Home <> busca


Biografia

Conferências

Artigos

Textos na UNCTAD

Entrevistas

Livros

Prefácios

Na imprensa

Contato


<<Voltar

Artigos


Folha de S. Paulo - 2008

São Paulo - Brasil

 

Maré vazante no comércio

Quando os EUA começam a importar menos, não existe ninguém para tomar o lugar dos norte-americanos

23/11/08

 

Rubens Ricupero

 

O SILÊNCIO sobre o futuro próximo é o que mais chama a atenção na análise do comércio mundial divulgada no dia 5 deste mês pela OMC (Organização Mundial do Comércio): nada se diz sobre o provável comportamento do intercâmbio em 2008 e em 2009. Faltando apenas dois meses para o fim do ano, é estranho que a OMC não se tenha animado a confirmar ou a desmentir a previsão de crescimento que fizera no início do segundo trimestre.


Apesar do medo de alarmar quando as incertezas apontam para baixo, o relatório confirma que o comércio mundial começou a enfraquecer antes mesmo do auge da crise. Enquanto o intercâmbio tinha crescido a 8,5% em 2006, no ano seguinte a taxa se havia desacelerado para 6%. Para 2008, previa-se em abril expansão de 4,5% ou menos, bem abaixo da média de dois anos atrás.


O comércio principiou a perder força em 2007, antes da crise das hipotecas, com o início do processo de ajuste da balança comercial dos Estados Unidos. O crescimento da demanda norte-americana por importações caiu de 6% para 2% -um corte brutal de dois terços. A contração da demanda se tornou global a partir da propagação da crise recessiva às economias da Europa e do Japão, meses depois.


Abortou-se assim a desejada aterrissagem suave, pela qual a desaceleração dos Estados Unidos seria compensada pelo aumento das demandas européia e japonesa. Temos agora o pior dos mundos: todas as economias principais em contração de crescimento e de demanda de importações. Nessas horas percebe-se que chineses e asiáticos estão longe de substituir o papel das economias avançadas como responsáveis por mais de 55% do aumento da demanda de importações.


Também se descobre que, quando os Estados Unidos começam a comprar menos do exterior, não existe ninguém para tomar o lugar dos norte-americanos, povo com a mais alta propensão para importar, verdadeiros "importadores de última instância". A Europa realiza nada menos de 76% do seu comércio dentro do próprio continente; o que sobra para o resto do mundo é pouco mais de um quarto (26%).


O mais notável no comércio em 2007, diz o relatório, foi a expansão de 19% das exportações agrícolas, puxadas pelo efêmero aumento do preço das commodities. Além do melancólico registro de tendência ora defunta, serve o fato para acentuar, uma vez mais, a absurda injustiça de sistema comercial onde a Europa, com seu arsenal de subsídios e medidas distorcivas, responde por 46%, quase a metade, das exportações agrícolas mundiais. O Brasil e a Argentina, não obstante as vantagens competitivas de suas condições naturais, não logram igualar o que os europeus obtêm da sistemática violação de todas as regras da teoria do livre comércio que defendem com belos discursos.


Já enfraquecido pela queda na demanda global e no preço das commodities, o comércio mundial enfrenta o problema adicional de aguda escassez de crédito para exportações. Essa tendência adversa encontra o Brasil em fase de contração de 40% do saldo comercial e de forte elevação do déficit corrente, pressionado pelas remessas de dólares. A desvalorização do real e a baixa do petróleo compensam em parte a deterioração. Contudo a lógica aponta para duas conclusões: a pressão sobre a moeda nacional vai continuar e o ajuste terá de ser feito mediante a redução das importações. Será difícil continuar a crescer sem poupança interna suficiente.

...


Anos

2009        2008        2007        2006        2005        2004        2003        2002        2001   2000        1999        1998        1997        1996        1995       

 

 


<<Voltar