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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

A guerra errada

21/03/04

 

Rubens Ricupero

QUANDO a intervenção chinesa na Guerra da Coréia ameaçava expulsar da península as tropas da ONU, o general MacArthur propôs medidas que, escreveu André Fontaine, até hoje nos causam calafrios: lançar de 30 a 50 bombas atômicas sobre as bases estratégicas na Manchúria, desembarcar meio milhão de soldados nacionalistas de Tchang Kai-chek e, após a derrota chinesa, estabelecer uma barragem de cobalto radioativo ao longo da fronteira sino-coreana no rio Yalu.

Diante de tal manifestação de insânia e de atos de aberta insubordinação, o presidente Truman não hesitou em tomar a decisão impopular de destituir o comandante-em-chefe, acolhido nos EUA com triunfo de herói romano. Coube ao general Bradley jogar a pá de cal definitiva na controvérsia, ao declarar que um ataque contra o território da China continental teria sido "a guerra errada no lugar errado, no momento errado, contra o inimigo errado".

O que Bradley queria dizer era que a verdadeira ameaça provinha então das forças soviéticas no coração da Alemanha e da Europa, não da intervenção chinesa num rincão periférico do planeta. A frase soa aos nossos ouvidos como sentença perfeita do julgamento que se impõe, decorrido um ano da invasão do Iraque. A escolha de Bagdá como alvo foi justificada como prioridade na luta contra o terrorismo fundamentalista da Al Qaeda e o risco de proliferação de armas de destruição de massa. Um ano depois, qual é o balanço dos resultados alcançados em relação a esses objetivos?

Quanto ao terrorismo, calculou a revista "Newsweek" que o número de atentados nos 30 meses após o 11 de Setembro é maior do que nos 30 anteriores. Conforme se acaba de ver na Espanha, eles se estenderam a continentes poupados até data recente (atualmente, a América Latina é o único continente não atingido pela última onda terrorista). Apesar de terem sido mortos ou capturados dois terços dos dirigentes da Al Qaeda, confiscados cerca de US$ 150 milhões do tesouro do grupo e destruído o governo taleban, que lhe proporcionava abrigo, a rede terrorista tornou-se descentralizada e, segundo os serviços de inteligência, continua capaz de montar operações de envergadura. Ela se espraiou em inúmeras células diluídas e disfarçadas na gigantesca diáspora muçulmana, com liderança menos experiente e conhecida, mas radicalizada e pronta a operar de maneira crescentemente autônoma.

Os britânicos aprenderam na Irlanda do Norte que, mesmo com a maioria da liderança na prisão e reduzido a 600 militantes, o IRA conseguia imobilizar 25 mil soldados de Londres. Não é diversa a perspectiva que nos espera no caso do terrorismo islâmico: as soluções simplistas e imediatas não existem.
As armas de destruição maciça não foram encontradas nem por um exército de inspetores americanos com total liberdade de ação, uma vez que ocupam militarmente o território iraquiano. A razão foi dada pelo próprio inspetor-chefe ianque: essas armas já haviam sido destruídas, de acordo com os relatórios de Hans Blix e dos inspetores da ONU, nunca desmentidos.

A invasão do Iraque teve certamente um efeito dissuasivo sobre regimes como o líbio e o sírio, mas seria isso suficiente para justificar introduzir um gravíssimo fator adicional de complicação em região já desestabilizada pelo intratável conflito entre palestinos e israelenses? Não estava já em curso na região uma evolução positiva que se poderia acentuar com outros métodos, sem correr o risco de incalculável agravamento da situação?

Tudo isso havia sido dito e redito antes da invasão, e ninguém o fez com mais clarividência e incansável firmeza do que João Paulo 2º. Tudo em vão. A conseqüência é que, 12 meses após o início da guerra, as condições de segurança no Iraque se deterioram dia a dia, não obstante a prisão de Saddam Hussein, de quase todos os antigos membros do governo, de cerca de 10 mil pessoas, incluídos 400 guerrilheiros de outros países árabes. Como conceber o retorno da ONU, da Cruz Vermelha num país onde qualquer civil, estrangeiro ou nacional, passou a ser uma indefesa vítima em potencial? O Iraque de Saddam tinha muitos problemas, exceto um, que só começou a existir com a ocupação: o terrorismo indiscriminado e selvagem contra tudo e contra todos. A guerra para acabar com o terrorismo se salda com um fato irrefutável: o terrorismo não só não diminuiu nas zonas já infestadas mas adquiriu novos e promissores territórios.

Minha análise, quase toda factual, não visa a sugerir que objetivos como a democratização do Iraque ou o grande desígnio de transformar o inteiro Oriente árabe não sejam, em tese, desejáveis. O problema é indagar se eles serão realisticamente exequíveis dentro de equação razoável de custos e benefícios.

Os que fizeram aposta exorbitante nesse jogo de azar, isto é, o partido da guerra, deveriam ter antes calculado quanto custaria completar a tarefa em vidas humanas, recursos financeiros, desgaste político-diplomático, reação pacifista mundial. Nessa estimativa, teria sido necessário igualmente comparar o custo-benefício da operação iraquiana com o de outras alternativas mais diretas, menos traumáticas e controvertidas no combate ao terrorismo e à proliferação de armas.

Sou dos que partilham esses dois objetivos e acreditam que devemos ser solidários com os povos vítimas do terrorismo onde quer que seja e, no caso atual, com os povos americano e espanhol. Mas, para tanto, é preciso definir estratégia realista, não grandiloquente; generosa em tratar as raízes do fenômeno _sociais, econômicas, o problema palestino_, não concentrada apenas nos sintomas; aberta ao diálogo com a ONU e a outros países, não unilateral e excludente. "In illo tempore", conforme se lê no Evangelho, já dizia Jesus que, antes de marchar contra um rei estrangeiro ou iniciar a construção de uma torre, é indispensável verificar se temos os soldados, o dinheiro e a vontade de empregá-los por décadas, gerações, caso necessário. Do contrário, é melhor não começar.

Ora, o que estamos vendo é que, passado um ano e confirmados os piores prognósticos, mal se disfarça o desejo de abandonar a partida o mais cedo possível e, sobretudo, antes das eleições americanas. A Espanha, onde a soberania popular, base da democracia, derrotou um governo que insistia em ignorá-la, apenas se adianta em dizer alto e bom som o que outros dizem "sotto voce". Daí, a insistência em querer dar à ONU uma missão talvez impossível, agora que o problema complicou inutilmente.

Em outras palavras, solidariedade não exige aceitar estratégia equivocada e contraproducente, mas sim aconselhar o reexame do curso seguido até agora, a fim de mudar enquanto é tempo. O primeiro passo é confessar o equívoco e reconhecer que à guerra de um ano atrás se aplica a frase erroneamente atribuída a Fouché ou a Talleyrand, a propósito da execução, sob ordens de Bonaparte, do duque d'Enghien, por curiosa coincidência em 21 de março de 1804, exatamente 200 anos antes da publicação deste artigo: "É mais do que um crime, é um erro".

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