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Folha de S. Paulo - 2006

São Paulo - Brasil

 

Flores póstumas

João Frank da Costa foi um dos primeiros a perceber a primazia do conhecimento científico e da pesquisa

10/12/06

 

Rubens Ricupero

QUERO AS flores em vida, dizia Nelson Cavaquinho. Depois, só rezas e nada mais. João Frank da Costa teve suas flores muito tempo depois da morte. Ao menos as que lhe foram destinadas pela Ordem do Mérito Científico, conferida a título post mortem por feliz iniciativa do ministro da Ciência e Tecnologia.

A homenagem oficial convida ao esforço de revelar aos muitos que a desconhecem a vida desse homem de exceção até na origem incomum.
Um dos últimos, se não o último de espécie em extinção -a dos diplomatas nascidos e criados no exterior-, vinha de uma dessas velhas famílias portuguesas do Pará proprietárias de seringais e sesmarias.

A borracha e o câmbio estável permitiam-lhes viver em Paris por gerações. No seu caso, se não estou enganado, o pai e o avô já tinham nascido na Europa.
Herdou casa no aristocrático bairro parisiense de Passy e passava férias no seu antigo priorado do século 13, no Périgord. Não era, porém, dos que se acomodam ao caminho de facilidades. Antes de completar 18 anos na França ocupada, aderiu à Resistência, onde se contava que se distinguiu por ações arrojadas contra os nazistas. Finda a guerra, destacou-se nos estudos de direito internacional, economia e literatura. Sua tese pioneira sobre o regime internacional da Antártida já revelava o pendor científico que o caracterizaria.

Após o concurso brilhante no Instituto Rio Branco, escreveu primeiro um longo ensaio, depois um livro sobre a diplomacia de Joaquim Nabuco, que, desde então, se tornaram obras de referência. O livro teve, infelizmente, edição tão desleixada e cheia de erros de impressão que é de leitura penosa. O Itamaraty completaria a homenagem atual se promovesse uma edição decente, uma vez que a obra é uma raridade. Melhor até se reunisse no novo livro os artigos e escritos esparsos.

João Frank foi praticamente quem inventou no Brasil o tema da cooperação internacional para o desenvolvimento em matéria de ciência e tecnologia. Criou a divisão sobre o assunto no Itamaraty, e o trabalho que realizou teve tamanha repercussão, dentro e fora do país, que as Nações Unidas o convidaram para ser o subsecretário-geral da ONU para a área.

Nessa condição, organizou a grande Conferência da ONU sobre Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento, em Viena, nos anos 70, tempos de confronto pouco propícios ao entendimento. Desde aquele começo, as nações líderes em pesquisa científica já se haviam atrelado aos interesses mercantilistas das transnacionais detentoras da tecnologia farmacêutica e da biotecnologia.
João Frank foi um dos primeiros a perceber a primazia do conhecimento científico e da pesquisa. Os raros setores nos quais o Brasil seguiu essa política -a agricultura, com a Embrapa, a indústria aeronáutica, com a Embraer- são, não por acaso, os de maior dinamismo e êxito da economia brasileira. Os princípios cooperativos de Viena até hoje se contrapõem ao egoísmo privatizante da proteção excessiva das patentes na luta para dar acesso a todos ao patrimônio científico da humanidade.

Uma ironia cruel fez com que esse homem, todo ação e energia, fosse aos poucos anulado por uma dessas misteriosas doenças que destroem os músculos. Não se abateu e, até o fim, continuou a inventar, cada vez mais mergulhado nas obras de "assemblage" que criava com materiais disparatados reunidos com humor e irreverência. Fazia bem, de modo claro e despretensioso, tudo que tocava, inclusive a cozinha.

A essência de João Frank está no delicioso "La cuisine et la table dans l'oeuvre de Proust", que escreveu quando convidado a dirigir a reencenacão do jantar que a mãe do Narrador oferece a Monsieur de Norpois.

Pequena obra-prima de erudição, intuição crítica e ironia sutilíssima, comenta o texto que a fiel Francoise deveria ter preparado sob protesto a extravagante salada de ananás com trufas, triunfo do exagero burguês. E completa com julgamento que poderia servir-lhe de lema. A cozinheira de gênio, afirma João Frank, sabe que a boa cozinha se reconhece "não no rebuscamento e na complicação, mas na simplicidade -signo de perfeição- e na capacidade de dar valor ao gosto que possuem as coisas".

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