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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

Óleo para a máquina do mundo

03/10/04

 

Rubens Ricupero

SEGUNDO o ator Matt Damon, que atribui a opinião a um amigo, apenas três seqüências superariam a inspiração da obra original: o Novo Testamento é melhor que o Antigo; "Huckleberry Finn", de Mark Twain, é superior a "Tom Sawyer", e "O Poderoso Chefão 2", a "O Poderoso Chefão 1". Devo dizer, quanto ao terceiro exemplo, que não estou convencido. Acho que, na série de Coppola, à medida que os descendentes americanos se afastam da raiz siciliana, mais decai a nobre raça. Mas isso talvez se deva a minhas origens e paixão pela Sicília, que me atrai bem mais que Las Vegas...

Não sei a que conclusões chegaríamos se aplicássemos o critério à época atual, comparada aos anos 70, dos quais parece às vezes continuação. Eu vivia em Washington, 30 anos atrás, e me surpreende, com freqüência, a sensação do déjà vu. A combinação economia de guerra _crise de petróleo_ e instabilidade cambial, conduzindo à redução do crescimento econômico, é o plágio principal do enredo, que não se limita a copiar esse aspecto. Alguns atores ou não mudaram de papel ou só o fizeram ligeiramente. Donald Rumsfeld, por exemplo, já era o secretário de Defesa de Gerald Ford, e Richard Cheney também comandava a Casa Branca, só que na qualidade de chefe da equipe presidencial. A fim de que o leitor possa dar-se conta do inusitado dessa continuidade, basta perguntar-se se seria concebível, no Brasil de hoje, reprisar _se vivos fossem_ os generais Silvio Frota e Golbery do Couto e Silva, na Defesa e na Casa Civil, respectivamente!

Tenho pensado muito nisso ao ler as manchetes dos últimos dias: bombas e combates diários no Iraque, o barril de petróleo a US$ 50, as transações especulativas em moedas atingindo a média espantosa de quase US$ 2 trilhões por dia (US$ 1,9 bilhão, segundo o BIS, de Basiléia), tudo isso obrigando o FMI a rever para baixo _embora ainda de leve_ suas previsões de expansão para a economia mundial. Que outras semelhanças ou diferenças em relação ao último período de coincidência desses fatores poderiam sugerir-nos alguma pista sobre o que nos espera? A respeito da singularidade política da etapa que vivemos, não preciso acrescentar ao que escrevi, inclusive na semana passada. Já o que sucede com o petróleo mereceria exame demorado, quem sabe em mais de um artigo.

Habituamo-nos tanto à montanha-russa do petróleo que nem percebemos como a crise de energia é, no fundo, uma anomalia e uma exceção na evolução da economia internacional. Desde que se iniciou, há mais de 200 anos, a Revolução Industrial, nunca tinha havido problemas específicos de escassez ou preço com a fonte de energia que movia a máquina do mundo, o carvão a princípio, a eletricidade depois. Mesmo quando, a partir do começo do século 20, o petróleo passou a ocupar posição cada vez mais dominante, nada indicava um desvio qualquer em relação à lei invariável da sociedade industrial: a garantia da abundância e da eliminação das carências em todos os domínios, dos alimentos às roupas e artigos de consumo durável. Tal sensação durou tanto que, em 1964, quando se reuniu em Genebra, a 1ª Unctad, com o programa de examinar todas as questões relevantes do comércio e da economia, o petróleo foi praticamente ignorado, pois custava cerca de US$ 2 o barril, menos que água mineral! Não se passariam dez anos para que o mundo despertasse da ilusão de que teria para sempre energia a preço de banana.

Desde então, os preços do petróleo quadruplicaram em 1973-1974 e quase triplicaram em 1979-1980, tendo se multiplicado por cerca de 20 vezes entre o início e o fim da fase de alta (1973-1980). Depois dos dois choques altistas dos anos 70, registrou-se em 1986 um "choque às avessas", responsável pelo desabamento das cotações até 1990. Após novas oscilações, outro choque ocorre, entre o início de 1999 e o outono de 2000, levando o barril do Brent de US$ 10 a mais de US$ 30. Mais recentemente, o óleo situou-se primeiro ao patamar de US$ 40 o barril e, já agora, vamos nos acostumando, ao menos por enquanto, a vê-lo ao redor de US$ 50.

O que diferencia o momento atual dos choques da década de 70? A primeira grande diferença é que, em 1973 e 1979, o choque foi sobretudo de oferta: a elevação de preços pela Opep, a suspensão de fornecimento durante a Guerra do Yom Kippur e da Revolução no Irã. Hoje, o choque vem da demanda, que teve o crescimento mais alto em duas décadas. Devido à aceleração econômica mundial, a demanda, entre 2002 e 2004, aumentou em 3,6 milhões de barris diários, a China contribuindo com 36% do aumento, e os EUA, com 24%. O Reino Unido, que era exportador de óleo, passou, a partir de junho, a importador líquido, o mesmo que sucedera à China depois de 1993. A tendência é que a pressão do lado da demanda continuará a provir da China, da Índia e de outros países em vias de expansão. Em contraste, as economias maduras tendem, em termos relativos, a reduzir seu consumo, quer porque poupam energia, quer porque crescem menos.

Ainda assim, as disparidades a corrigir são gigantescas. Hoje em dia, os países ricos (1 bilhão de habitantes) consomem 4,5 toneladas de equivalente de petróleo (TEP) por pessoa, anualmente, ao passo que os países em desenvolvimento (5 bilhões de habitantes) consumem, em média, apenas 0,75 TEP! Não é, portanto, de admirar que, enquanto os desenvolvidos vêm aumentando seu consumo de petróleo a taxas de dois dígitos, nos últimos 20 anos, nas economias em desenvolvimento, a expansão tem sido vertiginosa: de 306% na Coréia do Sul, 192% na China, 240% na Índia e 88% no Brasil.

A Agência Internacional de Energia estima que, nessas condições, a demanda continuará a crescer a 1,9% ao ano e poderá passar dos 82 milhões de barris diários atuais a 120 milhões em 2025, ou seja, 50% a mais. Além do aumento do consumo, um fator complicador é a limitada capacidade de refino, principalmente nos Estados Unidos, e a dificuldade de superá-la em boa parte por razões ambientais, o que explica a falta freqüente de gasolina. Finalmente, um poderoso elemento a estimular a busca de preços melhores pelos produtores é a desvalorização do dólar, que faz com que o aumento em dólares de 90%, desde o início de 2002, se traduza em elevação de apenas 40% em euros e de 60% em ienes.

Se, do lado da demanda, o panorama é, assim, de pressão contínua e em aumento, vejamos, na próxima semana, quais são as perspectivas da oferta, a fim de garantir (talvez) que não falte óleo à máquina do mundo.

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