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Folha de S. Paulo - 2007

São Paulo - Brasil

 

A insurreição da bondade

Abbé Pierre distribuiu a herança aos pobres e adotou a máxima franciscana de "servir primeiro os que mais sofrem"

04/02/07

 

Rubens Ricupero

 

ELEITO UM dos três maiores franceses de todos os tempos, ao lado de Pasteur e de Gaulle, o Abbé Pierre encarnou as duas paixões da alma da França: a fraternidade e a insubmissão. Escrevo no aniversário do seu apelo de 1º de fevereiro de 1954, num inverno siberiano de -15C em Paris: "Socorro, meus amigos! Uma mulher acaba de morrer de frio às 3h no boulevard Sébastopol, segurando na mão sua notificação de despejo".


De acordo com o obituarista do "Monde", diante da voz emocionada no programa de rádio do meio-dia, "a França da hora do almoço se paralisa, com o garfo no ar". O apelo desencadeia a "insurreição da bondade", jamais vista, antes ou depois.


Vinte mil pessoas se mobilizam, o ator Michel Simon dá um envelope com 1 milhão de francos, o cantor Charles Trenet doa 1,75 milhão de francos, Charlie Chaplin chama o Abbé Pierre ao hotel e lhe entrega 2 milhões de francos em espécie, dizendo: "Eles pertencem ao vagabundo que fui e simbolizei".


A onda se propagou até o longínquo Brasil. Poucos meses depois, um grupo de estudantes de 18 anos, inspirados pela ação de dom Hélder Câmara nas favelas do Rio de Janeiro e pelo exemplo do Abbé Pierre, tentávamos fazer alguma coisa parecida numa favela do Alto da Mooca. Seu primeiro livro narrando o início dos Companheiros de Emaús era nosso catecismo.


Num país de divisões e rancores, foi uma rara unanimidade. Santo do nosso tempo, não tinha nada da imagem adocicada dos "santinhos" devotos. Era homem de ação, membro da Resistência, preso e evadido duas vezes. Seu primeiro companheiro foi um ex-presidiário que tentara suicidar-se. "Não tenho nada para lhe dar. Você não tem nada a perder porque quer morrer. Dê-me então sua ajuda para ajudarmos os outros." Nasceu assim a Comunidade de Emaús. Mais tarde, diria esse primeiro recrutado: "O que me faltava não era apenas do que viver, eram razões para querer viver".


O grupo pioneiro -ex-criminosos, prostitutas, alcoólatras- teve início tumultuoso. Aos poucos, encontrou a vocação: construir moradias para os sem-casa, mesmo fora ou contra a lei, invadindo, se preciso, terrenos ou imóveis desocupados.
Abbé Pierre criou o "princípio da insolência comedida": espicaçar todos os governos, sem chegar à agressividade da ruptura. Rejeitava o assistencialismo que vicia e degrada.


Seu lema era: "Os homens de pé". Só aceitava quem se dispusesse a trabalhar além da subsistência pessoal.


Franzino e frágil como dom Hélder, Madre Teresa, Gandhi, espanta que tivesse chegado aos 94 anos.


Doente dos pulmões, teve a toda hora de interromper os estudos e foi obrigado a deixar a rigorosa vida de capuchinho, que levou por oito anos.
Na campanha heróica do inverno de 1954, dormia duas horas por noite e quase morreu de esgotamento. Passou 22 meses no hospital e sofreu seis operações para sobreviver.


Sua força vinha da fé. Aos 15 anos, rezava na basílica de Assis quando uma "exaltação indescritível" decidiu-o a seguir São Francisco, como ele filho de rico negociante de tecidos. Distribuiu a herança aos pobres e adotou a máxima franciscana de "servir primeiro os que mais sofrem". Nisso, era fiel ao pai, que dedicava as manhãs de domingo a lavar e barbear os indigentes e soube educar os filhos para a generosidade.


Espírito livre, crítico do celibato dos padres, partidário da ordenação das mulheres, o futuro papa João 23, núncio em Paris, chamava-o "meu carvão em brasa". Confessou ter violado o voto de castidade, o mais doloroso de todos os votos, segundo ele, por obrigar a renunciar à ternura de uma mulher. Penitenciou-se do erro do apoio que, por amizade, dera ao negacionista Roger Garaudy.


Tentou destruir o próprio mito e denunciou suas fraquezas e faltas pessoais. Ninguém se impressionou. Santo e pecador, como se define a igreja de Cristo, o que nele conta é a caridade até o heroísmo. Porque muito amou, todo o resto lhe foi perdoado. Por isso, seu mais belo epitáfio foi a frase de Robert Solé, no "Monde": "Do Abbé Pierre, esta França descatolicizada só deseja conservar na memória a fé, a esperança e a caridade".


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