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Folha de S. Paulo - 2005

São Paulo - Brasil

 

O Mistério da simplicidade

30/10/05

 

Rubens Ricupero

"MORREU COMO tinha vivido: em prece, no meio da igreja, como um pobre sem defesa." Na igreja da Reconciliação, cintilante das velas de 2.500 jovens, entoava-se o salmo "Demos graças ao Senhor", antes da leitura do evangelho das bem-aventuranças. Eram 20h30, 16 de agosto de 2005. Ninguém notou quando a mulher com o nome de Luminata cortou a garganta do monge de 90 anos, imerso na oração.

Assim morreu um santo do nosso tempo, frei Roger Schultz, filho de pastor suíço, ele mesmo, até o fim, pastor calvinista membro da Companhia de Pastores de Genebra. Em 1940, em plena guerra, havia aberto, perto das ruínas da abadia de Cluny (França), uma casa de refúgio para todos os perseguidos, que teve de abandonar, dois anos depois, sob as ameaças da Gestapo. Findo o conflito, retomou a casa de Taizé, onde resolveu fundar comunidade de monges, reatando a tradição interrompida pela Reforma Protestante.

Houve e há outras experiências de monges protestantes. A originalidade de Taizé é seu caráter não-exclusivista e ecumênico. Desde o início, a intenção foi levar uma vida em comum na qual "todos os dias se concretizaria uma reconciliação entre os cristãos". Não se quis criar igreja alternativa. Recusando todo proselitismo, frei Roger encorajava cada um a voltar à casa paterna, a não renegar as raízes. Era infenso a toda preocupação de catalogação confessional. Queria unir, não separar, segundo o desejo de Jesus: que sejamos um como o Verbo e o Pai são um.

Isso não o impediu de ser inovador. Na liturgia, por exemplo, na qual ofereceu a cada tradição espiritual o que lhe faltava. A católicos e ortodoxos, o abandono da rigidez e do formalismo, o sentir-se à vontade na igreja, descalços, sentados no chão. A protestantes um tanto cerebrais, a beleza emotiva dos ícones iluminados, o contato físico da fronte com a madeira áspera da cruz, onde se vem à noite para aliviar os fardos e as dores.

A irradiação de Taizé foi imensa. São hoje uma centena de monges de 26 nacionalidades, luteranos, calvinistas, anglicanos, evangélicos, com uma maioria de católicos. O sucessor, escolhido por frei Roger como novo prior, é frei Aloísio, um católico alemão. Há pequenas fraternidades no Brasil, em Senegal, em Bangladesh.

Aos poucos espalhou-se a notícia, a boa nova de que algo notável estava em vias de nascer. Os jovens começaram a acorrer, assustando, a princípio, os monges. Como Jesus, esses logo sentiram piedade daquele rebanho sem pastor. Viram que não podiam despedi-los sem dar-lhes o alimento espiritual que buscavam. Frei Roger tem a idéia de convocar um concílio de jovens; em 1974, são 40 mil os que vêm a Taizé. Interrogado sobre o que mais impressionava nos jovens, responde: "Essa insegurança, essa falta de confiança, que me parece universal e que, para alguns, é sem saída".

O que lhes oferece em seus livros e pregações é a alegria, a meditação, a paz da oração e da vida interior, o amor como princípio e fim. E, acima de tudo, a simplicidade. Um de seus textos começa: "No Evangelho, uma das primeiras palavras do Cristo é 'Felizes os corações simples'. Sim, feliz aquele que avança em direção à simplicidade, a do coração e a da vida".

É o mistério ou paradoxo de frei Roger. Num momento de complexidade atordoante, a simplicidade lhe dá a chave dos corações; em meio à divisão e ao conflito, ele propõe a união e a paz. Pastor protestante, foi amigo e confidente de três papas: João 23, Paulo 6º, João Paulo 2º. Madre Teresa de Calcutá, num impulso, entrega-lhe uma órfã de cinco meses, dizendo-lhe: "Leve-a daqui, pois, do contrário, ela morrerá". Também num impulso, ele toma o bebê, adota-o e embala-o nos joelhos durante um mês até salvá-lo. Hoje é psicóloga e mãe de família.

Frei Roger teve a simplicidade de Gandhi e João 23. Como o primeiro, como Martin Luther King, não escapou ao sopro de loucura e violência do nosso tempo. Uma das últimas imagens que deixou foi sua figura frágil, na cadeira de rodas, recebendo a comunhão do então cardeal Ratzinger no funeral de João Paulo 2º. A cena causou espanto e ainda gera polêmica. Será demais sonhar que Bento 16, o mesmo que lhe deu a comunhão, o proclame um dia o primeiro santo ecumênico?

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