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Folha de S. Paulo - 2008

São Paulo - Brasil

 

O primeiro teste

Barack Obama tem de definir as coisas que fará caso seu antecessor não as faça até o fim do mandato, em janeiro

09/11/08

 

Rubens Ricupero

 

A POUCO MAIS de dois meses da posse, a reunião do G20 em Washington, no dia 15 deste mês, será o primeiro teste de Obama, mesmo não estando fisicamente presente. Não lhe será possível ignorar as medidas que o moribundo governo de Bush tenha de tomar, sozinho ou em coordenação com outros. O problema é que, não possuindo a efetividade do poder, é limitada sua capacidade de influir para a adoção das decisões corretas ou para assegurar sua acertada execução. Um fiasco corroeria a mágica da vitória antes até do inevitável desgaste que sempre acompanha o choque entre a esperança e a realidade.


Foi por temer esse desgaste precoce que Franklin Roosevelt rejeitou o apelo do presidente Herbert Hoover para se tornar o co-fiador das ações que o governo anunciou naquele catastrófico ano de 1932. Na época, havia uma espera de cinco meses entre a eleição e a posse. Devido a esse precedente, os norte-americanos emendaram a Constituição, tarefa rara e difícil nos Estados Unidos, a fim de abreviar a espera pela metade.


Ainda assim é demasiada, sobretudo em hora de excepcional gravidade como a atual. Não se vê como um presidente considerado o pior, ou o segundo pior, da história americana consiga devolver à população a confiança, cuja perda é um dos elementos centrais da crise. Essa é uma das únicas situações em que se desejaria que os Estados Unidos fossem como a Argentina, onde o presidente Alfonsín antecipou o fim do mandato a fim de permitir que o sucessor controlasse a hiperinflação. O que resta a Obama é deixar claras as coisas que fará caso o antecessor não as faça. A primeira delas é um pacote fiscal de estímulo ao consumo. Não parece impossível que o governo Bush possa adiantar algo nesse sentido. Mais improvável é que se avance nos temas sociais em favor das vítimas da crise imobiliária, do alívio tributário às faixas mais baixas, da prioridade na criação de empregos.


Emergem assim, aos poucos, os contornos da opção preferencial pelos órfãos e pelas vítimas da era Reagan, do ciclo de injustiça, de desigualdade e de favorecimento ao setor financeiro que se denominou irrisoriamente de "revolução" conservadora. A era que se inicia com a vitória de Obama e a ressurreição do Partido Democrata volta ao espírito da frase de Abraham Lincoln: entre o dólar e o homem, é preciso escolher o homem.


É nisso que Obama revela fidelidade à força feminina que fez dele o que é. Abandonado pelo pai aos dois anos de idade, o presidente eleito é o símbolo de milhões de pessoas nos Estados Unidos e no mundo que foram criadas pela mãe e, em seu caso, pela avó materna. Sua ligação com as políticas sociais iniciadas por Roosevelt e ampliadas por Johnson é tão profunda como a do general Colin Powell, que sem elas, conforme declarou, jamais teria saído do gueto.


A respeito de Obama falou-se muito de raça e de nova geração, mas não se mencionou o mais significativo da sua inspiração íntima: a jovem mãe, que lutou como organizadora social em favor de mulheres marginalizadas, e a avó, sustentáculo de uma família onde as figuras masculinas eram ausentes ou fracas.


Ele representa uma tendência social característica do nosso tempo: as famílias dirigidas por mulheres, que sobrevivem e produzem gente forte graças ao que William Faulkner exprimiu com espanto, ao ouvir a história de vida de uma prostituta: "A mulher é indestrutível!"

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