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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

O pão do nosso tempo

17/10/04

 

Rubens Ricupero

A ÚLTIMA VEZ em que o petróleo atropelou a economia mundial foi há cinco anos apenas. Em 1999-2000, o barril de Brent saltou de US$ 10 a mais de US$ 30. Remexendo nos recortes da época, tive a sensação de estar lendo sobre os dias atuais. O presidente da Opep declarava, por exemplo, que a relação entre oferta e demanda não justificava preço tão alto (23/09/00). Ao menos US$ 8 eram "espuma", isto é, culpa dos especuladores. Hoje, se diz que de US$ 8 a US$ 12 são resultado do prêmio de risco político, do clima ou da especulação. Só que, em 2000, os US$ 8 de espuma se deduziam de barril a US$ 37, enquanto agora a bolha incide sobre preço de US$ 54. Em outras palavras, o patamar do que se aceita como a cotação "normal" pulou de US$ 29 a US$ 42-44 em poucos anos.

Outras explicações de então coincidiam com as do momento. Atribuíam-se 8% ao aumento dos fretes dos petroleiros. Dizia-se que as refinarias americanas trabalhavam a 95% da capacidade. Do quadro restante, alguns aspectos eram piores _já havia bloqueios e manifestações violentas em toda a Europa (hoje, a valorização do euro atenua o impacto para os europeus). Outros eram melhores _foi antes dos atentados terroristas de 11 de setembro, da invasão do Iraque, e não se imaginava que a situação na Arábia Saudita deteriorasse tanto.

A semelhança principal é que os otimistas profissionais, aqueles que se sentem no dever de "talk the markets up", isto é, de usar a lábia para manter os mercados em alta, estavam já em pleno vapor. FMI, OCDE, colunistas convencionais, todos repetiam que não havia muito a temer: com a "nova economia", baseada na eletrônica e sendo imune a choques petrolíferos, seria necessário tranco brutal para subtrair no máximo 0,4 ponto percentual de um crescimento econômico, que, tal como o de 2004, era anunciado como "o melhor em dez anos".

Todos estavam errados. A razão acabou ficando com o professor Andrew Oswald, da Universidade de Warwick. No artigo "Fuelling false hopes", ou "Dando combustível a esperanças falsas", ele assim resumia o título sugestivo: "A mais superficial das análises das últimas décadas basta para mostrar que o gatilho principal dos movimentos em matéria de desemprego e produção são os movimentos no preço da energia". E, como provocação adicional, no auge da "bolha da internet", aduzia: "É o preço do petróleo _não a engenhosidade de Bill Gates, ou a globalização, ou alguma outra moda fugaz dos anos 90_ que deveria ser a variável-chave na política de planejamento econômico".

Seu raciocínio era simples: o preço do cru, em termos reais, havia atingido, em 1998, o nível mais baixo desde a Segunda Guerra Mundial. Em certo momento, chegara à metade do preço real dos anos 50 _em pleno milagre europeu dos "30 anos gloriosos"_ e representava um quinto do início dos ano 80. Como quase tudo é feito de trabalho e energia, os custos totais das empresas desabaram, maximizando os lucros e alimentando de combustível barato o "boom" de 1999-2000.

Lembrava Oswald que três choques petrolíferos tinham marcado a fase de pós-guerra: o de 1973-74, o de 1979-80 e a duplicação dos preços em 1990, após a invasão do Kuait. Todos esses episódios haviam sido seguidos por contração econômica e um aumento brusco e, nos dois primeiros casos, sustentado do desemprego. Numa data na qual o barril tinha aumentado apenas a US$ 22, ele previa a repetição do padrão da queda da atividade, após a defasagem de alguns meses, o que, de fato, aconteceu em 2001.

Com a desaceleração econômica, a contração do comércio e o aumento do desemprego ocorridos naquele ano, dispomos não de três mas de quatro experiências em que o efeito recessivo e desempregador foi, em todos os casos, sem exceção, a conseqüência de um choque petrolífero. É verdade que as economias avançadas são menos intensivas em energia e as novas tecnologias eletrônicas são menos dependentes de óleo que a indústria de outrora. Ninguém espera a reprodução do sucedido de 1973 para 1974, quando o PIB americano despencou de quase 6% a menos 0,5%. Convém, no entanto, não exagerar: o petróleo é ainda o que faz andar a máquina do mundo e, em muitos setores do transporte, a dependência do produto chega a 90%.

Neste ano, os preços já subiram mais de 65% e algumas cotações atingiram o nível da invasão do Kuait. É motivo mais que suficiente para redobrar de prudência, à luz das quatro experiências recentes. E não esquecer, para além do domínio econômico, que, em nossos dias, o preço da gasolina é, simbolicamente, o que era o preço do pão no século 19: o pavio que faz explodir o descontentamento popular.

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