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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

O massacre da inocência

26/09/04

 

Rubens Ricupero

YEATS NÃO se fixou na ira e na vingança como sinais da terrível "Second Coming", a "Segunda Vinda". Preferiu, como prenúncios, os símbolos do caos e da desordem: o falcão, em seu giro contínuo, não obedece mais ao falcoeiro; o centro não consegue impedir a desintegração do círculo; as coisas caem aos pedaços; absoluta anarquia avassala o mundo; a maré turva de sangue afoga a inocência e se derrama por toda a parte.

Em tempos de exceção, só o poeta-profeta encontra as palavras exatas. Chacinas de crianças no Cáucaso, de meninos de rua ou mendigos no Brasil, de escolares nos trens de Madri, nos ônibus de Israel, de esmagados sob bombas na Palestina, no Iraque, trucidados em campos de refugiados na África, viraram banalidades diárias. Antes apanágio de países malditos, a barbárie e o horror se instalam no mundo inteiro.

Esse sentimento me dominou quando, ainda sob o choque de Beslan, tive de fazer, no dia 14, a Conferência Raúl Prebisch, que marcava minha despedida da ONU e da Unctad. Não me senti com ânimo de falar muito de comércio, o que me parecia quase um sacrilégio, e tentei refletir sobre o recente colapso do esforço internacional para encontrar soluções verdadeiras aos problemas que ameaçam a vida humana.

Voltei a Genebra para dirigir a Unctad em setembro de 1995, precisamente na metade do período pós-Guerra Fria, que se abrira com a demolição do Muro de Berlim, em outubro de 1989, e seria abruptamente encerrado pelos atentados de 11 de setembro de 2001. Menos de 12 anos, metade de uma geração, fugaz em duração, foi um dos mais intensos em densidade histórica, isto é, em alta concentração, em poucos anos, de acontecimentos extraordinários. Da queda do Muro de Berlim ao desmantelamento da Cortina de Ferro, da dissolução da União Soviética à desintegração da Iugoslávia, da pacificação das guerrilhas na América Central à abolição pacífica da muralha do apartheid, criou-se a impressão de que, um pouco de tempo ainda, todos os problemas pendentes se resolveriam: Oriente Médio, Caxemira, Coréia do Norte, Taiwan.

Mais do que a concentração do poder em mãos americanas, após o desaparecimento do polo soviético, o que tornou possível a solução sistemática de dificuldades aparentemente insolúveis foi outro raro fator histórico: a tendência a uma crescente convergência. O fim do "comunismo real" não liquidou apenas o poder geoestratégico da URSS. De um golpe, removeu da cena o elemento de aguda heterogeneidade existente desde 1917, durante mais de 70 anos, no sistema internacional: a ideologia marxista-leninista como princípio de legitimidade e critério de organização política, econômica e social radicalmente diferentes e incompatíveis com os princípios capitalistas. Suprimida essa fonte de antagonismo, não foi difícil a todos ou quase todos adotarem o mesmo critério de legitimidade _a democracia representativa e pluralista_ e padrões similares de organização política e econômica.

Foi isso que permitiu o autêntico degelo desses anos, capaz de derreter as estruturas que haviam mantido imobilizados os graves problemas internacionais. Acresce que a própria lógica interna do processo favorecia a busca de soluções de consenso por meio da colaboração internacional, uma vez que é da essência da democracia solucionar os conflitos não com violência, mas por meios institucionalizados e pacíficos.

É interessante que, mesmo nessa época, o domínio econômico se manteve largamente imune à abordagem consensual por razão que tem também a ver com a lógica interna do processo. Com efeito, na área da economia, a convergência se deu em torno do mercado como princípio organizativo. Ora, os que exaltam o mercado e tendem a atribuir-lhe poderes de auto-regulação quase miraculosos reagem com desconfiança à colaboração internacional para impor limites ao mercado ou corrigir-lhe as imperfeições. Daí não se ter jamais podido encaminhar soluções consensuais e internacionais a questões como a das crises monetárias e financeiras.

O grave depois do 11 de Setembro é que essa tendência à auto-suficiência, à ação unilateral, antes restrita à economia, contaminou o setor político-estratégico, tornando cada vez mais difícil encontrar abordagens cooperativas para ameaças como a do terrorismo. A doutrina estratégica do ataque preventivo unilateral é, nesse sentido, o equivalente, no cenário diplomático, à cega confiança no poder do mercado na área econômica. O que está por trás da doutrina é a busca para a população de segurança imediata, tão absoluta como possível. Para isso, a colaboração internacional é método lento e complicado, incompatível com o impulso de segurança que, por natureza, exige resultados de curto prazo.

Estão de volta as divisões, as dissensões, a heterogeneidade, tanto a mais extrema e implacável, que é a do fundamentalismo de Al Qaeda em relação aos EUA, quanto os matizes de divergência dentro da aliança ocidental. Nos problemas mais ameaçadores _Iraque, Irã, israelenses versus palestinos, Tchetchênia_, com personalidades diversas umas das outras _Bush, Sharon, Putin_, o comportamento é o mesmo. Voltou-se ao congelamento dos conflitos. A paralisia e o impasse são idênticos aos do tempo da Guerra Fria. De um lado e do outro, ninguém tem capacidade de alterar políticas que obviamente não estão funcionando: a repressão militar ou o terrorismo suicida.

Nesse clima é que deixo minhas funções. Transcorridos nove anos, despeço-me de um mundo internacional que não é mais aquele que me acolheu. Infelizmente, é um mundo no qual, conforme dizia Yeats, "the best lack all conviction, while the worst are full of passionate intensity", "os melhores não têm nenhuma convicção, enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade". Parafraseando Lord Grey no início da Grande Guerra, "a luzes vão se apagando, uma a uma, em toda a Terra". Quanto tempo ainda teremos de esperar para vê-las brilhar de novo?

...


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