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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

Felicidades

04/01/04

 

Rubens Ricupero

"O SÉCULO 19 é grande, cidadãos, mas o século 20 será feliz. Nada então se parecerá com a velha história; não necessitaremos temer, como hoje, uma conquista, uma invasão (...), uma rivalidade de nações à mão armada (...); não se precisará mais ter medo da fome, da exploração, de cair na prostituição por pobreza, na miséria por desemprego (...). Quase se poderá dizer: não haverá mais acontecimentos. Seremos felizes." Entre Victor Hugo, escrevendo essas palavras em "Os Miseráveis" (1862) e nós, que as lemos, atônitos, no início do século 21, existe a distância intransponível criada por Auschwitz e por Hiroshima. Depois disso, já não é concebível fé no progresso humano como a do poeta, que não podia imaginar que o futuro traria as guerras mundiais, o Holocausto, o totalitarismo, os campos de extermínio, as bombas nucleares.

Hugo era digno sucessor de Saint-Just, delirante no relatório apresentado à Convenção em março de 1794: "Que a Europa aprenda que vós não quereis mais, no território francês, nem um infeliz, nem um opressor: que esse exemplo frutifique sobre a terra; que ele propague o amor das virtudes e a felicidade! A felicidade é uma idéia nova na Europa".

O tom exaltado da promessa não salvaria da guilhotina, transcorridos menos de cinco meses, o jovem ideólogo do Terror, que oferecia ao povo "a felicidade de ser livre e tranquilo, a volúpia de uma cabana e um campo fértil cultivado por vossas mãos", concluindo bucolicamente: "um arado, um campo, uma choupana ao abrigo do fisco, eis a felicidade".

Diante das armadilhas que se escondem atrás do traiçoeiro conceito de felicidade, como compreender que gastemos horas infindáveis, nesta época do ano, desejando-a uns aos outros? Exatamente um século antes do autor de "Os Miseráveis", um espírito perspicaz, Rousseau, sugeria a explicação: "É necessário ser feliz, caro Emílio: é o fim de todo ser sensível; é o primeiro desejo que nos imprime a natureza e o único que não nos abandona jamais".
Se assim é, quais seriam os componentes da felicidade? Indicam as pesquisas que, para a maioria das pessoas, o primeiro elemento indispensável da ventura é a saúde. Seguem-se, em ordem variável, o amor, a liberdade, a família, a justiça, o trabalho, o dinheiro. Para a inteligência corrosiva de Flaubert, "ser burro, egoísta e ter boa saúde" eram as três condições para ser feliz. Mas, acrescentava, "se nos faltar a primeira, tudo está perdido...".

Deixando de lado os paradoxos, pode-se concordar ou não com as listas dos fatores essenciais à felicidade, que se repetem nas pesquisas. É lícito suspeitar, por exemplo, que as pessoas não foram sinceras, ao relegar o dinheiro ao último lugar. Ou notar a ausência de elementos significativos como o lazer, as diversões, a segurança, que hoje em dia, e não só no Brasil, tendem a ocupar posição central. Outra omissão sensível é a satisfação do impulso, que, para Hegel, constituía o motor da história: a busca do reconhecimento e aprovação dos outros, do aplauso e do elogio de nossos semelhantes. Os religiosos lembrarão da sede de Deus e da frase de santo Agostinho: criado para Deus, só nele o homem encontrará repouso. Nessa mesma linha, as bem-aventuranças evangélicas invertem a lógica de cabeça para baixo: abençoados, felizes, serão os mansos, os puros, os pacíficos, os pobres, os que sofrem fome, sede, perseguição por amor à justiça. Nos "Fioretti", são Francisco, sempre mais perto do Evangelho, ensina a frei Egídio, o "cordeirinho de Deus", qual é a perfeita alegria: é ser vilipendiado, rejeitado, espancado pelos seus, atirado à neve, com fome e frio. Gautama, o Buda, vai mais longe: como a velhice, a dor, a doença e a morte são inevitáveis, o melhor é buscar o nirvana, a extinção, o apagar de todo desejo e da consciência individual.

Como se vê dessa amostra incompleta, felicidade é tema complexo demais para caber numa pobre coluna de jornal. Contudo uma conclusão se impõe: não é algo que possa ser garantido aos homens por nenhum Estado ou movimento político, ao contrário do que julgava Saint-Just. No máximo, caberia ao Estado assegurar a procura da felicidade, conforme fez, em 1776, a Declaração da Independência americana, pela primeira vez transformando a idéia da felicidade em objetivo político. Em outras palavras, corresponde ao governo criar as condições para que as pessoas tenham acesso a alguns dos elementos da ventura _saúde, liberdade, justiça, trabalho e segurança_, deixando o resto à conta da capacidade de cada um ser feliz.

Denunciando os movimentos messiânicos empenhados em estabelecer na Terra a felicidade perfeita e para isso dispostos a sacrificar milhões de indivíduos, o populista russo Alexander Herzen afirmava, após o fracasso das revoluções de 1848, que toda meta infinitamente remota não era uma meta, mas um engodo. As metas deveriam estar mais próximas, ao alcance das mãos. E citava como exemplos o salário do operário ou o prazer no trabalho realizado.

Não soa exagerado, nem ambicioso demais. No entanto, 150 anos depois, estamos com 180 milhões de desempregados no mundo. Os "working poors", isto é, os que trabalham oito horas diárias mas ganham menos de US$ 1 por dia são 550 milhões. Não preciso lembrar que o desemprego em São Paulo e no Brasil nunca foi maior, ultrapassando o de países europeus como a Espanha, a França, a Itália, paradigmas do desemprego de massa. Se pudéssemos calcular fator mais intangível como a satisfação no trabalho, a cifra seria provavelmente astronômica, confirmando o dito de Thoreau, de que a maioria das pessoas vive vida de calado desespero. Será incuravelmente utópico, no início de novo ano, esperar que um dia possamos garantir a cada pessoa desejosa de trabalhar um emprego de salário adequado e condições dignas, não embrutecedoras? Será ingênuo ou inútil desejar a meus leitores ao menos essa felicidade modesta, humilde: a de um trabalho digno?

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