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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

Algodão entre cristais

11/07/04

 

Rubens Ricupero

CONFESSO ter-me surpreendido com a amplitude que alcançaram no Brasil as comemorações dos dez anos do Real e o balanço positivo resultante do aniversário. Não sei bem o que esperava, mas era menos. Talvez, da parte do governo, indiferença e silêncio. Talvez, do lado dos críticos, hostilidade mais corrosiva ante os erros de execução do plano. Um pouco disso tudo certamente houve.

Favas contadas, entretanto, e admitidas as insuficiências, uma constatação prevalece nitidamente: o que ficou do Real é a estabilidade, por relativa que seja. A vitória contra a hiperinflação, a sensação de voltar a ter uma moeda eram o começo de um caderno novo, as fundações de monumento a ser construído. A opinião pública revelou compreender que aquilo que se viria a escrever no caderno, a beleza da escultura, os erros e acertos ulteriores não deveriam ser atribuídos àquele instante de lançamento do Real. Pertenciam a uma outra história.

Neste 1º de julho, eu já não estava no Brasil, mas, mesmo de Nova York ou Porto Rico, continuei a atender as estações de rádio que me telefonaram. Nessas entrevistas e nos dois artigos precedentes desta coluna, lembrei a mobilização da cidadania e a importância crucial da autonomia, de não ter acordo com o FMI, como condições da possibilidade de introduzir a moeda. Falei menos, ou quase nada, de outro aspecto fundamental: a intermediação entre o mundo político e social, simbolizados no presidente Itamar, e o da lógica econômica do plano, de que era guardiã a equipe responsável pela sua concepção e aplicação.

Nessa intermediação, coube-me o papel ingrato de algodão entre cristais. Ingrato porque, mal ou bem, por paus e por pedras, conseguiu-se que os cristais não se rompessem, que não se perdesse um só da equipe que me fora confiada, embora no esforço quem acabasse por se quebrar fosse eu mesmo. Essa, porém, é novamente outra história. A que hoje quero contar é a primeira, a da missão de mensageiro, de ponte, entre os dois pólos indispensáveis, insubstituíveis, para que o plano tivesse êxito.

Tal missão estava clara desde o começo. Quando, nos últimos dias de março de 1994, o presidente me convidou para suceder a Fernando Henrique Cardoso, principiei por recusar, conforme fizera antes, logo depois do "impeachment" de Collor. Não pela virtude da humildade, mas em razão do medo diante de formidável responsabilidade. Vendo que, dessa vez, a recusa não era mais viável, perguntei, resignado, o que o presidente queria que eu fizesse. A resposta "ipsis litteris" foi: "Quero que o senhor aplique o plano, com a equipe que está aí". Redargüi que me sentia aliviado com isso, pois eu mesmo não seria capaz de formular plano alternativo. Quanto aos membros da equipe, eram todos meus amigos ou conhecidos, exceto Clóvis Carvalho, que só viria a conhecer e admirar a partir de então.

Diplomata profissional, percebi que dispunha do que o diplomata mais necessita e aprecia: instruções precisas. Não havia dúvidas acerca da missão ou de como cumpri-la. Nunca me afastei do que me fora prescrito naquele fim de tarde, em "tête-à-tête" com o presidente Itamar, na salinha particular contígua ao seu gabinete oficial, onde vi, como bom augúrio, que ele guardava a imagem de santa Terezinha.

Foram muitos, desde aquela tarde, os episódios de extrema tensão entre a política e a economia: a campanha de aumento dos militares, sua inevitável extensão, por isonomia, aos funcionários civis, o desejo de elevar o salário mínimo a US$ 100, o reajuste das mensalidades escolares, os critérios de atualização de contratos, o tabelamento dos juros, a tentação do congelamento de preços, as pressões mensais das contas dos hospitais e da saúde, o projeto de transposição das águas do São Francisco e a volta recorrente, obsessiva, do problema dos vencimentos de militares e civis.

Em todos esses episódios, salvo no das mensalidades, atrevo-me a pensar que fui fiel às instruções, fazendo ver que algumas das soluções aventadas, por justas que fossem, eram incompatíveis com as condições estipuladas pelo próprio presidente: o plano teria ficado em frangalhos, e a equipe seguramente abandonaria o barco.

Em situações semelhantes, o problema nasce de que ambos os lados têm razão. Ou melhor, têm parte da razão, pois a parcela complementar está do outro lado. O presidente possuía aguda sensibilidade social e política. Caso raro em nossa vida pública, na qual, com freqüência e impunidade, se muda não só de partido _é o de menos com esse ordinário sistema partidário_ mas sobretudo de princípios, trata-se de político fiel a sólidas convicções progressistas e nacionalistas. Os integrantes da equipe eram também pessoas de grande integridade, de acentuado rigor econômico, mas de orientação doutrinária diferente, e alguns revelavam impaciência maior ou sensibilidade menor, em relação aos limites do que era possível do ponto de vista social e político. Encontrar o equilíbrio entre essas forças puxando em direções opostas, estabelecer um denominador comum razoável entre personalidades de formação e inspiração tão diversas, foi o meu pão cotidiano.

Tenho a impressão de que muitas das situações conflitivas foram, assim, inevitáveis, e algumas nasceram de mal-entendidos. Foi o que por um triz quase ocorreu na véspera de 1º de julho, quando a aprovação da MP do Real tropeçou, na Presidência, com incompreensões que me fizeram temer haver perdido a confiança do presidente para poder continuar no cargo. Apesar dos sustos, acabou não me faltando naquele instante e nos outros, antes e depois, o apoio e a confiança do presidente. Da mesma forma, jamais deixei de contar com a invariável assistência, orientação e lealdade de uma equipe de luxo, que faria honra a qualquer país desenvolvido.

Nesses dias propícios a reminiscências, tenho refletido muito sobre se, no afã de explicar o plano à população, não descurei de outras coisas, por exemplo, de um esforço maior dentro do governo. No final e em balanço, teve razão o presidente Itamar, não obstante o ceticismo geral, em insistir e perseverar na certeira intuição política de que, ainda nas condições adversas de 1993 e 1994, um plano eficaz contra a inflação era possível.

Também tiveram razão Fernando Henrique e os brilhantes colaboradores de que se cercou em crer que só a inventividade intelectual de brasileiros conhecedores da própria realidade, não fórmulas importadas do FMI e de alhures, seria capaz de dominar inflação inercial altíssima, com décadas de indexação.

No final, as tensões não causaram dano irreparável. O importante foi que o Real entrou a circular, na data e nas condições anunciadas, e, em pouco tempo, a hiperinflação passou a ser memória do passado. Ter participado, por tempo breve mas intenso, daquela que foi uma de nossas "finest hours", ter sido algodão entre cristais nessa aventura magnífica, foi privilégio que vale uma vida.

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