a fronteira agrícola, então no início de sua marcha inexorável para o oeste.

A ele se devem também algumas das primeiras pesquisas sobre as comunidades de pobres imigrantes bolivianos e peruanos, muitos clandestinos, trabalhando nas pequenas indústrias de confecções operadas por coreanos no Bom Retiro. O trabalho mereceu consagrador artigo de Mario Vargas Llosa, que se comoveu com histórias que lhe fizeram recordar a sina de sua própria mãe em Los Angeles.

É desse mesmo tipo o programa que o instituto desenvolve sobre instituições para consolidar a democracia de massas na América Latina. Para isso, dispõe Norman, em caráter pessoal, de vantagem comparativa inigualada entre nós: uma riquíssima rede de amigos intelectuais e homens públicos, em países latino-americanos que a média dos brasileiros desconhece por completo. Desse programa faz parte uma pesquisa sistemática sobre a democratização do consumo, sobretudo nas periferias paupérrimas das grandes cidades.

Conforme é apropriado para instituto com nome tão prestigioso, parte-se da observação de Fernand Braudel acerca da contínua expansão do número de consumidores como uma das tendências estruturais de longo prazo no avanço da civilização. Curiosamente, na Inglaterra do princípio da Revolução Industrial, no século 18, aconteceu algo semelhante à nossa atual experiência: a demanda começou a crescer, apesar da queda em renda real. A razão foi idêntica à de hoje: a diversificação e, principalmente, o barateamento da oferta dos artigos de consumo, devido à produção em escala industrial.

Uma das observações interessantes do estudo é que, no Brasil, até fins dos anos 80, cerca de 75% do consumo de bens duráveis era monopolizado pelas classes abastadas. O êxito do real em pôr fim à inflação crônica desencadeou processo que impulsionou os pobres _as classes C, D e E, das análises de marketing_ a saltarem para 42% do consumo nacional. Entre 1999 e 2003, por exemplo, a participação dos pobres no mercado de cartões de crédito elevou-se de 10% a 21%, e o uso de cartões nos supermercados cresceu 1.250% em cinco anos! Hoje em dia, 85% dos lares brasileiros possuem geladeira, e 89% têm televisão. Os modelos mais baratos de carros correspondem a 70% das vendas, das quais 75% com financiamento.

A transformação de barracões precários em casas de tijolos, pelo trabalho dos próprios moradores, fez com que as favelas urbanizadas se tornassem caras demais para famílias que ganham menos de dois salários mínimos por mês. Os mais pobres são obrigados a ocupar a "periferia da periferia", zonas de condições sanitárias e de segurança de alta periculosidade, erroneamente generalizadas à periferia como um todo. Esta, apesar dos pesares, beneficiou-se dos investimentos em infra-estrutura de algumas administrações, entre as quais destacou-se a do saudoso Mário Covas, que destinou à área 70% dos seus gastos. O balanço nacional retratado pela Pnad do IBGE de 2001 é que a proporção de casas brasileiras com eletricidade alcançou 96%, e a das que desfrutam de coleta de lixo, 83%.

O fenômeno não é restrito às zonas metropolitanas do Brasil. Cidades como Lima e La Paz apresentam tendência similar, ao passo que o movimento parece ter-se estancado em Buenos Aires e Caracas. A realidade latino-americana é multiforme e não se presta a generalizações simplistas.

Pouco conhecemos ainda dessa realidade que se transforma debaixo de nossos olhos. Quantos de nós já visitaram a "periferia da periferia"? O que sabemos da existência cotidiana de nossos conterrâneos, que ali tentam extrair alguma alegria de suas vidas apertadas? O que explica o mistério da explosão do consumo de massa, apenas a oferta de produtos modestos e baratos? O que sucede do lado da demanda, do emprego, da renda? Será que o comportamento político surpreendentemente conservador de partido como o PT, originário da antiga periferia do ABC, não reflete esse fenômeno?

É isso o que o Instituto Braudel se propõe a investigar in loco, convencido de que da resposta a essas perguntas vão depender a consolidação e o aperfeiçoamento da democracia de massas no Brasil e na América Latina.

...


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