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Folha de S. Paulo - 2006

São Paulo - Brasil

 

O aprendizado da virtude 

Melhoria da educação e reforma das instituições políticas têm de ser prioridades indiscutíveis

03/09/06

 

Rubens Ricupero

A LEITURA dos jornais, dizia Hegel, tornou-se "uma espécie de oração matinal realista". Foi o que aprendi num verdadeiro "Thesouro da Juventude" para adultos e velhos, a mina de conhecimento que recomendo ao leitor, "Ética", que Fábio Konder Comparato acaba de publicar pela Companhia das Letras.

A realidade jornalística que o filósofo encontraria em Genebra lhe ofereceria parco alimento à oração. Desde que voltei, descobri que as manchetes vêm sendo dominadas pela palpitante controvérsia da imposição de focinheira aos cães em parques públicos.Tendo vivido aqui quase 14 anos, lembro de outra manchete famosa sobre o problema da obesidade canina, que começava a preocupar a Suíça.

Não quero dar a impressão caricatural de que os patrícios de Rousseau tenham resolvido todos os problemas sérios da vida coletiva. A verdade, porém, é que neste doce fim do verão, contemplando a imponente massa de neve do Mont Blanc contra luminoso e fresco céu de esmalte puro, é difícil deixar de sentir que horrores como sanguessugas, vampiros, mensaleiros, PCC, foram como que desterrados a um longínquo Plutão, ele mesmo degradado da categoria de planeta.

Será que a virtude pública só se conquista ao preço do tédio confortável que Vinícius louvou em poema sobre o inverno em Genebra? É o que se fica tentado a pensar ao ver que, anos a fio, a Transparency International classifica como os menos corruptos países como a Islândia, Finlândia, Noruega, Dinamarca, Suíça, Suécia, Nova Zelândia, Áustria, Cingapura, isto é, pequenos, ultradesenvolvidos, educados, homogêneos e desfrutando do invariável tédio das nações sem história.

Consola notar que a virtude se adquire, como nesses exemplos, pelo desenvolvimento entendido não como mera acumulação de riqueza mas como aprendizado da capacidade de gerir sociedades complexas. O que, por sua vez, depende da excelência das instituições e de educação de qualidade.

Ajuda também não ser "gigante pela própria natureza". Os monstros desse tipo não estão bem, pois sofrem de heterogeneidade aguda. Mesmo o mais desenvolvido deles, os Estados Unidos, situa-se no 17º lugar. Dos demais, o Brasil, número 62 (será que o merecemos?), vem antes da China (75) e da Índia (85).

Outro consolo é que não parece existir uma maldição ibero-americana. O Chile empata com o Japão (21), antes da Espanha (23) e Portugal (26). Com a Costa Rica, ocupa posição respeitável. Mais uma vez, trata-se da combinação de educação, homogeneidade, tamanho moderado.

Educação e cultura não bastam todavia. A qualidade das instituições políticas faz diferença. Sempre me impressionou, nesse sentido, o caso da Rússia. País de Tolstói, Dostoiévski, Tchekov, Tchaikóvski, Stravinski, Prokofief, Shostakóvski, do balé, da ópera, do teatro de Stanislavski, do cinema de Eisenstein, de Chagall, dos construtivistas, de matemáticos, físicos, do Sputnik, os russos parecem ter todos os talentos, salvo um: o de saber se autogovernar. Não é surpresa que figurem quase na rabeira (126!).

Perto de nós, os argentinos são também talentosos, gozam de boa educação, mas com a tendência de serem desastrados na arte do governo, tendo sido relegados ao número 95. Já os suíços, apesar de Rousseau, Benjamin Constant, Madame de Stael, Pestalozzi, Piaget, Corbisier, Klee, Giacometti, não serão tão talentosos como os russos, mas inventaram instituições inimitáveis, penhor de estabilidade, riqueza, paz perpétua em meio a vizinhos brilhantes, mas sanguinários e suicidas.

Quanto a nós, pode ser que nossos bosques tenham mais vida e nossa vida, mais amores, mas não creio que sejamos talentosos como russos e argentinos, nem capazes de autogoverno honesto e eficaz como os suíços. Imagino, assim, que a reforma das instituições políticas e a melhoria da qualidade educacional sejam as prioridades indiscutíveis dessa propaganda obrigatória na TV, da qual, sem mágoa ou arrependimento, me vejo privado pela distância. A não ser que queiramos adiar o máximo o momento de enfim desfrutar do que Vinícius descrevia como o "Tédio bom, tédio conselheiro, tédio/ Da vida que não é/ E para o qual há sempre bom remédio/ No bar do Rabelais".

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