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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

A geoestratégia do petróleo

25/04/04

 

Rubens Ricupero

Três episódios dos últimos dias voltaram a mostrar a vulnerabilidade de um mundo totalmente dependente de um produto concentrado nas regiões mais instáveis e perigosas do globo.

O primeiro, no domínio das cotações, foi quando o preço do petróleo em Nova York chegou, em 17 de março, a US$ 38,48 o barril _o mais alto desde outubro de 1990_ após a decisão da Opep de reduzir, a partir do último dia 1º, sua produção em 1 milhão de barris diários, a fim de neutralizar a desvalorização do dólar.

O segundo, na área das reservas, foi o escândalo policial-financeiro sobre a manipulação das reservas da Shell, que provocou sua redução, num primeiro momento, em 20%, custando a cabeça do presidente e dos principais dirigentes da empresa e causando à maior acionista, a rainha Beatriz, da Holanda, um prejuízo de € 375 milhões.

O terceiro, de índole política, é a revelação do livro de Robert Woodward de que haveria um arreglo secreto entre o embaixador da Arábia Saudita em Washington, o poderoso príncipe Sultan, e as altas esferas governamentais, para favorecer a reeleição do atual presidente mediante uma política de preços baixos na hora decisiva.

Essa última afirmação foi, como era de esperar, veementemente desmentida pelos interessados. Alguns tenderão a considerá-la uma fantasia a mais na fecunda produção de teorias conspiratórias e histórias secretas do petróleo. Os dois primeiros desenvolvimentos são, no entanto, fatos e apenas alguns poucos que selecionei da farta colheita de acontecimentos inquietantes na geoestratégia do petróleo, balizada, de um lado, por transformações dramáticas do lado dos consumidores, do outro, pelas ameaças que se acumulam nas grandes zonas produtoras.

A mudança mais importante no ângulo do consumo vem do apetite insaciável da China, buraco negro gigantesco que suga e devora quantidades astronômicas de óleo, aço, ferro, cobre, níquel, soja, algodão, pesando sobre a recuperação de preços dessas commodities. Em 2002, a China superou o Japão como segundo consumidor mundial, depois dos EUA. Em 2003, suas importações de bruto cresceram 31%, e até 2025 sua necessidade dobrará, passando de 5,4 milhões de barris por dia a 10,9 milhões e alterando sua parcela do consumo global de 7,1% a 9,2%. O grau de dependência do país em relação ao exterior atingirá 82%.

Dois terços do suprimento provêm do Oriente Médio pela rota marítima de 12 mil quilômetros que separam Ormuz de Xangai. Controlada pela poderosa armada naval americana, essa rota constitui, com a dependência comercial chinesa do mercado dos EUA, um dos dados essenciais para compreender a crescente aproximação político-econômica entre Pequim e Washington.

Da perspectiva da produção, o escândalo Shell reabriu a polêmica sobre o esgotamento das reservas, inaugurado há mais de meio século pelo geólogo americano King Hubbert, com os primeiros cálculos precisos sobre a época em que se atingiria o pico da produção, iniciando-se, a partir de então, declínio irreversível. Existe mesmo hoje em dia uma entidade, a Aspo (Association for the Study of Peak Oil and Gas), especializada em estimativa do pico e reunindo os "pessimistas" da indústria petrolífera. Embora nesse setor a controvérsia seja ainda elevada, os cálculos mais aceitos combinam as reservas da Opep, da antiga União Soviética e dos 40 e tantos demais produtores importantes (cerca de 2,2 trilhões de barris de reserva), projetando que a produção alcançaria um pico de 80 milhões diários de barris entre 2010 e 2021. Acrescentando o óleo não-convencional, mais caro, o resultado-síntese é que o pico da produção de todas as fontes seria de aproximadamente 90 milhões de barris/dia por volta de 2015, em pouco mais de uma década.

A produção diária atual é de 75 milhões de barris. A fim de satisfazer a demanda calculada para 2015, seria necessário produzir, em termos adicionais ao nível atual, mais 60 milhões de barris ao dia. Para tanto, o mundo precisaria descobrir e operar em poucos anos mais do que dez novas áreas produtivas, cada uma do tamanho do mar do Norte, o que parece francamente impossível. É por essas razões objetivas que a tendência a um aumento sensível e contínuo no preço do petróleo é estrutural, não apenas fruto de manipulações do mercado. O aperto nos preços, segundo as especulações mais preocupantes, pode vir dentro de cinco anos (2010), com um primeiro choque elevando o barril a US$ 50. Em 15 anos, o preço poderia dobrar a US$ 100.

As conseqüências são difíceis de imaginar em toda a extensão, pois o petróleo representa 40% da energia comercializada e 90% do combustível para transporte. Mas não é só isso. Quase tudo, além dos carros, caminhões, aviões, navios, depende do petróleo, a começar pela petroquímica, os fertilizantes, plásticos, sem mencionar os armamentos e o poder militar. A civilização moderna, tal como a conhecemos, alimenta-se de óleo.

O pior é que o esgotamento das reservas do Canadá, do México e do mar do Norte tornará o mundo mais dependente das zonas mais instáveis: Oriente Médio, Cáucaso, Ásia central, golfo da Guiné. Os EUA terão de importar, sobretudo dessas regiões, 11 milhões de barris ao dia atualmente, passando a 18,5 milhões em 2020, o equivalente aos consumos da China e da Índia somados. Não é preciso, assim, ser adepto de teorias conspiratórias da história para compreender por que essa realidade impulsiona a adoção pelos EUA de uma geoestratégia de forte componente petrolífero.

Haveria uma alternativa de maior sabedoria: aceitar o Protocolo de Kyoto, reduzir com determinação o consumo de combustíveis fósseis e investir rapidamente em fontes renováveis de energia, a principiar pelo etanol. Até quando teremos de esperar para convencer-nos de que crises como a do Iraque e as catástrofes climáticas não nos deixam outra escolha?

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