Home <> busca


Biografia

Conferências

Artigos

Textos na UNCTAD

Entrevistas

Livros

Prefácios

Na imprensa

Contato


[eventual.htm]

<<Voltar

Artigos


Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

De heroísmo só, não se vive

25/07/04

 

Rubens Ricupero

"JÁ SABEMOS que o vietnamita é um povo heróico. Temos agora de provar que ele é também capaz de superar a pobreza." Em outras palavras, não se pode viver exclusivamente de heroísmo. Ouvi essa proclamação de quem tem pleno direito a fazê-la, um dos últimos heróis genuínos do nosso tempo. Escrevo a bordo do avião da Vietnam Airlines que me leva a Paris. Ontem, dia 20, tive o privilégio de ser recebido pelo general Giap, quase centenário, lúcido, falando um francês impecável.

Ho Chi Minh, Mao, Chu En Lai não existem mais. Giap é o único contemporâneo deles e de Mahatma Gandhi, de Nehru, de Sukarno, dos personagens de Malraux em "La Condition Humaine", de Edgar Snow em "Red Star Over China", dos que fizeram a Longa Marcha e conheceram a ocupação japonesa. Foram eles que, com métodos diversos segundo as circunstâncias, prepararam a atual emergência da Ásia, depois de destruírem o jugo e a espoliação dos colonialistas.

Nada demonstra melhor a falsidade da tese do fracasso da independência do que o exemplo asiático. Os neoimperialistas europeus, sobretudo ex-diplomatas ingleses, com servilismo que mal dissimula a segunda intenção de justificar as pretensões imperiais americanas, se comprazem em apontar algumas falências africanas em abono da tese.

Só ocultam que, na maioria dos casos, na África, o regime colonial deu lugar não à autonomia autêntica, mas ao neocolonialismo. Esse se exprimiu e exprime na permanente tutela de forças militares estrangeiras estacionadas localmente, nas assíduas intervenções, até de mercenários, no jogo das rivalidades consistente em armar e financiar facções opostas no Congo, em Angola, em Moçambique, em Ruanda, na Libéria, em Serra Leoa, com vistas ao controle do petróleo e diamantes, na corrupção desenfreada em que brilham companhias como a Elf Aquitaine, nos golpes tramados em países nos quais recém se descobriu petróleo, como Santo Tomé e Príncipe, ou cujos ditadores _o último a ser denunciado foi o de Guiné Equatorial_ encontram santuário para o dinheiro da corrupção em sisudos bancos americanos ou ingleses. Bancos dos países que deblateram contra a corrupção dos africanos, mas se guardam bem de permitir que se ponha fim aos paraísos fiscais.

Na Ásia, na Indochina, a independência foi mais dura, custou luta e se pagou ao preço de milhões de vidas. Não por escolha ou gosto perverso da violência. Ho Chi Minh desejava um processo pacífico. Foram os franceses, a começar pelo general De Gaulle, que não lhe deixaram alternativa. A paz, quando chegou, não veio por causa da conversão dos corações, mas devido à derrota militar e política. Mesmo assim, revelou-se precária, um imperialismo humilhado, o francês, sendo substituído por outro, o americano, arrogante e cheio de si mesmo.

É difícil hoje acreditar que a estupidez ocidental tenha durado 30 anos, de 1945 a 1975. Hanói voltou a encontrar o charme do passado. É verdade que, no lugar das bicicletas, as milhares de motos soam como um enxame de abelhas zumbindo em direções desencontradas. Mas é como se fossem cigarras que não conseguem perturbar a paz dos arvoredos majestosos, quase encobrindo as mansões pintadas de ocre, remanescentes da era colonial, ora sedes de ministérios ou do Partido. Aqui, o camarada Lênin continua a presidir sobre a praça que leva seu nome, e o mausoléu do tio Ho marca o coração de capital que, apesar de frenética economia, não perdeu o encanto da província.

Há um jeito de Belém, com suas mangueiras e edifícios de Landi, com o ar molhado e abafado de perto do Equador. A casa do general traz saudades daquelas chácaras do Brasil antigo, com sapotizeiros e palmeiras, tamarindeiros magníficos, jambeiros, o mato crescendo um pouco aqui e ali, a umidade dos trópicos enegrecendo os muros, cobrindo-os de musgo. Nada de ar condicionado, mas a sala atapetada de livros, de fotos amarelecidas de Giap jovem, num daqueles ternos brancos que se usavam no Nordeste, ao lado de Ho, magro como a letra I, de bermudas, ambos na jungla.

Giap é o gênio militar na sua expressão mais árdua e enobrecedora. Árdua porque representa o triunfo do fraco contra o forte. Sob o seu comando, o Vietnã venceu a França, os Estados Unidos, a China. Que exemplo se compara a esse? Enobrecedora posto que se tratou de empresa de libertação nacional, não de conquista, anexação, glória de mandar, vã cobiça.

Perto de nazistas e nipônicos que cobriram de imperecível infâmia suas guerras criminosas, dos que hoje dilaceram mulheres e crianças árabes do alto de seus aviões invulneráveis, que diferença! Giap era advogado, não militar, da mesma forma que Ho foi até confeiteiro em Paris. Conforme o próprio general me disse a propósito de seu líder, o que eles eram, acima de tudo, se resume nas palavras em desuso, patriota, nacionalista, amante da independência.

Não foram propriamente os profetas desarmados, condenados à derrota por Maquiavel, mas não estavam longe disso. Guerreiros de pés descalços, franzinos seres humanos mal chegando à cintura dos marines norte-americanos, carregando no ombro ou na garupa da bicicleta pesadas peças de artilharia, construindo pontes submersas 20 cm a fim de não serem avistadas do ar, compensaram com tenacidade, estoicismo, motivação o que lhes faltava em dinheiro ou armas sofisticadas.

Prevaleceram a um preço quase insuportável: 3 milhões de mortos, 4 milhões de aleijados ou queimados por napalm, 1 milhão de deformados ou estropiados pelo agente laranja, 40 mil mortos por minas desde 1975. As firmas alemães fabricantes do gás de extermínio ou dos fornos crematórios tiveram de pagar indenização, mas quem se lembra das empresas que produziram o agente laranja?

O Vietnã não esquece, mas não se lamuria. Finda sua guerra de 30 anos, o país começa a sair da pobreza. Como os demais asiáticos, a Malásia e a Tailândia, por exemplo, tem sabido utilizar os produtos primários como a alavanca da industrialização. Liberou a pequena agricultura familiar e já superou a Indonésia, tornando-se o maior exportador de café robusta.

Acaba de conquistar o primeiro lugar na pimenta, é grande produtor de arroz, borracha, camarão, peixe. Em 2001, exportou aos EUA vestuário no valor de US$ 49 milhões; no ano passado, a cifra foi de US$ 2,5 bilhões! Para a Europa, as vendas de roupas foram de US$ 600 milhões; para o Japão, de US$ 500 milhões. Em móveis, a estimativa para este ano é de US$ 750 milhões, e, em calçados, já faz sombra ao Brasil.

Não tenho dúvidas de que, após derrotar franceses, americanos, chineses, os vietnamitas hão de vencer a pobreza. Têm, para isso, dois trunfos: um espírito de iniciativa e empreendedorismo, que faz nascer empresas em cada fachada de casa, e a paixão pelo estudo e conhecimento, que os levou a dar ao principal estabelecimento religioso o nome de Templo da Literatura. Trata-se de combinação imbatível. A razão está com Giap: o prêmio do heroísmo será a vitória final sobre a pobreza.

...


Anos

2006        2005        2004        2003        2002        2001        2000

1999        1998        1997        1996        1995       

 

 


<<Voltar