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Folha de S. Paulo - 2005

São Paulo - Brasil

 

Tudo é igual, tudo é diferente

10/07/05

 

Rubens Ricupero

QUANDO a casa pega fogo, ninguém quer escrever ou ler sobre política externa: só a crise interna interessa. Como qualquer brasileiro nascido antes do golpe do Estado Novo de 1937, sinto-me especialista em crises e golpes porque eles me pautaram a vida inteira. Não verei tempo melhor, mas posso ao menos comparar a crise atual com as que vivi.

Dessa comparação, o que emerge é ser essa uma crise interna em estado puro, isto é, o produto exclusivo da má qualidade das instituições e da corrupção dos homens. Nos episódios anteriores, esses elementos estavam camuflados ou diluídos por complicadores que ora deixaram de confundir o olhar. Hoje, não existe mais Guerra Fria e polarização entre fascistas e comunistas (como em 1937); nem paranóia do comunismo, de Cuba ou instigação do golpe pelos EUA (como em 1964); nem fiasco econômico e risco de hiperinflação (como no impeachment de Collor); nem "partido fardado" pronto a salvar a pátria (como quase sempre); muito menos oposição de vocação golpista (como setores da UDN até 1964). Imagine como estaria o país se, em vez de Fernando Henrique ou Aécio Neves, a oposição no Parlamento, na rua, na imprensa fosse neste momento inspirada por Carlos Lacerda.

Descascadas essas camadas enganadoras, a cebola da crise revela a causa de sua podridão: um sistema político falido e desmoralizado. Os problemas são conhecidos: financiamento das campanhas, proliferação de partidos de aluguel, infidelidade partidária, sistema eleitoral que enfraquece o caráter nacional dos partidos e a responsabilidade dos eleitos ante os eleitores, politização de cargos administrativos e de estatais que deveriam ser reservados a profissionais de carreira. Há consenso sobre o diagnóstico e convergência crescente sobre as possíveis soluções. O que faltou até agora é o senso de urgência e gravidade para conferir à reforma política para valer, não o simulacro aprovado em comissão da Câmara, prioridade capaz de vencer a resistência de interesses contrariados.

Resistentes e corruptos são em geral os mesmos, pois a remoção das falhas eliminará ou reduzirá a possibilidade de corrupção. Por questão de sobrevivência, os beneficiários do sistema tudo farão para impedir ou desvirtuar reforma verdadeira. Por isso mesmo a punição dos corruptos é condição indispensável para neutralizar os principais focos de resistência e viabilizar a reforma. Seu abandono pelo governo anterior e o atual demonstrou que a reforma política jamais se fará a frio. Apenas crise como esta, desde que atinja o ponto ótimo de gravidade, dará urgência à mudança. Agenda positiva, déficit zero, tudo isso não passará de diversão nefasta se contribuírem para aumentar o senso de segurança dos corruptos e enfraquecer a prioridade absoluta da reforma política. Não é só o patriotismo, a governabilidade também pode ser o último refúgio dos canalhas.

Será crime transigir com sistema que gera corrupção como subproduto inevitável de governabilidade duvidosa. A hora não é para diluir ou distrair a atenção do único que importa neste instante: remover do sistema os fatores que corrompem o princípio da República _a virtude_ em nosso caso, por meio da apropriação criminosa do dinheiro público pelos que invocam as falhas das instituições como justificativa da torpeza.

Além de crime, será um erro perpetuar sistema que só assegura governabilidade cada vez mais limitada a custos, inclusive morais, cada vez mais insuportáveis. As crises de corrupção tornaram-se recorrentes e, se não forem atalhadas agora, voltarão com força destrutiva maior: o impeachment de Collor, por exemplo, foi incomparavelmente mais perigoso que o escândalo dos anões do Orçamento. Nos tempos da corrupta máquina eleitoral de Tammany Hall, considerava-se político honrado aquele que "once bought will stay bought" ("uma vez comprado, permanecerá comprado"). Hoje, já não se compram políticos; alugam-se por mês. Amanhã, será por semanas, dias, horas. Não merece sobreviver sistema que só o faz devorando a "res publica", consumindo a democracia.

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