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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

Duro com duro

15/08/04

 

Rubens Ricupero

O choque do petróleo mais a desastrosa Guerra do Vietnã se reforçaram mutuamente para fazer dos anos 70 a década da estagflação e um dos pontos mais baixos do moral coletivo do povo norte-americano. Em 1974, desembarquei em Washington, em meio a quilométricas filas nos postos de gasolina, para permanência que se prolongaria por mais de três anos. Durante esse período, assisti ao inexorável desenlace de Watergate, à penosa renúncia de Nixon num triste dia de chuva, à "débâcle" wagneriana da derrota final do Vietnã e da queda de Saigon, aos últimos helicópteros levantando vôo do terraço da embaixada dos EUA com cachos humanos dependurados do trem de aterrissagem.

Foi tremendo o golpe sofrido pelo amor-próprio e a autoconfiança de gente emocionalmente exausta com uma guerra interminável. As investigações parlamentares devassaram impiedosamente a CIA e as outras agências de inteligência, escancarando arquivos que vomitaram segredos tenebrosos. O "Freedom of Information Act", a extraordinária façanha dos repórteres do "Washington Post", guiados pelas anônimas revelações de "Deep Throat", a emulação dos demais jornais no frenesi investigativo prometiam garantir que os cidadãos americanos nunca mais seriam manipulados por mentiras oficiais a pretexto da segurança nacional.

A hipótese parecia ainda mais remota no momento em que resoluções do Congresso proibiam expressamente o aventureirismo de operações clandestinas em Angola, no Chifre da África, tornando inevitável o desengajamento do ativismo intervencionista. Produziram-se filmes memoráveis, o documentário "Hearts and Minds", "Nashville", um dos grandes filmes políticos de Altman. Mais tarde, chegaria a vez de "Apocalypse Now".

Como toda guerra, a do Vietnã fez passar a segundo plano as considerações econômicas. Déficit, dívida, inflação eram preocupações de pouca monta diante dos caixões enrolados em bandeiras americanas deslizando em esteiras rolantes da barriga dos aviões de transporte, como se fosse uma produção em série. Entre 1971 e 1973, Nixon teve de liquidar o essencial do sistema de Bretton Woods: a conversibilidade dólar-ouro e a paridade fixa, abandonada pela flutuação cambial. Nos anos seguintes, a inflação não parou de crescer, mesmo após o fim do conflito, e ingressou no terreno dos dois dígitos na passagem para a década de 1980. A explosão do preço do petróleo contagiou as outras commodities, e uma nova palavra se incorporou ao dicionário, estagflação, a combinação de preços crescentes com economia estagnada. Chegou ao fim na Europa o sonho do crescimento acelerado dos "30 anos gloriosos"; um fenômeno deprimente fez sua aparição para instalar-se em definitivo, o desemprego estrutural.

Um sonho tropical, o do "milagre brasileiro", estava também prestes a acabar. Com os petrodólares reciclados, ainda ensaiamos, por um tempo, adiar o ajuste imposto pela quadruplicação da fatura petrolífera. Inventamos a ficção da dívida externa "bem administrada", a fim de justificar o ritmo forçado, mas dedos invisíveis já escreviam na parede os sinais do fim. Quando ele veio, foi fulminante, o papel de algoz cabendo a Paul Volker, o presidente do Fed. Ao elevar a taxa de juros ao nível de 14% a 16%, ele não podia ignorar que condenava ao colapso toda a América Latina e outros mais de lambujem. Fez isso com a mesma indiferença granítica embutida na frase do secretário do Tesouro de Nixon, John Connally: "Our currency, but your problem" ("A moeda é nossa, mas o problema é de vocês"). O resto é, como dizem os necrológicos, uma longa, infindável, dolorosa enfermidade, que o paciente vem suportando com estoicismo e resignação.

Quem me seguiu até aqui deve estar perguntando aonde quero chegar. Afinal de contas, o Iraque, o Afeganistão não são o Vietnã, e a economia mundial não dá sinais de recaída inflacionária nem de estagnação. Muitos aspectos, a maioria talvez, são bem diversos. Não obstante, a tendência, o sentido geral são perturbadores. Desde o 11 de Setembro, vivemos a banalização da guerra, o conflito permanente, no qual a única coisa que muda é o alvo. As despesas totais com segurança dos Estados Unidos estão em mais de US$ 450 bilhões por ano. Os déficits orçamentário e externo atingem 5% do PIB cada um, continuam a crescer sem perspectiva de redução, e o endividamento se expande a taxas exponenciais.

A volta do crescimento tem se mostrado errática e vacilante, avançando a passos de bêbado. A economia européia não consegue decolar, a nipônica está sendo puxada pelas da China e dos asiáticos. Esses últimos crescem porque, em boa medida, o "buraco negro" do voraz consumo ianque lhes aspira e devora as exportações. Não é a receita de um mundo saudável.

Nesse campo minado, o petróleo está sempre ameaçando explodir. Já quase bateu em US$ 50 o barril, voltou para US$ 44 ou US$ 43, mas os eflúvios não são tranqüilizadores. Temos uma espécie de inferno astral petrolífero, a conjunção da mais aguda expansão da demanda em 24 anos com baixo potencial de aumento adicional da oferta a curto prazo e uma perigosa equação geoestratégica em alguns dos principais produtores.

No Iraque, onde se supunha que a invasão facilitaria o escoamento de produção em aumento, o contrário é o que se está vendo: a resistência à ocupação, a sabotagem das instalações provocam freqüentes interrupções e constituem uma das razões recentes da volatilidade das cotações. Na Rússia, a ação governamental contra a empresa Yukos põe em perigo a extração de 1,7 milhão de barris diários. A incerteza do referendo na Venezuela, a contínua tensão com o Irã, já escalado para ser o próximo alvo dos fundamentalistas do Pentágono, obviamente não ajudam.

O pior, contudo, é a sombra angustiante de terror e violência que se projeta sobre o futuro da Arábia Saudita, pátria de Bin Laden, da maioria dos perpetradores dos atentados nos Estados Unidos, origem, inspiração e financiadora da mais virulenta modalidade de fundamentalismo islâmico, símbolo do conflito ideológico de civilizações com os americanos. Quando, em 1979, a revolução dos aiatolás suspendeu o fornecimento de óleo iraniano, o barril disparou até o que equivaleria hoje a US$ 100 em preço atualizado. Imagine o que sucederia se algo interrompesse o suprimento de óleo saudita, que representa 10% da produção mundial e a maior reserva! Estamos longe disso e oxalá _expressão muito apropriada neste caso_ nunca cheguemos a tal ponto.
Em termos corrigidos, o aumento atual é bem inferior aos dos anos 70. Mesmo assim, nas duas ocasiões em que ocorreram altas da mesma magnitude, em 1990 e no outono de 2000, a economia voltou à recessão. Tudo vai depender de quanto durem os aumentos e de sua principal causa, a guerra, o terrorismo, a violência no Oriente Médio. Sem abrandamento nesses dois pólos rígidos, deve-se temer o pior, pois, conforme lembrava Noel, "duro com duro não faz bom som".

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