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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

Sede de Brasil

08/08/04

 

Rubens Ricupero

"TEMOS SEDE de Brasil, mas ninguém nos dá de beber." Na noite do dia 3, ouvi essa frase de um chefe da comunidade afro-brasileira em Porto Novo, a capital legal do Benin. Quase 32 anos haviam transcorrido desde minha última viagem ao país, que se chamava ainda Daomé. Lá estive várias vezes para ajudar a preparar a apoteótica visita do chanceler Mario Gibson Barboza, em novembro de 1972, da qual participei. Antes ou depois, nunca houve nada parecido nos anais da diplomacia brasileira.

Durante um mês inteiro, o ministro, com boa parte da cúpula do Itamaraty, percorreu a fachada atlântica da África do norte ao sul. Do Senegal ao Gabão e ao Zaire, nove ou dez países, foi maratona que marcou a volta do Brasil à África, da qual se vira cortado, por mais de um século, pelo imperialismo europeu da segunda metade do século 19. Depois do fogo de palha de Jânio e antes que os acontecimentos em Portugal, em Angola e na Guiné nos dessem ocasião de romper com a hipoteca do colonialismo salazarista, foi o melhor que se podia fazer num dos momentos de maior obscurantismo ideológico do ciclo militar, a Presidência de Médici.

Voltei agora em missão da Unctad e da ONU. O Benin segue sendo um dos mais pobres países do mundo, um dos 50 LDCs, os "Least Developed Countries", dos quais 34 estão na África. Com renda per capita que roça pelos US$ 300 por ano, menos de US$ 1 por dia em média por pessoa, depende do algodão para cerca de 80% de sua receita exportadora formal (a informal é a "reexportação" ou contrabando para a Nigéria de carros usados e outros bens de consumo durável).

Está sendo estrangulado pelos subsídios ao algodão do país mais rico da Terra, os EUA, conforme aqui descrevi em "Um caso de consciência" (29/06/03). Neste ano, além da queda nas cotações do algodão, foi atingido por medidas restritivas da Nigéria. Fui a Cotonou para ver como podemos ajudar o Benin a diversificar a economia por meio de uma dezena de projetos, sobretudo na área dos investimentos.

Além da vocação comercial, em parte traço cultural, em parte imposição da localização estratégica de seu porto no golfo da Guiné, encruzilhada dos caminhos entre Gana e Nigéria, entre o oceano e os países interiores _Mali, Burkina Fasso, Chade_, o Benin tem outra particularidade. É um dos pontos principais de concentração das centenas de milhares de agudás, os retornados do Brasil, africanos ou descendentes aculturados, com nomes brasileiros, costumes, pratos, festas, que introduziram na costa ocidental da África. Essa é história já contada muitas vezes por Verger, Alberto da Costa e Silva, Antonio Olinto, entre outros, mas que continua uma absoluta novidade para a maioria de nossos patrícios.

Com a Nigéria, o antigo Daomé partilha a condição de berço da maioria dos africanos vendidos como escravos ao Brasil, fora da área bantu de Angola. Da mesma forma que Lagos, algumas cidades daomeanas _Porto Novo, Ouidá_ foram as localidades nas quais se fixaram de preferência os retornados. Mais que na Nigéria, onde os afro-brasileiros sofrem certo efeito de diluição na massa gigantesca dos 170 milhões de habitantes, no Benin sua visibilidade e presença na vida pública e cultural são inconfundíveis.

Durante a quase semana que ali passei, fui a Ketu, a Porto Novo duas vezes e a Ouidá, as referências obrigatórias para a história das correspondências culturais entre o golfo da Guiné e a Bahia, em particular, o Nordeste, em geral. A Ketu, quis ir em homenagem a meu inesquecível amigo Pierre Verger, com quem aprendi quase tudo do pouco que sei sobre a religião ioruba no Brasil. Lá é que ele se iniciou nas artes de adivinhação de Ifá, tornando-se babalaô ("pai do segredo") e recebendo o nome de renascido, Fatumbi, com que foi enterrado no cemitério da Ordem Terceira, em Salvador.

Visitei os sacerdotes de Ifá que iniciaram a Verger, as ialorixás de Xangô, seu orixá e o novo rei de Ketu. Tudo isso em meio a tambores e atabaques, danças rituais, saudações cantadas e bradadas em nagô. Se as outras duas cidades pertencem ao universo do sincretismo cultural e religioso com o Brasil, Ketu permanece a África na sua pureza, intocada pela modernidade, a globalização, de orgulhoso apego à mais estrita tradição da cultura ioruba, cuja força, dizia Verger, tinha exercido no Brasil um "imperialismo cultural" que apagara quase os traços salientes de outras linhagens, a bantu ou a jeje.

Tive por inspiração e guia em toda a viagem a pequena obra-prima que Alberto da Costa e Silva acaba de consagrar a Francisco Félix de Souza, o baiano que, na primeira metade do século 19, se transformou no primeiro Chachá de Ouidá, aliado de sangue de Guezo, rei de Abomey, controlador do comércio de escravos na região, dono de fabulosa fortuna, fundador de uma das grandes famílias do Benin. Bem antes de conhecer Verger, foi realmente de Alberto que peguei o vício da África, que ele pratica com sabedoria e autoridade de mestre há meio século.

Um dos poucos que restam da empreitada africana de Jânio, conselheiro político das iniciativas e da viagem de Gibson, embaixador marcante em Lagos, autor dos dois tomos do monumento que é sua história da África, ele agora nos regala com volume de menos de 180 páginas que é puro encantamento.
Rigoroso no controle das fontes, equilibrado nos juízos, seguro nas interpretação, ele é, como todo grande historiador, primeiro um escritor de mão e olho certeiros, um poeta cuja linguagem cristalina, de achados inesperados, faz com que o leitor avance sem vontade de chegar ao fim, detendo-se em cada linha, voltando atrás para reler certas passagens, descobrindo sabores novos em palavras e expressões esquecidas ou ignoradas. Não me contive.

Terminado o livro, corri a Ouidá, onde me receberam com a pompa e a circunstância dos reis africanos do século 18 ou 19, com direito até a ser abrigado com o Chachá sob seu pára-sol. Em nome do autor, deixei a obra de Alberto em mãos de Mito Honoré Feliciano Julião F. de Souza, oitavo Chachá de Ouidá, em Singbomey, a "casa de andares" que dom Francisco edificou e seu atual herdeiro esforça-se em devolver a seu antigo esplendor.

Que esperam os talentosos criadores das novelas da Globo, tão populares no Benin como em outros lugares, para levar à tela a saga desses "brasileiros da África, africanos do Brasil"? Homens como Francisco Félix, Domingos José Martins, histórias como a contada por Olinto sobre a "Casa da Água", a fortuna feita na Nigéria por brasileiros a partir de poços de água potável? Não é sugestivo de coisas obscuras de nossa alma que essa saga, tão heróica como a dos imigrantes italianos, não tenha recebido, até agora, reconhecimento, a não ser o popular dos enredos das escolas de samba? Não será tempo de lembrar esses milhares de mulheres e homens humildes que, do outro lado do Atlântico, aguardam que um Brasil mítico lhes ofereça água de beber, bolsas de estudo, filmes, livros, informação de um país que não querem esquecer? Em Porto Novo e Ouidá, voltei a ver e ouvir a Burrinha, o folguedo de Reis da Bahia, que se mantém vivo na África:

"Xô-xô, bichinho,
Xô-xô, ladrão,
Cadeado do meu peito,
Chave do meu coração".
Quem não abriria o coração a esses versos ingênuos do nosso povo cantados por vozes d'África?

...


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