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Folha de S. Paulo - 2005

São Paulo - Brasil

 

A velhice da Terra

13/11/05

 

Rubens Ricupero

NO CREPÚSCULO da Idade Média, as pessoas sentiam que a Terra envelhecia e agonizava. As estruturas do mundo natural e as da sociedade adoeciam, corroídas por verme implacável. A Peste Negra, as fomes, as revoltas de camponeses afogadas em sangue, a dança macabra dos afrescos do Campo Santo de Pisa evocam sempre a Morte que dá o compasso e conduz o ritmo, como no final de "O Sétimo Selo", de Bergman.

Escrevendo de Genebra, depois de viagem por meia Europa, encontro, menos a grandeza trágica, sentimento similar de um mundo cansado e perplexo, sem alegria nem vitalidade. Voltam a abalar-se as estruturas físicas e biológicas. O medo pertinaz da gripe aviária que se aproxima soma-se ao dos atentados terroristas nos locais da vida cotidiana, ao temor das insurreições nos guetos de imigrantes. Furacões e terremotos recrudescem a miséria dos miseráveis e até o Amazonas seca, vaporizado pelos incêndios das florestas.

Aonde quer que se olhe, a política oferece o mesmo panorama gris de decadência e fim de reino. A França de Chirac, ferida de morte quando Le Pen alijou Jospin nas eleições de 2002, não consegue acabar de morrer. Arrasta-se entre a rejeição da Constituição européia, a defesa obstinada do protecionismo agrícola, as explosões e incêndios dos subúrbios, a tentação populista ou fascista de direita, Sarkozy ou Le Pen, no vácuo criado pelo naufrágio dos socialistas e das esquerdas.

Se, na Alemanha, Schröeder termina carreira melancólica, deixando o país mais dividido do que nunca, impasse semelhante caracteriza a Itália de Berlusconi, onde nem as forças de uma das piores direitas do continente nem as de um frouxo e vago centro-esquerda prometem a hegemonia cultural e política capaz de dar rumo à sociedade. Blair tampouco está longe da porta de saída, desmoralizado pelas mentiras da guerra do Iraque, o papel subalterno e ineficaz perante os americanos, o abandono da parte mais consciente da própria bancada.

O que dizer de Bush, após o fiasco do Katrina, o pântano fatídico do Iraque, a queda livre nas pesquisas, o fracasso de Mar del Plata? Pode alguém surpreender-se de que, com tais lideranças, não se logre avançar nas negociações comerciais? Nem existe obviamente consolo em voltar o olhar para a pátria, "que está metida no gosto da cobiça e na rudeza de uma austera, apagada e vil tristeza".

Mas será a Terra que envelhece ou são os homens, que na Europa perderam até a capacidade de repor a população que se extingue? É pena, pois os que chegam ao fim eram na certa os melhores. Começamos a viagem por minúsculo "paese" do Piemonte, Pontestura, onde fomos ao aniversário (86º) de dom Aldo Moggiano, ex-arcebispo de Boa Vista. Lá, na noite do dia 1º, em companhia dos velhos irmãos, de gente simples da vizinhança, recitava-se o rosário pela festa de Finados. Há meio século eu não escutava as preces em italiano que ouvia de minha "nonna". Apesar da presença do bispo, era a velha irmã que conduzia as orações e, ao final, foi o outro irmão, Giuseppe, "contadino" inteligente e informado que, aos 80 anos, passa os dias a arar a terra com seu trator, que recitou de cor o De Profundis. Era a velha Europa de uma piedade cristã popular e profunda que víamos quase como relíquia arqueológica.

De lá, fomos visitar familiares em Trento, o cemitério ancestral cercado do anfiteatro das montanhas, o tio quase nonagenário, ex-missionário na Amazônia, hoje retirado nas montanhas do Tirol do Sul, cruzamos passos lunares a 3.000 metros, os prados verdejantes impecáveis, as aldeias tirolesas e da Engadina, saídas de um calendário colorido de paisagens alpinas enferrujadas pelo laranja do outono. Ali, a Terra, quase sem gente, continua fresca e sem rugas. Por acaso tinha comigo o último livro de W. G. Sebald, no qual ele fala de um de meus escritores favoritos, o velho Hebel dos almanaques do início do século 19, da sua maneira de enxergar a vida humana desfigurada pela violência como se a olhasse de um telescópio cósmico, de uma distância que concilia compaixão e indiferença.

Na descrição do cometa de 1811, dizia Hebel: "Durante a noite toda, ele foi como uma santa bênção vespertina, como quando um padre percorre a casa de Deus e espalha o incenso, digamos como uma boa e nobre amiga da Terra que se enternece por ela como se quisesse declarar: Um dia, fui também uma terra como tu, cheia de borrascas de neve e de nuvens de tempestade, de asilos, de sopas populares e de sepulturas ao redor de pequenas igrejas. Mas minha hora derradeira passou e eis-me transfigurada em celeste claridade, e eu gostaria muito de juntar-me a ti mas não tenho direito, para não ser de novo manchada pelo sangue de teus campos de batalha".

O cometa de Hebel lembra-nos de que, um dia, a Terra passará e não será mais que uma estrela luminosa. Antes, porém, passaremos nós, nossas civilizações brilhantes e pretensiosas, nossas querelas vãs, nossos políticos corruptos e mesquinhos. O que dará então luz a esse gigantesco rochedo inanimado no espaço não virá dos grandes deste mundo, mas das vidas simples e obscuras dos que adormeceram em paz recitando o De Profundis.

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