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Folha de S. Paulo - 2007

São Paulo - Brasil

 

Vinte e sete anos atrás

Estaríamos voltando à conjuntura inflacionária mundial como terapêutica para a economia americana?

30/09/07

 

Rubens Ricupero

 

O OURO vem de atingir a mais alta cotação em 27 anos. Isso nos retroage a 1980, final do governo Carter, quando a inflação americana chegou ao topo de 11%.


Não tardou para que Paul Volcker, presidente do Federal Reserve, aumentasse os juros a dois dígitos, precipitando a América Latina na crise da dívida, na qual deixou anéis e vários dedos.


Estaríamos voltando à conjuntura mundial inflacionária, não por acidente, mas como terapêutica para a economia americana? É o que ouço de amigos suíços dos meios financeiros.


Não foi surpresa para eles a redução de meio ponto nos juros dos Estados Unidos. Inflacionar a economia sempre foi tentação quase irresistível para um país se livrar da montanha de dívidas domésticas e externas. O gostinho é mais delicioso quando a conta do ajuste é paga por estrangeiros, credores e concorrentes, sob a forma de moedas valorizadas, de créditos e reservas rebaixados.


Impensável devido à irresponsabilidade? Só para quem esqueceu da frase sobre o dólar de Connally, secretário do Tesouro de Nixon: "Our currency but your problem" ("A moeda é nossa, mas o problema é vosso").


Eu vivia em Washington e lembro bem da época, de como, por exemplo, a Guerra do Vietnã parecia que nunca ia acabar. Como esta, do Afeganistão-Iraque, tinha já durado mais que a Primeira Guerra Mundial. Como agora, os gastos militares agravavam o duplo déficit orçamentário e externo. Também havia bolha imobiliária, da qual provei pessoalmente os efeitos.


Da mesma forma, o preço do petróleo explodia. No dia do recente corte dos juros, o barril do cru superou US$ 82 e o novo patamar "natural" passou a ser US$ 80. Não será com o bombardeio israelense da Síria e as ameaças de Bush-Sarkozy ao Irã que ele vai baixar.


Os metais continuam nas nuvens, o trigo nem naquele tempo esteve tão caro, o milho e a soja sobem por efeito do álcool. A China acaba de decretar congelamento para segurar a inflação. O engenhoso expurgo de alimentos e energia -afinal, o que conta no bolso do consumidor- faz os preços parecerem moderados, mas os ativos não enganam. O excesso de liquidez produz bolhas nos imóveis, nas ações, nas commodities e no índice Ibovespa, da Bolsa de Valores de São Paulo.


Deixei um país abalado e, ao voltar em 1991, como embaixador, reencontrei nação vitoriosa na Guerra do Golfo, autoconfiante e afirmativa. A estratégia do ajuste funcionara. O desabamento dos preços de 1986 aniquilou os países petrolíferos. Um ano antes, o acordo do Plaza obrigara europeus e japoneses a engolirem a desvalorização do dólar. A explosão da Bolsa nipônica em 1990 liquidou a ameaça do Japão "number one".


Quem vai ficar com a fatura desta vez? Os europeus já começaram a pagar mediante a valorização do euro e a perda de exportações. A China foi surda aos apelos sobre a moeda, mas ela que se cuide. A queda drástica do dólar pulveriza boa parte de suas reservas e encolhe o mercado ianque.


Se acabar a inflação baixa com liquidez farta, vai sobrar para todos. O Brasil inclusive, que, graças ao mais generoso dos bancos centrais, contribui para a inflação de ativos ao deixar especuladores ganharem fortunas à custa de nossos juros. No segundo trimestre, as especulações em real foram recorde mundial, com aumento de 32% (dados do Banco de Basiléia). É esse lixo tóxico que os trouxas chamam "investimento estrangeiro".

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