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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

Celso, o intelectual do outro Brasil

21/11/04

 

Rubens Ricupero

Quando morreu Bobbio, "La Stampa", o jornal de sua cidade, Turim, encimou sua primeira página com a manchete "Morre Bobbio, o intelectual da outra Itália". Havia no título três sentidos transparentemente ocultos. Bobbio era "o", não "um" intelectual dentre outros; sua Itália era "outra", não só porque deixara de existir, passando a ser história, mas porque era melhor que essa que está aí.

Sob o choque de que perdemos Celso Furtado, imediatamente lembrei-me desse exemplo. Do mesmo modo que Bobbio em relação à frustrada esperança de vida política melhor para a Itália, Celso representou para nós, brasileiros, "a" consciência moral e intelectual de um "outro" Brasil, que acreditava na "fantasia organizada" de construir, com autonomia, um desenvolvimento autêntico e justo. Sua morte põe simbolicamente fim aos 60 anos mais marcantes da história do Brasil desde a Segunda Guerra _não por acaso, ele foi um dos últimos pracinhas da FEB ainda ativos na vida pública.

Desse período, ele encarnou o melhor. Identificou-se com os governos Vargas, Kubitschek, Goulart, no que tiveram de mais nobre: o desenvolvimento como responsabilidade central do Estado, o planejamento como método racional para imprimir sentido e coerência ao trabalho dos milhões de atores anônimos da economia, a redução e a eliminação das disparidades regionais e sociais como condição de garantia de oportunidades iguais para a auto-realização de todos os brasileiros.

Nordestino de Pombal, no árido sertão paraibano, Celso se autodefinia pela paisagem natal _"eu sou como um cacto"_, mas era, na realidade, um homem de coração afetuoso e tocado pela poesia debaixo da áspera casca externa do sertanejo. Era também o mais universal, o mais "globalizado" e traduzido dos brasileiros.

Nenhum outro deu contribuição comparável à "desconstrução" do subdesenvolvimento, de início no Brasil, depois na América Latina e no mundo, como fenômeno histórico e estrutural de complexidade irredutível à caricatura simplificadora do neoliberalismo triunfante.

Primeiro na Cepal com Prebisch, mais tarde na Universidade de Paris como professor, construiu uma das obras intelectuais mais ricas e sutis no domínio do desenvolvimento. Bem antes da escola institucionalista, a ele deve-se muito da valorização original da cultura como essência do processo de desenvolvimento.
Em junho, quisemos homenageá-lo na inauguração da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) em São Paulo, na presença de Lula e Kofi Annan. Devido à saúde, Celso não pôde ir, mas enviou-nos algumas linhas que, segundo me disse ao telefone, eram sua (última) mensagem ao povo brasileiro, a condensação, no mais alto grau de pureza e essencialidade, de tudo em que creu.

Afirmava que "a dimensão política do processo de desenvolvimento é incontornável" e que "o avanço social dos países que lideram esse processo não foi fruto de uma evolução automática e inercial, mas de pressões políticas da população". São essas, lembrou, "que definem o perfil de uma sociedade, e não o valor mercantil da soma de bens e serviços por ela consumidos ou acumulados".

"O verdadeiro desenvolvimento _não o 'crescimento econômico' que resulta da mera modernização das elites_ só pode existir ali onde houver um projeto social subjacente." E conclui: "É só quando prevalecem as forças que lutam pela efetiva melhoria das condições de vida da população que o crescimento se transforma em desenvolvimento."

Se não quisermos que a história brasileira se converta em fantasia para sempre desfeita, construção definitivamente interrompida, temos de escutar a lição que nos deixa ao partir esse grande brasileiro, amigo querido, mestre incomparável, que não poderemos nunca mais, em seu pequeno e acolhedor apartamento parisiense, escutar, ao lado de Rosa, a quem abraçamos, Marisa e eu, com afeto comovido e inconsolável.

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