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Folha de S. Paulo - 2005

São Paulo - Brasil

 

Há sentido na catástrofe?

02/01/05

 

Rubens Ricupero

As igrejas estavam repletas naquela manhã de Todos os Santos, quando o primeiro choque abalou Lisboa, em 1º de novembro de 1755. Quarenta minutos depois, novo e violento tremor sacudiu as fundações rachadas, sobre as quais se esmagaram avalanchas de água de 15 metros de altura. O incêndio fez o resto: 9.000 prédios destruídos, 40 mil mortos, talvez mais, cifra que iguala ou ultrapassa a dimensão dos desastres atuais, se considerada a menor população da época.

O terremoto de Lisboa foi a catástrofe natural de mais profundo impacto moral e intelectual na história do Ocidente, só comparável à destruição de Pompéia e Herculano na Antigüidade. Mais ou menos contemporâneo ou ligeiramente antecipatório em relação às grandes convulsões políticas e econômicas da chamada Revolução Atlântica da segunda metade do século 18 -as revoluções Industrial, Americana, Francesa-, teve o efeito de provocar centenas de poemas, tragédias, sermões, ensaios. A maioria, de natureza teológica, enxergou no fenômeno a advertência ou o castigo divinos. Os filósofos do Iluminismo se viram de repente confrontados com as limitações do progresso e da ciência, no momento em que as teorias de Newton pareciam decifrar o mecanismo das leis naturais. Até em obras como o "Cândido", de Voltaire, se encontrarão traços da inspiração gerada pela desgraça.

É mais que provável que o tsunami do oceano Índico não engendre impressão tão duradoura. Conforme ocorreu com a destruição de Bam, no Irã, no ano retrasado, dentro em pouco, o maremoto de Sumatra será mais uma nota estatística ao pé da página na qual as reportagens evocam os antecedentes do desastre do dia. Em 1755, as notícias só chegavam aos pedaços, de modo esporádico e incompleto. Muita coisa ficava para sempre por dizer ou por escrever. Daí, o fascínio perdurável que exerciam sobre as inteligências catástrofes que permaneciam mais imaginadas que conhecidas com precisão. É por isso, intuiu Walter Benjamin, que não somos mais capazes de narrar, de contar histórias. As ondas de informação em cem canais de TV nos submergem com as imagens do horror acontecendo sob nossos olhos, o excesso e a imediatez da notícia não deixam espaço à imaginação ou à meditação. A informação, disse Benjamin, matou a experiência.

Terá liqüidado também com a busca de sentido. Para alguns, não há sentido a procurar em fenômenos que a ciência explica, embora não controle. As terríveis pressões que comprimem as placas tectônicas, umas contra as outras, liberam energias inconcebíveis, de milhares de explosões atômicas. É tudo. O resto, segundo um editorialista, é apenas a soberba indiferença da geologia pela sorte das insignificantes formigas humanas cuja presença efêmera pode ser apagada, sem vestígio, por uma leve oscilação no eixo da Terra.

Pensar assim é ignorar que o sentido não reside nos acontecimentos ou nas coisas, mas em nós mesmos, de acordo com a lição de um outro espírito das Luzes, o filósofo napolitano Gian Battista Vico. Antes dele, acreditava-se que a história escondia um plano da Providência. Depois dele, um certo marxismo empobrecido vai, outra vez, fazer crer que existe uma chave explicativa universal: a luta de classes. Vico, contudo, percebeu que a história é inteligível não por esconder uma estrutura racional qualquer, mas porque ela é feita por seres humanos, e só homens podem compreender ações realizadas por outros homens. Inversamente, Vico não acreditava que pudéssemos de verdade entender o que não era produto da ação humana mas pertencia ao domínio da natureza, como as calamidades naturais.

A partir dessa intuição, é fácil dar o passo seguinte: se a história é feita por homens, ela precisa ser feita para os homens. O que dará à história um sentido é, portanto, o conteúdo humano, social, que formos capazes de lhe imprimir com nossas vidas. As catástrofes do nosso tempo possuem causas diferentes, ora naturais, ora humanas. Todas -os massacres de inocentes por terroristas, a Aids na África, o aquecimento da atmosfera, a exacerbação da desigualdade, do desemprego, da precariedade, a criminalidade das drogas e do tráfico de pessoas- apresentam dois pontos em comum. O primeiro é que são todas indivisíveis, ao mesmo tempo, a causa e/ou o sintoma da crescente insegurança que, de uma forma ou de outra, afeta a humanidade como um todo. O segundo é que, como tais, só poderão ser combatidas segundo o mesmo princípio de indivisibilidade. Isto é, não é possível exigir solidariedade de todos contra o terrorismo que afeta sobretudo os privilegiados e, no momento seguinte, negar solidariedade na luta contra aquilo que aflige mais os pobres e oprimidos.

É a solidariedade indivisível que dá unidade ao melhor programa prático que se inventou para imprimir sentido à história, o das bem-aventuranças: dar de comer e de beber a quem tem fome e sede, vestir os nus, consolar os aflitos, visitar os prisioneiros, enterrar os mortos. É o que se faz nas zonas devastadas, demonstrando que a solidariedade na ação contra o sofrimento é o único meio de não agravar o absurdo do mistério da iniqüidade, a única maneira de tentar dar algum sentido ao que não tem, em si mesmo, sentido algum.

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