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Folha de S. Paulo - 2004

São Paulo - Brasil

 

Como digerir a China e a Índia?

29/02/04

 

Rubens Ricupero

NOVE DE cada dez americanos acreditam que a ligação entre comércio e desemprego vá ser uma das questões decisivas nas eleições deste ano, conforme se está vendo com o avanço do senador Edwards nas primárias. Um dos próximos testes é Ohio, que perdeu 247 mil empregos em três anos, 67 mil no ano passado, mais que qualquer outro Estado _exceto Michigan. Para enfrentar a ameaça de Edwards, o favorito democrata, o senador Kerry, teve de prometer que tomará medidas contra firmas que transfiram empregos para o exterior. Na Europa, não é diferente. Dias atrás, a manchete principal do "Le Monde" foi: "Chirac está preocupado com uma França sem fábricas". O artigo dizia que o presidente estava convocando uma reunião especial só para tratar da deslocalização de indústrias francesas para o estrangeiro.

É difícil hoje encontrar país desenvolvido em que esse tema não ocupe atenção central da agenda política, às vezes misturado ao problema explosivo do aumento de imigrantes. Faz mais de meio século que a ONU convocou, em 1947, a Conferência de Havana, cujo nome oficial era Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Emprego. Naquele tempo, logo após o fim da Segunda Guerra, ainda se acreditava na possibilidade de alcançar e manter o pleno emprego. O comércio era visto nessa ótica positiva, na sua relação com a geração, não a destruição de empregos.

Em Havana, aprovou-se a Carta da Organização Internacional do Comércio (OIC), que refletia a prioridade do emprego e mostrava-se atenta a outras ameaças e desequilíbrios, como os decorrentes das violentas oscilações de preços de produtos primários _o café, para citar um caso clássico.

A Carta não foi, contudo, jamais submetida ao Senado americano, abortando-se a OIC, substituída pelo Gatt, hoje OMC (Organização Mundial do Comércio). Aos poucos, perdeu-se de vista o objetivo do emprego, até que ele começa a retornar agora, para, como um espectro do passado, assombrar as negociações comerciais e o processo político-eleitoral.

Como explicar que o comércio, durante longo tempo quase uma questão técnica para especialistas, volte de repente aos comícios de praça pública e provoque protestos de milhares de pessoas, como em Seattle, ou até com mortos e feridos, como em Gênova? A culpa para alguns seria da globalização da produção, da facilidade para deslocar fábricas para os paraísos da mão-de-obra barata, como a China.

A tendência seria agravada com o "outsourcing", isto é, sem necessidade de transferir usinas, a possibilidade de abastecer-se dos serviços necessários _desde contabilidade até programação de computadores_ em países como a Índia, obtendo o serviço à distância, depositado em casa pela internet. Tendo em vista que os países ricos são hoje, esmagadoramente, economias de serviços, o potencial de estrago parece, à primeira vista, muito mais grave do que na transferência de indústrias já em franco declínio, como a têxtil e a de calçados.

O vínculo disso tudo com o comércio provém da liberalização comercial. Se não fosse a redução substancial ou a eliminação de muitas barreiras nas negociações dos últimos 20 anos, a revolução tecnológica em comunicações e transportes não seria por si só suficiente para possibilitar às empresas transnacionais produzir nos locais de custo mais baixo e importar o produto.

É curioso como os pais do livre comércio _Adam Smith e David Ricardo_ estavam conscientes do risco de uma liberalização de choque. Referindo-se às indústrias imaturas, Adam Smith escreveu: "Se essas tarifas altas e proibições fossem removidas de um golpe, o mercado doméstico poderia ser inundado por produtos similares estrangeiros mais baratos, de maneira tal a privar de repente de seus empregos e meios de subsistência muitos milhares de pessoas do nosso próprio povo".

David Ricardo, por sua vez, aconselhava que a abolição das "Poor Laws" ou das "Corn Laws" só se fizesse "com as medidas mais graduais possíveis", a fim de minimizar os efeitos distributivos negativos. Aqui também, conforme ocorreu no caso do emprego, depressa se esqueceu das lições de sabedoria dos clássicos.

Se se olhar um pouco mais a fundo, no entanto, vai-se ver que a verdadeira causa da ameaça não se origina, apenas ou principalmente, nem na deslocalização permitida pelas novas tecnologias nem na facilidade de importar devido à liberalização. Nas décadas de 1950 e 1960, tinha havido um fenômeno parecido: a súbita emergência do Japão e da Itália como potências exportadoras de manufaturas. Da mesma forma que hoje com as telecomunicações, estava também em curso uma revolução nos transportes e mediante a introdução dos plásticos e materiais sintéticos. A penetração das exportações japonesas e italianas nos mercados dos EUA e da Europa aumentou igualmente muito rápido. Havia, porém, uma diferença: todos os países avançados, e não apenas o Japão e a Itália, se expandiam de modo acelerado. Foram os chamados "anos gloriosos", até 1973, quando se crescia a 5% ou mais.

Não foi difícil, assim, acomodar a ascensão italiana e nipônica absorvendo as importações em aumento, sem maiores preocupações com a perda de empregos. Ao contrário, nesses mesmos anos, a indústria na Alemanha e na França crescia tanto que era obrigada a importar mão-de-obra da Itália, da Espanha e de Portugal.

Quando todos crescem, os últimos a emergir não precisam devorar os primeiros, a fim de conquistar um lugar ao sol. Há espaço para se espalhar pois novos mercados são criados. É o que sucede com a China, que, graças ao crescimento acelerado, converteu-se num dos primeiros mercados para os vizinhos, para o Brasil, a Argentina e está sendo responsável pela recuperação do Japão. O problema é que há poucos casos comparáveis e todos na Ásia. O resto do mundo, nós incluídos, não consegue ter crescimento capaz de expandir o mercado, para os de dentro ou para os de fora.

A grande incógnita, em nossos dias, é, pois, como "digerir" o gigante chinês em manufaturas e o indiano em serviços quando as nações ricas crescem quase só vegetativamente e já sofrem de desemprego estrutural. Será possível, em contexto econômico de baixo crescimento, manter ou ampliar o nível de abertura do sistema comercial e, além disso, absorver a agressiva ofensiva exportadora do Oriente?

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