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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

A hora do poder das trevas

11/04/04

 

Rubens Ricupero

ESTÁ MAIS para Sexta-Feira da Paixão do que para Domingo de Páscoa a selvageria das imagens que nos chegam do mundo. Crianças mutiladas, cadáveres calcinados e conspurcados, a morte que chove do céu sobre culpados e inocentes, justos e injustos, no fogo de helicópteros americanos ou israelenses, terroristas islâmicos que se explodem ou, pior, explodem meninos que vão à escola com suas pobres merendas, operários a caminho do trabalho lendo o jornal de esportes matutino. Um vento de loucura devasta as terras palestinas, o Iraque, o Afeganistão, a Tchetchênia, o Kosovo, o Usbequistão, a ilha de Bali, os subúrbios de Madri, o Paquistão, Casablanca e Tunis. Qual o próximo?

Quem é capaz de lembrar o ambiente de seis ou sete anos atrás, a ingênua ligeireza com que os jornais de 1999 enchiam colunas com especulações simplórias sobre o terceiro milênio, saudado com luzes de artifício e fogos de Bengala? O ano 2000 finalmente chegou e se foi. Não trouxe o fim do mundo.

Ao menos não sob a forma como é temido: com estrondo e explosão que abalam o Sol e as outras estrelas. Tem-se às vezes a suspeita de que o fim, de fato, vai chegando, mas aos poucos, disfarçado, com despistes. Não de uma vez, mas por pancadas, por desgraças sucessivas e cumulativas, como no imaginário mítico do Apocalipse: uma espécie de revezamento de forças sinistras, que se substituem umas às outras, cavaleiros da peste e da fome, anjos exterminadores, catástrofes cósmicas.

Antes, havia um processo diplomático no Oriente Médio, líderes corajosos em Israel, Rubin, Barak, uma proposta de paz audaciosa, mais do que se sonharia possível. Havia presidentes americanos como Carter e Clinton, dispostos a mergulhar por completo na solução de um problema que detém a chave da paz ou da guerra para o nosso tempo. O erro fatídico de Arafat, ao rejeitar o acordo de Camp David, marcou não só sua morte política mas também o instante decisivo no qual as expectativas mudaram de signo e de sentido, passando da construção para a destruição. Desde então, desde as eleições americanas, os atentados do 11 de Setembro, os conflitos se acirraram, os problemas apodreceram. Tudo, Iraque, terrorismo, Oriente Próximo, está mais complicado, com menos esperança. É irrelevante os intelectuais discutirem se está ou não em curso um choque de civilizações e de culturas. Na prática, objetivamente, conforme diriam os marxistas, o que vemos são, de um lado, americanos, ingleses, israelenses; do outro, muçulmanos de todos os gêneros, sunitas, xiitas, matando-se uns aos outros, não talvez devido à incompatibilidade de suas civilizações, mas de suas barbáries.

É óbvio que nem tudo se pode reduzir à questão palestina. Existem outros fatores, de autonomia maior ou menor _a geoestratégia do petróleo, a frustração árabe com a decadência e o domínio estrangeiro, o fanatismo integrista, a revolta contra o despotismo feudal. Não há como negar, no entanto, que o catalisador que precipita essa explosiva combinação é o espetáculo contínuo de ocupação e violência no Oriente Médio. Embora todas as dificuldades estejam inter-relacionadas, nenhuma proposta do tipo que os americanos sugerem acerca da democratização do Oriente Médio terá chance de funcionar se não passar pela solução do problema palestino.

É sugestivo como essa questão _mais que Taiwan, Caxemira, a Coréia do Norte_ permanece como o ponto crucial das relações internacionais desde o fim da Guerra Fria. Essa é a área cultural de onde brota a civilização ocidental, o berço das grandes culturas _Babilônia, Assíria, Egito, Pérsia_ às quais tanto devem gregos e romanos. Nascem aí também as três grandes religiões monoteístas do livro: o judaísmo da Bíblia, fonte de todos, o islamismo do Corão, o cristianismo do Evangelho. Os dilaceramentos políticos da região e suas repercussões no mundo islâmico, junto à juventude de origem árabe na Europa, começam a alimentar o inquietante aumento do que, segundo Edgar Morin, seria absurdo chamar de anti-semita da parte de árabes, também semitas, mas do que é apropriado denominar de antiisraelismo, derivando freqüentemente em antijudaísmo.

Nesse contexto perturbador é que se insere a "Paixão de Cristo", de Mel Gibson. Não tendo assistido ao filme, falta-me competência para comentá-lo. É possível que seu efeito seja benéfico para muitos que desconhecem a extraordinária riqueza dos evangelhos. Que ele não venha, contudo, a reforçar a perigosa deriva contemporânea para integrismos de todo tipo. Este é o pior momento possível para trazer de volta estereótipos lamentáveis como o de um povo culpado de deicídio, contra-senso absoluto, como de novo lembra Morin, por tratar-se de Jesus ressuscitado e vivo. Aliás, essa acusação foi repudiada da forma mais clara e explícita no Concílio Vaticano 2º. Antes, em 1938, Pio 11 já declarara taxativamente que "o anti-semitismo é inadmissível. Espiritualmente nós somos semitas".

Não é preciso, com efeito, ter fé religiosa para admitir, como faz o grande assiriólogo francês Jean Bottéro, que o povo judaico deu à humanidade duas contribuições inigualáveis. A primeira foi a concepção de um deus único, puramente espiritual, não antropomórfico, transcendente ao homem e ao mundo. A segunda é a noção de uma religião moral, consistente não em ritos e formalismos, mas na mudança do comportamento dos homens, uns em relação aos outros.

Num belo texto de 1910, León Bloy dizia esquecer-se que Jesus "é um judeu, o judeu por excelência de natureza (...) que sua mãe é uma judia (...) que todos os seus ancestrais foram judeus, da mesma forma que todos os profetas, enfim que nossa inteira liturgia é totalmente derivada dos livros judaicos". E terminava: "O anti-semitismo é o golpe mais terrível que Nosso Senhor continua a receber na sua Paixão".

Esta, diz Jesus na Paixão, é a hora do poder das trevas. Mas ela não há de durar para sempre, posto que é uma hora e haverá outras, entre elas a da fresca madrugada da ressurreição. No luminoso artigo de Morin que venho citando, também está presente o dualismo das trevas atuais e da luz possível, que só pode ser, para o autor, a de uma solução equitativa da questão palestina e uma política ocidental equitativa para o mundo árabe-muçulmano.

Essa "solução real e, ademais, realista", reconhece o sociólogo, "é hoje totalmente irrealizável". E conclui: "Que tragédias ainda, que desastres em perspectiva se não se conseguir fazer com que o realismo passe a fazer parte do real".

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