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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

Uma porta estreita

06/06/04

 

Rubens Ricupero

TAMANHO apenas não é documento no comércio internacional. O que conta é a participação no valor agregado das exportações de manufaturas. Há países que aumentaram muito as vendas externas de produtos industriais, às vezes até com elevado conteúdo tecnológico. No entanto, se essas mercadorias são meramente o fruto de linha de montagem de componentes importados, o benefício local se limita quase ao salário de mão-de-obra mal paga. É o caso das maquiladoras, no México ou outras nações, que começam maciçamente a transferir empregos para a China, onde o custo do trabalho é ao menos três vezes menor.

Em 2003, a porcentagem dos países em desenvolvimento no comércio mundial alcançou 32%. Quase um terço desse total, mais de 70%, foram de manufaturas. Quando se olha o valor agregado, contudo, o que se constata é que pouquíssimos, menos talvez que os dedos das mãos, foram os capazes de aumentar significativamente a participação no valor adicionado das manufaturas: Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura, um ou outro mais. Não é coincidência que fossem também os únicos que conseguiram estreitar, em termos de renda per capita, a distância em relação às economias ricas. Em outras palavras: a fim de que o comércio conduza, de fato, ao desenvolvimento pleno, àquilo que o ex-primeiro-ministro de Cingapura descreveu como "a passagem do Terceiro Mundo para o Primeiro Mundo em uma só geração", é preciso que esse comércio envolva mercadorias de alto valor agregado.

Se esses ocupam o topo, lá no degrau inferior da escada vamos encontrar os 38 países dependentes de apenas um produto primário para mais da metade de suas exportações (em 1953, o último ano da Guerra da Coréia, o café representou 73% da receita de exportações do Brasil). Se a dependência sobe a dois produtos, o número de países aumenta para 48. O pior é quando esse(s) produto(s) passa(m) a ser marginalizado(s) do comércio, devido à demanda estagnada ou à queda de preços. O algodão, por exemplo, era, no início dos ano 70, 4% do valor do comércio agrícola mundial, nível que caiu a 2% no fim dos anos 90. Todavia, para 24 nações pobres, o algodão figura entre as três principais exportações agrícolas e é a primeira para 11, correspondendo a 67% das vendas do Benin e 57% das de Burkina Faso.

Embora não esteja ainda chegando ao topo, o Brasil já percorreu, desde 1953, mais da metade do caminho. Considerando o período de dez anos entre 1993 e 2003, 26 itens da pauta exportadora brasileira excederam a média de crescimento de 30% por ano. Duas categorias de manufaturados de elevado grau de intensidade tecnológica estiveram entre as maiores exportações brasileiras: aviões e equipamentos de telecomunicação. As aeronaves da Embraer representaram 0,7% das exportações nacionais em 1993, nível que saltou para 3% em 2003 (foram o primeiro item em 2001 e o segundo em 2002). Os equipamentos de telecomunicação cresceram de 0,15%, em 1993, para perto de 2%, em 2003.

Não tenho infelizmente dados sobre qual foi o valor adicionado no Brasil a esses produtos e não sei se são disponíveis. Suspeito que o valor dos insumos importados seja relativamente alto e ficaria feliz se estivesse abaixo de 50%. De qualquer modo, já é alguma coisa, sobretudo quando se pensa que cerca de 58% do que exportamos cai, a rigor, dentro da categoria de produtos primários, 12% são manufaturas intensivas em mão-de-obra ou recursos naturais, 17% pertencem à classe de manufaturas de baixa intensidade tecnológica e 5% à de nível médio.

Além do valor agregado, outro aspecto qualitativo do comércio internacional é o dinamismo, isto é, a velocidade com que aumenta a venda de um determinado produto, comparada à média geral. Entre 1990 e 2002, a média da expansão das exportações mundiais foi de 6,3% por ano. Na rabeira do pelotão, ficaram as commodities, que só cresceram a 3%. Na vanguarda, as exportações de eletroeletrônicos, que aumentaram a mais do que o dobro da média. Entre as mais dinâmicas exportações brasileiras estão o petróleo, equipamentos de telecomunicações, carne bovina, aeronaves, o nosso vetusto café, sementes oleaginosas, automóveis, celulose, couro.

Os leitores ficarão talvez surpresos de saber que o Brasil virou exportador de petróleo de certa importância. O bruto estava quase ausente das vendas externas em 1993, mas já atingia 3% do total em 2003, crescendo exponencialmente ao longo desses dez anos. Os equipamentos de telecomunicação vêm se expandindo a quase 40% por ano, e os aviões, a mais de 20%.

Todas essas enfadonhas cifras e porcentagens eram necessárias para explicar por que a conferência da Unctad em São Paulo, entre os dias 14 e 18, tentará indicar o caminho para assegurar que o comércio acarrete benefícios reais em termos de desenvolvimento. Mais do que das negociações, isso depende sobretudo da qualidade e da diversificação da oferta. Já a partir de amanhã, realizaremos no Rio de Janeiro, na abertura da Semana do Comércio Exterior do Rio, um simpósio sobre a competitividade no comércio de produtos dinâmicos. Será no auditório do BNDES, em conjunto com o banco, a Camex, os ministérios do Desenvolvimento e da Agricultura, a Fundação Getúlio Vargas, com a primeira apresentação a cargo do presidente da Embraer, Maurício Botelho.

No decurso do dia, se discutirá o desempenho de alguns setores selecionados. Começaremos pela agricultura (carne de frango, frutas e sucos, algodão), seguindo-se madeiras e móveis, eletrônicos, serviços de informática e telecomunicações, bem como as questões ligadas à tecnologia e ao investimento, promoção de exportações, a criação das condições institucionais favoráveis etc. Esse será um dos dez eventos previstos para o Rio de Janeiro e dos mais de 50 incluídos na programação da Unctad em São Paulo.

A partir do estudo do caso brasileiro, a Unctad tenciona examinar como os países em desenvolvimento estão se saindo em cada um dos novos e dinâmicos setores do comércio mundial e o que se poderia fazer a fim de ajudá-los a melhorar o desempenho. Também no comércio qualitativo, pode-se dizer sem exagero que muito são chamados e poucos são os escolhidos, porque a porta é estreita demais. O propósito, em última análise, é alargá-la para que o desenvolvimento deixe de ser um sonho sempre adiado.

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