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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

Presente à criação

27/06/04

 

Rubens Ricupero

COGNOMINADO "o Sábio", Afonso 10º, rei de Castela, não fez jus à reputação, ao menos no tema deste artigo, posto que aviltou a moeda, ocasionando grave crise econômica para o reino. Nem por isso deixou de ostentar sua imodéstia, declarando: "Se eu tivesse estado presente à criação, teria dado alguns palpites úteis sobre a maneira de melhor organizar o universo". Dean Acheson, secretário de Estado de Truman, gostou do topete e deu a suas memórias o título de "Present at the Creation", referência ao momento após a Segunda Guerra em que os americanos recriaram o mundo.

Minhas pretensões não alcançam tão alto, pois, em relação aos mais de dez anos do Real (se recuarmos seu início à proposta da URV, em fevereiro de 1994), fui como esses convidados que chegam tarde ao banquete e partem logo depois do prato principal. Nada posso assim dizer do "antes" e "depois" da introdução da moeda, único período do qual tive experiência direta como protagonista. Tampouco vou repetir o que já afirmei em entrevistas e artigos sobre a quem cabem os méritos principais: ao presidente Itamar primeiro, a Fernando Henrique Cardoso, como ministro e, mais tarde, presidente, e à equipe que, com uma ou outra mudança, acompanhou o esforço do começo ao fim.

Essa listagem já permite concluir que o Real, como toda construção histórica duradoura, foi obra coletiva, embora alguns, conforme sempre sucede, tenham sido os intérpretes e mandatários das aspirações da coletividade. É esse o aspecto que tenciono realçar: o da vitória contra a hiperinflação como fruto de uma cidadania mobilizada e participante. Como foi que se chegou a esse resultado? É a história que desejo contar.

Quando, em fins de março de 1994, o presidente Itamar determinou que eu sucedesse a Fernando Henrique, a prioridade absoluta era, para usar expressão muito relembrada semanas atrás, escolher o dia D, isto é, a data para a introdução da nova moeda, logo fixada em 1º de julho. Ao assumir eu o ministério, começava a contagem regressiva de 90 dias para preparar operação que, em um país-continente de quase 9 milhões de km2 e mais de 170 milhões de habitantes, só tem paralelo, nos tempos modernos, no lançamento do euro na União Européia.

Pedi a dois amigos, Gelson Fonseca, hoje embaixador no Chile, e a Marcos Galvão, ora ministro-conselheiro na embaixada em Washington, que fossem a Belo Horizonte e a São Paulo, a fim de sentir o clima da opinião pública em relação às mudanças econômicas. Após consultar os oráculos de praxe, voltaram com o veredicto: o plano impressionava favoravelmente, parecia competente, mas ninguém o entendia bem. Por exemplo, esse animal abstruso, a URV, continuaria vigente juntamente com o real ou desapareceria? E como se faria a conversão da velha para a nova moeda? Em conclusão, os gurus eram categóricos: o plano precisava ser explicado à população, de cujo apoio dependia, e ter uma cara. De preferência, a do presidente.

Fui falar com o presidente Itamar, que preferiu que eu me incumbisse da campanha. Ele tinha razão. Ministro, conforme lembra meu querido amigo Fábio Konder Comparato, é palavra que vem de "minus", menos, menor. O plano era incerto. Se fizesse água, o melhor seria preservar o presidente para outra tentativa. Foi nesse sentido que o marechal Joffre disse, a propósito do Marne. "Quem ganhou a batalha não sei, mas sei muito bem quem a teria perdido."

Sempre soubemos que não seria simples e que não poderíamos contar com marqueteiros, pois, de saída, esbarramos no problema das verbas, que eram escassas. Alguém veio com a idéia de usar recursos do Funcheque, do Banco Central, mas aí topamos com barreira intransponível: os prazos mínimos da lei de licitações. Fazendo da necessidade virtude, tivemos de operar com os meios modestos da Radiobrás, gravando mensagens retransmitidas por cadeia nacional na hora do almoço, a fim de não irritar a população, interferindo com o culto sagrado da novela. Devo dizer que as emissoras de rádio e TV ajudaram com imaginação e talento, o mesmo fazendo os jornais.

Fora a jornalista Maria Clara do Prado, que mais tarde se juntaria ao nosso time, éramos todos amadores. Meus colegas Sérgio Danese e Marcos Galvão, diplomatas como eu, me ajudavam na estratégia da comunicação e nos textos. De início, não tínhamos idéia de como se lida com a TV, meio intimidador que requer tom casual, postura natural e discreta, fala simples e direta. Com os membros da equipe econômica, decidíamos qual a mensagem a passar naquele instante: o critério da conversão, a conveniência de adiar as compras para evitar o ocorrido no Plano Cruzado, o conselho para esperar, não comprar pelo crediário porque os juros estavam altos demais, aguardar que os preços caíssem, valorizar o troco e as moedas.

O primeiro texto, mais técnico, era reescrito uma e mais vezes, até encontrar a linguagem clara e direta, as palavras simples do cotidiano, o argumento da vida concreta, que respeitava a inteligência do povo. Banimos o "economês" hermético das diagonais exógenas. Checávamos o texto dos discursos com gente simples, mas cheia da sabedoria prática que dá a luta diária. Íamos à feira livre dialogar com os feirantes e os fregueses, para que todos soubessem o que estava aumentando de preço e o que era mais acessível, como aprender a usar o poder do consumidor de modo racional, onde reclamar e obter proteção contra os abusos. Viajamos por vários Estados _alguns onde nunca havia estado um ministro da Fazenda. Falávamos diretamente à dona-de-casa, ao aposentado, ao estudante, ao trabalhador.

A resposta foi fulminante e extraordinária. Não se tratava apenas do fruto da informação abundante, fornecida na hora certa. Era também a alegria de saber-se indispensável, de compreender que o plano não tinha mágica nem agia sozinho, mas dependia de cada um, dos gestos, ações, decisões de milhões de donas-de-casa, de trabalhadores anônimos, cuja somatória faz a economia, tanto quanto os burocratas, os industriais e banqueiros.

Um pouco disso tinha estado presente no Plano Cruzado, com os fiscais voluntários. Dessa vez, não havia congelamento de preços e o processo era mais difícil, pois envolvia toda a complexidade de ações e omissões dos brasileiros, que determinariam se o plano daria certo ou não.

Deu certo, estou convencido, porque o povo se mobilizou e, no fundo, a implementação da moeda converteu-se na cidadania em ação. É, portanto, incomparavelmente mais do que a comunicação, a informação, cuja transmissão pode às vezes limitar-se a uma via de senso único, na qual um dos lados não sai de sua passividade. O que se viu, no caso, foi a verdade da frase de Norbert Wiener: "Ser informado é ser livre". Informadas, as pessoas tiveram a liberdade de tomar nas mãos o próprio destino e escolheram libertar-se da hiperinflação.

É uma lição para estes tempos, nos quais muitos perdem a fé na democracia porque sentem que votar não faz diferença, que o povo é supérfluo num regime no qual as traições ao eleitorado não encontram sanção. É também convite a retomar a "construção interrompida" do projeto de Brasil, para o qual o restabelecimento da autonomia da moeda nacional é como o pedestal de monumento que ainda não fomos capazes de levantar.

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