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Folha de S. Paulo - 2007

São Paulo - Brasil

 

O tempo que resta 

Se ocorrer o pior, a Amazônia virará fumaça e as galerias de Copacabana se tornarão tocas de polvos e meros

13/05/07

 

Rubens Ricupero

 

TEMOS APENAS oito anos para salvar o planeta. O relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre mudanças climáticas deixa claro que, para limitar o aumento da temperatura a 2C, é preciso que as emissões de gases-estufa se estabilizem em 2015 e caiam, em seguida, a algo entre 50% e 80% do nível de 2000.


Depois, será impossível evitar que as temperaturas aumentem até em 5C ou mais -a margem que nos separa da última era glacial, só que na direção oposta. A Terra se transformaria em planeta inóspito devido à aceleração do degelo na Groenlândia e na Antártida, à rápida elevação dos oceanos e à inundação de terras baixas, afogando cidades como Londres, Nova York, Miami e Rio.


O Brasil seria um dos países mais afetados, conforme estudo do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Perderíamos quase toda a floresta, o deserto se implantaria no Nordeste, boa parte das vantagens comparativas da agricultura e de nossa biodiversidade desapareceriam.


Diante desse perigo, o lógico é que o tema fosse a prioridade brasileira "número um", que permeasse todos os objetivos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e que um mecanismo de alto nível estivesse em ação para elaborar uma política urgente de atenuação dos efeitos da mudança climática.


Nada mais longe da realidade. O governo, que se preocupa tanto em desviar do São Francisco águas que não existirão mais e viaja com comitivas presidenciais de centenas de pessoas, enviou apenas dois representantes à reunião da ONU que redigiu e aprovou um dos relatórios de conseqüências mais graves para o nosso futuro.


Talvez não haja razão para surpresas. Afinal, desde a longínqua Conferência de Estocolmo, a posição brasileira sempre mancou de uma perna. Foi correta em denunciar a responsabilidade dos países ricos em criar o problema. Teve ganho de causa ao ver reconhecido o princípio de "responsabilidade diferenciada". Ficou nisso, porém.


No fundo, não mudou em essência em relação aos governos militares, que chegaram a dar as boas vindas a governos poluidores com o argumento da "prioridade de crescer". A ironia é que acabamos não crescendo em mais de 20 anos e assistimos a Amazônia ser destruída ao ritmo de 24 mil km2 por ano -como comparação, mais do que os 21,9 mil km2 de extensão do Estado de Sergipe.


O Brasil teria tudo para ser uma potência ambiental -aliás, a única área em que nossa aspiração a potência é realista. Temos a maior floresta tropical do planeta, um dos principais reservatórios de água doce, biodiversidade riquíssima, equação energética limpa e a melhor experiência em biocombustível.


Em vez disso, 75% das emissões que nos tornaram o quarto maior emissor de CO2 vêm das queimadas e apenas os 25% restantes vêm do setor moderno que impulsiona o crescimento, o que prova a falsidade do argumento desenvolvimentista. Reféns de incendiários e devastadores, somos incapazes de assumir liderança moral e pró-ativa de negociações de futuro Protocolo de Kyoto que salve a Terra da destruição e contribua para defender nosso próprio patrimônio.


Não compreendemos que a alternativa desenvolvimento ou redução das emissões não existe porque não haverá o que desenvolver num planeta tórrido e semimorto.


Se o pior acontecer, serão nossos descendentes aqui, não em Londres, que verão a Amazônia virar fumaça, o sertão se converter em novo deserto do Saara e as galerias de Copacabana se tornarem tocas de polvos e meros, como profetizou Rubem Braga em 1958.


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