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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

Um mal necessário

24/10/04

 

Rubens Ricupero

EM "MEMÓRIA e Identidade", livro baseado em conversações com dois filósofos poloneses a ser publicado no próximo ano, João Paulo 2º teria dito que o comunismo foi o "mal necessário" do século 20. Não sei em que sentido foi usada a expressão nem se tem razão o líder de "Rifondazione Comunista", Fausto Bertinotti, que a atribui a uma mera "interpretação metafísica da história". Como ultimamente o petróleo me preocupa mais que o comunismo defunto, direi que a descrição calça bem no que está a suceder no domínio da energia. Parece, com efeito, cada vez mais claro que só um choque petrolífero de razoável magnitude e efeito perdurável obrigará o mundo a fazer o que deveria ser feito por imposição da simples razão: economizar energia a fim de evitar a catástrofe da mudança climática e a perigosa dependência em relação ao Oriente Médio.

Para quem duvida, basta ler o estudo dedicado pela Agência Internacional de Energia a 30 anos de consumo energético nas economias avançadas. A relação entre ganhos de eficiência energética e os altos preços do petróleo é direta e imediata. Logo após os megachoques de 1973 e 1979, os progressos foram rápidos e impressionantes. A partir do contrachoque de 1986, à medida que as cotações desabavam, os esforços para poupar óleo relaxaram. Entre 1973 e 1990, o consumo energético dos ricos quase não crescia (apenas 0,4% ao ano). Bastou, no entanto, que os preços caíssem para o consumo voltar a aumentar a 1,4% ao ano, na década de 1990.

Não se trata, diferentemente do que se poderia pensar, da conseqüência da aceleração do crescimento econômico. A eficiência energética se mede em termos da quantidade de energia necessária para produzir uma unidade de PIB, ou intensidade energética. Quanto menos energia se usa para produzir uma unidade de produto, maior é a eficiência. Entre 1973 e 1982, no auge do encarecimento do petróleo, a intensidade energética se reduzia à taxa de 2,5% por ano. De 1983 a 1990, no momento da queda de preços, os ganhos de intensidade declinavam para 1,5% anualmente. Em seguida, a tendência se inverte a 0,7% negativo, com o abandono quase total dos esforços de economizar energia.

É nessa altura que se observa como o setor de transportes se torna cada vez mais dependente do petróleo. A indústria começa a economizar menos, mas continua a dar contribuição positiva. Já no caso dos transportes, o número de passageiros por avião triplicou, e, por automóvel, dobrou. Também se multiplicou por dois o consumo de energia dos caminhões, devido ao aumento descontrolado do transporte rodoviário de mercadorias.

Tudo isso é de uma lógica impecável na economia de mercado. Se são os preços que comandam, por que se dar ao trabalho (e ao custo) de poupar energia quando o preço do petróleo em 1998 batia no fundo do poço, isto é, era o mais baixo, em termos reais, desde o fim da Segunda Guerra? O problema é que a lógica do mercado é a causa indiscutível do aumento da acumulação de CO2 na atmosfera. No ano passado, a taxa de acumulação dobrou em relação aos anos anteriores, tornando mais próximo e garantido o desastre climático.

Mas, além da catástrofe ambiental, o mercado gera sua própria instabilidade, ao provocar, por meio do mecanismo de preços, o aumento do consumo e da dependência de fontes instáveis. O resultado é que, entre agora e 2025, a proporção de óleo importado passará a 70% ou mais nos EUA, na Europa ocidental e na China. A dependência tende a se agravar justamente em relação às zonas mais turbulentas do planeta, uma vez que, após 2025, os únicos países cujas reservas sobreviverão à taxa atual de produção serão o Iraque, o Kuait, os Emirados Árabes Unidos, o Irã, a Arábia Saudita e a Venezuela.

Se nada mudar até lá, os sustos de hoje parecerão jogo de criança, comparado ao que nos espera. O mesmo raciocínio se aplica ao desenvolvimento de combustíveis alternativos. A história do álcool brasileiro demonstra que nenhuma alternativa conseguirá se viabilizar se confrontada com as bruscas quedas do preço do óleo de anos recentes.

Uma conclusão desagradável se impõe: numa economia de mercado obediente à lógica de preços, só o encarecimento durável do petróleo, não as advertências da ciência climática ou dos geopolíticos, será capaz de nos forçar a ter juízo, economizando energia e desenvolvendo alternativas limpas. Nesse sentido, pior que um choque altista como o atual será o fantasma de um contrachoque baixista como o de 1986, que nos livraria a curto prazo de um mal necessário apenas para condenar-nos a um mal muito maior a prazo mais longo.

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