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Folha de S. Paulo - 2008

São Paulo - Brasil

 

A autodestruição da esquerda

A demência revolucionária arrastou no seu naufrágio até o que existia de mais puro no sonho socialista   

16/03/08

 

Rubens Ricupero

 

ÀS NOVE da manhã deste dia, em 1978, após massacrarem cinco guarda-costas, as Brigadas Vermelhas seqüestravam Aldo Moro e davam início ao processo que contribuiria para a completa perda de fé no ideal revolucionário na Itália e na Europa. O monstruoso assassinato de Moro, 54 dias mais tarde, figura, ao lado dos julgamentos de Moscou, do Gulag e dos milhões de vítimas de Stálin, como um dos símbolos do horror que comprometeu irremediavelmente o sonho socialista da emancipação do homem.


A Itália jamais se reergueu, não tanto do infame homicídio, mas da desonra de uma classe dirigente que condenou seu melhor membro a morrer no mais covarde abandono.


As instituições ainda se arrastaram uns anos até se constatar na Operação Mãos Limpas aquilo que já se suspeitava: com a morte de Moro, tinham também morrido a Primeira República e os dois partidos gêmeos e inimigos que a sustentavam, a Democracia Cristã e o Comunista.


Nada de original e forte se consegue fazer crescer, desde então, nos escombros de mais uma das tantas ruínas que atravancam a velha Roma. Os assassinos queriam impedir Moro de realizar o "compromisso histórico": a superação do impasse simbolizado no empate das eleições de 1976 mediante o ingresso dos comunistas no governo e sua transformação em força democrática e reformista. Esperavam criar condições para a revolução. O que lograram com o crime foi provocar repugnância tão forte que acabou por abranger os conceitos de socialismo e esquerda, como não ocorre em nenhum outro país da Europa ocidental.


Quando o comunismo acabou, os ex-comunistas ainda tentaram se rebatizar de "Democracia de Esquerda". Tiveram de renegar o segundo termo e formar com os católicos de Prodi um partido que se intitula apenas de "Democrático". Seu candidato a primeiro-ministro, o prefeito de Roma e ex-redator-chefe do jornal comunista "L'Unità", Walter Veltroni, define o partido como reformista, mas não de esquerda, e rechaça a identidade socialista.


A aliança Prodi-Veltroni é, com 30 anos de atraso, o compromisso que Moro queria concluir com o eurocomunismo de Berlinguer. Só que deixou de ser histórico pois o colapso mundial do comunismo já tinha liquidado o problema do impasse.


Não é um intento a mais de reinventar o socialismo, como, bem ou mal, tentam Zapatero e outros; trata-se do abandono, puro e simples, da fé na possibilidade mesma da esquerda ou na sua necessidade.


No momento em que crescem na Europa as desigualdades, dando à esquerda renovadas razões para existir, nega-se o que Bobbio indicava como a própria razão de ser da esquerda: a luta contra a injustiça e desigualdade criadas pelos homens.


Embora bem superior à alternativa de Berlusconi, a proposta soa prosaica e melancólica. A demência revolucionária arrastou no seu naufrágio até o que existia de mais puro no sonho socialista.


O único que fica da tragédia é o adeus comovido de Aldo Moro na última carta à mulher, Eleonora, sua Norina: "Beija e acaricia por mim, rosto por rosto, olho por olho, cabelo por cabelo. A cada um, minha imensa ternura, que passa por tuas mãos. Sê forte, minha dulcíssima, nesta prova absurda e incompreensível. São as vias do Senhor. Gostaria de entender, com os meus pequenos olhos mortais, como veremos depois. Se houvesse luz, seria belíssimo".

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