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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

Oportunidade que não se repetirá tão cedo

09/05/04

 

Rubens Ricupero

AS NEGOCIAÇÕES comerciais vão mal, mas, no mundo real da economia, há muito tempo não se portam tão bem as exportações e importações. Em Genebra, na OMC (Organização Mundial do Comércio), não se conseguiu até agora delinear nem mesmo uma moldura genérica, sem números ou datas, que permita prosseguir com as negociações no ano que vem, após as eleições americanas. Não é grande coisa, mas até esse pouco parece muito. Na Alca, nem a versão ambiciosa e desequilibrada dos primeiros tempos nem a mais leve e recente, concentrada em acesso a mercados, logram avançar.

Fossem outras as circunstâncias, diria-se que a culpa era da desaceleração da economia, da contração do comércio, da queda das cotações. Isso foi verdade em 2001 e, em grau menor, em 2002. A partir de 2003, contudo, o comércio começou a ganhar força de novo, ao crescer 4,7%. No ano passado, a América Latina teve exportações recordes: saldo comercial de US$ 41 bilhões, só comparável a 1984, saldo em conta corrente de US$ 6 bilhões, o primeiro em meio século, as exportações do Mercosul cresceram 18%, e as do Brasil, mais de 20%.

Neste ano, joga-se com a hipótese de expansão do comércio de 7,5% em volume e muito mais em valor, graças aos preços altos do petróleo e outras matérias-primas. Até o momento, os resultados brasileiros nas exportações vêm confirmando a expectativa.

Como explicar, então, o descompasso entre o ritmo das negociações e o do comércio real? Em parte, porque o avanço mais lento da negociação reflete o atraso das percepções e do efeito da recuperação econômica no nível do emprego. Não é segredo que só agora e gradualmente o desemprego vai cedendo nos EUA, enquanto continua a resistir na Europa. Mesmo quando se criam vagas em setores novos, essas não compensam as perdas devido à deslocalização industrial para a China ou à transferência de serviços à Índia, ao menos não nos lugares atingidos.

Em segundo lugar, as negociações só irão produzir resultados práticos daqui a cinco, seis anos, levando em conta o tempo da implementação. Nesse sentido, elas preparam e condicionam o cenário da competitividade do médio prazo, e é natural que os governos se armem de certa prudência ao se posicionarem para um futuro ainda incerto.

É preciso não esquecer o contra-estímulo, para as negociações, proveniente das eleições nos EUA e da expansão européia. Tampouco ajudam ameaças de graus distintos de atualização: o conflito sem perspectivas de solução no Iraque e entre Israel e os palestinos, o barril de petróleo próximo dos fatídicos US$ 40 a unidade, a elevação (instável) de muitas commodities, o fim do ciclo dos juros baixos, a volta tímida do temor da inflação.

Não obstante esses fantasmas que rondam, continuam positivas as expectativas quanto à economia mundial, dentro da faixa de crescimento de 4,6%, calculada pelo FMI, sobretudo devido ao relativo vigor da recuperação americana. O que mais anima é a contribuição para a expansão mundial do crescimento dos países em desenvolvimento, de 4,8% em 2003 e estimada em 5,4% para este ano.

É verdade que as cifras representam, em boa medida, a sombra gigantesca projetada pela China e a Índia. Excluindo os dois monstros asiáticos, os números encolhem para 3,4%, em 2003, e 4,4%, em 2004, ainda bastante decentes. Mesmo a determinação do governo chinês, de derramar água fria na fervura do caldeirão, não altera em substância o panorama, pois o que se visa é trazer o ritmo de 8,5% a 7%, o que, para nós, soa como sonho inatingível.

Conforme mostrou Angus Maddison, grande historiador do crescimento, o que os nossos olhos assistem é à reemergência de duas baleias, responsáveis, em 1500, pela parcela maior do produto mundial e que voltam à tona após longo e profundo mergulho durante a expansão do Ocidente. A onda havaiana que elas levantam oferece mar propício para muito surfista: o Japão, que está saindo da prostração graças às exportações para a China, os EUA, que aumentaram suas vendas aos chineses de modo astronômico, a Coréia do Sul, os países do Sudeste da Ásia, para os quais o mercado chinês começa a suplantar o americano, o comércio entre os asiáticos, que os protege da volatilidade mundial.

Tem razão o presidente Lula: uma nova geografia do comércio se delineia. Para japoneses e americanos, os mercados das economias emergentes se aproximam de 50% de suas exportações e importações.

Com o êxito no crescimento da economia e do comércio, surge capacidade maior de se afirmar no cenário internacional. A Índia, símbolo no passado de estagnação, a ponto de inspirar o neologismo Belíndia, hoje faz a Bélgica representar, nessa palavra composta, o elemento de crescimento baixo, enquanto ela se descreve a si mesma como "shining", a Índia que reluz.

É esse sentimento de autoconfiança e afirmação, baseado na realidade do desempenho, que explica o aparecimento de alianças e coalizões de influência crescente nas deliberações econômicas, até aqui limitada ao comércio, mas que amanhã poderá estender-se a outros domínios. O Brasil tem se destacado na origem de algumas dessas iniciativas, como o G20 ou o grupo África do Sul-Índia-Brasil.

A grande reunião quadrianual que a Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) realizará em São Paulo, em meados de junho, será neste ano a única grande conferência econômica da ONU no mundo e a maior no Brasil desde a Cúpula da Terra, do Rio, em 1992. Ela ocorrerá dentro do contexto externo descrito neste artigo e deverá ser caracterizada pelo reconhecimento da nova geografia do comércio e do amadurecimento da autoconfiança dos países em desenvolvimento. Ela marcará também o 40º aniversário, tanto da Unctad quanto do Grupo dos 77 e da China, que reúne os países em desenvolvimento nos foros econômicos. Será oportunidade decisiva e sem repetição tão cedo para a projeção internacional de São Paulo e do Brasil.

Será, sobretudo, o cenário para o nosso país demonstrar ser uma força construtiva e moderadora no sentido de transformar as mudanças no mundo real da economia em resultados práticos nas negociações, que nos ajudem, a nós e aos outros, ou a consolidar o progresso já alcançado ou a reencontrar o caminho esquecido do desenvolvimento acelerado e estável.

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