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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

Mais forte do que a morte

05/09/04

 

Rubens Ricupero

É O amor, diz o Cântico dos Cânticos; a paixão, querem alguns tradutores, que é mais forte do que a morte. A alegria de viver, a ânsia de vida, que é também desejo de amar, talvez pertença à mesma natureza. Ao menos foi o que sentimos todos os que vivemos a extraordinária experiência em que Gilberto Gil converteu o luto do primeiro aniversário da morte, em Bagdá, de Sérgio Vieira de Mello e seus 21 companheiros.

Repetindo o que fizera em Nova York, em 2003, Kofi Annan convidou Gil para de novo apresentar-se, nas comemorações do aniversário, em Genebra, em 19 de agosto. Confesso que tive medo de que não daria certo. À tarde, a cerimônia no Palais des Nations havia sido tocante, mas de uma emoção contida e sombria. Uma a uma, as vítimas foram evocadas pela projeção de fotos em que apareciam com os filhos, as mulheres e os maridos, os amigos, enquanto um representante da família acendia uma vela. As pessoas saíram de olhos úmidos e coração pesado, sem ânimo de festa, com a energia abafada pelo sentimento dessa incomensurável, torpe injustiça.

À noite, o cenário rococó de ouro alambicado do Victoria Hall e os discursos oficiais não ajudaram. Sentado numa das filas do gargarejo, perto dos músicos, vendo ao lado os sobreviventes e familiares ainda abatidos pela cerimônia de horas antes, eu não conseguia imaginar como a música dionisíaca e ensolarada da Bahia se casaria com o ambiente de austero calvinismo.

Pois não é que bastou a Gil, de branco vestido, começar a cantar e tocar para, em minutos, transmudar em vinho capitoso aquela água parada? Foi a repetição do milagre de 20 anos atrás, no ginásio coberto de Brasília. Diante de milhares de frenéticos, vociferantes aficionados, desencadeados contra ele e Caetano pelo atraso e por problemas técnicos, nosso futuro ministro provou ter o estofo do político nato. Sem se impressionar por vaias, manso mas firme, dialogou com a massa ululante e, em pouco tempo, regia um coro imenso em que milhares de cachorrinhos latiam obedientes ao seu comando.

Foi a mesma coisa em Genebra. O público multinacional, genebrinos, suíços, franceses, funcionários da ONU de 200 nações, cantavam todos, dançavam, marcavam o ritmo dos reggae, dos blues, das músicas brasileiras, da bela canção em francês que Gil compôs com Capinam sobre a ilha de Gorée, de onde partiam os tumbeiros, os sinistros navios negreiros, transfigurados pela beleza épica do refrão: "La peau de l'esclave est le drapeau de la liberté" ("A pele do escravo é a bandeira da liberdade"). No fim, cantou a favorita de Sérgio, a pedido de sua mãe, "Expresso 2222", também uma de minhas prediletas desde que, no distante 1971, outra grande artista nossa, Amélia Toledo, chamou-me a atenção para a letra deslumbrante e antecipatória.

Fiquei pensando: como explicar o milagre? Era a força da vida que se impunha sobre o poder da morte. Como os iorubás, que dançam nos cortejos fúnebres, não chorávamos a morte, celebrávamos a vida, 22 vidas luminosas. Comecei a entender um pouco o verso do salmista: "A alegria do Senhor será a nossa força". Compreendi também o que Caetano, com sua intuição sintética, quis significar ao dizer que Gil era o "Lula de Lula". Isto é, o presidente prova, pela sua surpreendente biografia, que no Brasil acontecem coisas impossíveis em quase todos os países _por exemplo, um operário, um retirante chegar a presidente da República.

Da mesma forma, pelo simples fato de existir, Gil desmonta outra impossibilidade _a de um artista criativo maior virar ministro da Cultura. E de fazer isso com estilo próprio e único, aliando a capacidade de ver coisas novas, como o potencial desenvolvimentista das indústrias criativas, com a continuidade da sua ação pessoal na criação, se não de composições inéditas, o que já seria demais, no desempenho de intérprete, de "re-criação".

Pertencem à primeira vertente iniciativas como o projeto sobre o setor audiovisual, alvo de campanha manifestamente excessiva, quando se coteja o espírito de diálogo e a flexibilidade do ministro com a ríspida intransigência de certos críticos. É dever de todos os que entendem do riscado contribuir para aperfeiçoar a proposta. O que não se pode é privar o país de legislação moderna no setor que é a alavanca da economia da criatividade.

À segunda dimensão correspondem os concertos em que Gil mostra que é possível, parafraseando frase notória, "ser e estar ministro e artista" ao mesmo tempo. Em tudo, na casca e na polpa, na forma e na substância, o que se irradia das representações é a alegria da inteligência, a malícia do estilo, a festa, a brincadeira, o lúdico balizando o calendário com o prazer, o ritmo, a Bahia, que lhe deu régua e compasso.

Os que, pelo mundo afora, vão a seus concertos _e os da ONU só lhe dão prejuízo_ sonham então que o Brasil é tudo o que eles perderam: alegria, prazer, a erotização da cultura, a graça do movimento, a espontaneidade do riso. Ninguém como Gil contribui tanto para fazer do Brasil um país que está na moda. É verdade que é um pouco também "una cosa mentale", sonhada mais que realizada. Somos igualmente o país da barbárie, onde os pobres dentre os pobres, os malditos da Terra, os sem-teto, o povo da rua são abatidos a pauladas nas noites frias como não se faz com os cães. Mas tudo, isso e aquilo, faz parte da mesma verdade ambígua. Temos de ser gratos a Gil por fazer com que nós e os outros sonhemos com um Brasil que será um dia de uma só verdade inteira e justa.

Também mais forte que a doença, a dor, a tortura de agonia cruel mostrou-se o exemplo que nos legou San Thiago Dantas, desaparecido há 40 anos. Meses após o golpe militar que tudo fez por evitar, já não podendo articular as palavras, comunicando-se por bilhetes, ele foi até o fim incansável em tentar excogitar fórmulas políticas e jurídicas que cicatrizassem a ferida, antes de que ela se revelasse mortal para a democracia e os direitos humanos.

Lúcido por ter sido o primeiro a perceber que os militares não arredariam do poder por 20 anos, o pessimismo da inteligência não lhe arrefeceu o otimismo da ação. Não era para ser. Amanhã, segunda-feira, às 19h, na igreja da Paz, em Ipanema, os amigos, aos quais pude associar-me graças à amável lembrança de Marcílio Marques Moreira, mandam celebrar missa à sua imperecível memória. Estarei longe, e, para mim, será o meio da noite. Estarei, contudo, unido aos companheiros, que irão levar a dona Edméia o comovido abraço daqueles que só a San Thiago aplicariam as palavras com que Dante se dirige a Virgílio:

"Tu duca, tu signore, e tu maestro!".

...


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