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Folha de S. Paulo - 2008

São Paulo - Brasil

 

Quem é o inimigo do Brasil? 

O Brasil enfrenta certa dificuldade para definir política de defesa com grau de credibilidade     

22/06/08

 

Rubens Ricupero

 

EM PAZ ininterrupta com os dez vizinhos há 138 anos, desde o fim da Guerra da Tríplice Aliança em 1º de março de 1870, o Brasil enfrenta certa dificuldade para definir política de defesa com grau de credibilidade. Afinal, nenhum outro país do mundo, sobretudo de porte continental e com tantos vizinhos, ostenta, mesmo de longe, galardão comparável.


Narra Umberto Eco que, num táxi em Nova York, o chofer, um asiático, lhe perguntou: "Quem é o teu inimigo?". Ante sua perplexidade, explicou-lhe o taxista que toda nacionalidade tinha sempre um inimigo natural, a Índia para o Paquistão, a Alemanha para a França, ou vice-versa.


Não conseguiu Eco atinar qual seria o inimigo óbvio dos italianos.


Salvo em futebol, o mesmo e com mais razão poderíamos dizer nós.


Nisso, somos diferentes do Barão do Rio Branco e seus contemporâneos, para os quais mantinha-se viva a memória das difíceis guerras sustentadas pela monarquia no Cone Sul.


No tempo da Guerra Fria, era possível construir nexos entre a ameaça da União Soviética aos Estados Unidos no plano global e a dos partidos comunistas no interior do Brasil e em outros países latino-americanos. Com o fim do comunismo ocorre uma espécie de descolamento da agenda brasileira de segurança em relação à identificada pelas grandes potências ocidentais.


Para os americanos e aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a agenda global deve se concentrar em três níveis de ameaças de acordo com sua maior proximidade. O primeiro é formado pelo terrorismo islâmico, a proliferação de armas de destruição maciça passíveis de caírem em mãos de terroristas e o cacho de problemas do Oriente Médio: guerras intermináveis no Iraque e no Afeganistão, tensão com o Irã e a Síria, o barril de pólvora do Líbano e o do conflito entre palestinos e israelenses, sem esquecer movimentos como o Hizbollah e o Hamas.


No segundo e terceiro níveis, figuram a Rússia, contra a qual se fecha o cerco da expansão da Aliança Atlântica e a da construção de barreiras antimísseis, e a China, que se suspeita há de emergir como o inimigo estratégico do futuro. Nenhuma dessas questões tem muito a ver com a percepção, pelo Brasil e seus vizinhos, das possíveis ameaças diretas à segurança da América do Sul. A consciência de que existe, em matéria de segurança, uma especificidade sul-americana "negativa", isto é, não coincidente com a agenda global dos americanos, terá sido um dos fatores a inspirar a proposta de um Conselho de Defesa para o continente.


Contudo, a especificidade negativa não foi suficiente. Faltou detectar a positiva, a existência de ameaça tangível e comum a todos. Para a Colômbia, tal ameaça vem da guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), e os Estados Unidos são os únicos aliados efetivos e confiáveis para combatê-la. Já para a Venezuela, o Equador, a Bolívia, cujas afinidades ideológicas com a guerrilha são indisfarçáveis, o inimigo seria o "Império" americano, principal sustentáculo militar e logístico de Bogotá. Não é difícil imaginar que a simpatia de Chile e Peru esteja com a Colômbia. Mais árduo é adivinhar qual a posição real do Brasil e da Argentina, se é que existe.


Não há como conciliar posições tão incompatíveis. A experiência malograda de Rio Branco com o ABC, veremos em próximo artigo, teria aconselhado amadurecer melhor proposta complexa e, em qualquer hipótese, arriscada.


...


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