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Folha de S. Paulo - 2006

São Paulo - Brasil

 

Nós e a torcida do Flamengo

02/04/06

 

Rubens Ricupero

A ladainha da excepcionalidade econômica brasileira foi de novo entoada pelo coro dos comentaristas por ocasião da saída do ministro da Fazenda: nunca teve o Brasil risco tão baixo nem reservas tão altas; jamais se ouviu falar de saldos de tamanha suculência nas contas comerciais ou correntes, nem de pagamento antecipado de dívidas, como agora.

A subliminar mensagem dos homens treinados na arte de "talking up the markets", isto é, de levar os mercados à alta na base da lábia, é clara: isso se deve não aos fados, mas à excelência das políticas e à competência dos que as operam.

Se, em lugar de só dar ouvido a Wall Street, essa gente se desse ao trabalho de ler o relatório da Cepal sobre a economia da América Latina e do Caribe, teria aprendido melodia diferente e com mais sabor de salsa ou reggae. Os refrães da nova canção, extraídos ipsis litteris dos subtítulos da apresentação do relatório no site da Cepal, soariam como plágio da economia pátria:
- apesar da recuperação dos anos recentes, a região cresce menos que o conjunto dos países em desenvolvimento;

- o fato mais destacado é a coincidência do crescimento e do superávit em conta corrente;

- isso se deve, em parte, à melhoria dos termos de intercâmbio;

- os governos aproveitam a conjuntura favorável para melhorar o resultado das contas públicas (leia-se, produzem superávits primários);

- e diminuem consideravelmente seu endividamento, reduzindo o grau de vulnerabilidade externa da região;

- a acumulação de reservas é generalizada;

- os níveis de risco-país estão no mínimo histórico.

O que quer dizer isso? Que, longe de excepcional, o desempenho brasileiro não passa de "footnote", de nota ao pé da página do ciclo econômico, onde se poderia ler mais ou menos o seguinte: "o Brasil teve, em linhas gerais, o mesmo comportamento que a média dos demais da América Latina".

Onde ocorre, a excepcionalidade brasileira, pesa-me dizê-lo, é, quase sempre, para pior. Nosso crescimento, como até as pedras sabem, só foi melhor que o do Haiti, único do continente pertencente à categoria dos Least Developed Countries, os pobres dentre os pobres, a maioria africanos. Foram o minúsculo crescimento do Brasil (2,3%) e o pouco melhor do México (3,1%) que puxaram para baixo a média regional. Excluídos os dois retardatários, a média do Chile e andinos e a do Cone Sul ultrapassa a do conjunto dos países em desenvolvimento.

A expansão das exportações brasileiras foi superior à de muitos outros, embora inferior à do Chile e do Peru. O país esteve entre os que mais se beneficiaram da melhora dos termos de intercâmbio. Em compensação, em valorização da moeda, nossa excepcionalidade é absoluta. Aqui, como em taxas de juros e futebol, não nos contentamos com o campeonato sul-americano: somos campeões mundiais.

Onde, porém, a excepcionalidade brasileira é inquietante porque dela depende o crescimento futuro é na taxa de investimento e na formação bruta de capital fixo. A primeira não chegou aos 25% do PIB, só atingida pelo Chile e nível necessário para expansão mais acelerada. Mas, enquanto no continente ela melhorou, alcançando 22%, a nossa se arrasta entre 17% e 18%. A taxa de variação na formação do capital fixo, de 20% na Argentina, de 19% na Colômbia, de 12,4% na América do Sul, foi no Brasil de apenas 3,5%. Abaixo de nós, Panamá, Guatemala, Costa Rica, Paraguai, Bolívia, Honduras e o indefectível Haiti.

Por que lembrar essas verdades, em vez de seguir o lema de Alvaro Moreyra, que aconselhava: "As amargas, não..."? A fim de evitar o engano de subestimar a decisiva importância do ciclo mundial nos (sofríveis) resultados obtidos pelo país. É como se o Brasil competisse num campeonato de surfe. Até agora desliza nossa prancha pela crista da onda, mas, na classificação final, estamos na rabeira. Se, com onda tão boa, mal conseguimos nos equilibrar, quem nos garante que não nos afogaremos quando a vaga mudar?

...


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