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Folha de S. Paulo - 2008

São Paulo - Brasil

 

Confusões latino-americanas

Divergência entre os sócios de maior peso do Mercosul é fato grave e exige explicação e ações para não se repetir     

31/08/08

 

Rubens Ricupero

 

A julgar pelas recentes negociações de Genebra se poderia pensar que o Mercosul é formado pelo Brasil e pelos que deram apoio à nossa posição: Chile, Peru, Colômbia e México. A Argentina e a Venezuela, que a denunciaram com vigor, pareceriam pertencer a algum bloco rival. O fracassado acordo de Genebra teria sido determinante para o futuro do comércio mundial. Afetaria vitalmente qualquer acordo regional como as uniões aduaneiras tipo Mercosul.

 

Uma divergência entre os três sócios de maior peso da mesma união sobre questão decisiva na mais alta instância comercial é fato da maior gravidade. Exige explicação e, mais do que isso, ações para evitar sua repetição.

 

Esperava-se que a solução viesse durante a visita do presidente Lula à Argentina, logo após a reunião de Genebra. Ora, a visita nada esclareceu do passado e complicou ainda mais o futuro. Na parte improvisada do discurso aos empresários, o presidente sinalizou que a solução seria flexibilizar o Mercosul. Como interpretar de outro modo a afirmação: "Temos de construir consensos no limite do possível, mas sem abrir mão da soberania, fazendo os acordos bilaterais que cada país entenda ser melhor"? Não pensa assim o assessor presidencial para assuntos internacionais. Em entrevista ao "Clarín", ele declarou que, longe de querer flexibilizar, o Brasil quer aprofundar o Mercosul.

 

Descartou igualmente a possibilidade de acordos bilaterais como idéia fixa de empresários. Menos abrasivo na linguagem, o ministro Celso Amorim disse o mesmo na substância. Reafirmou em Montevidéu o compromisso com o Mercosul e asseverou que uma das prioridades da presidência brasileira do bloco seria completar a adesão da Venezuela. Como ficamos diante da contradição óbvia? Quanto à divergência em Genebra, nada mudou. Ninguém se arrependeu, se desculpou ou prometeu alterar o comportamento. Empurrou-se com a barriga até quando e se a Rodada Doha for reativada. Aí, então, se verá o que fazer.

 

Na questão da alternativa à retomada das negociações de Doha, teremos mais do mesmo e, com a inclusão completa da Venezuela, em dose dupla. Só faltou forçar a entrada da Bolívia sem negociações tarifárias como o Brasil teria tentado, tempos atrás. Comenta-se nos corredores do Itamaraty que os argentinos tiveram de raspar suas escassas reservas de bom senso e equilíbrio, a fim de evitar que o nosso insensato coração prevalecesse! E agora?

 

Vamos negociar dentro de bloco que continuará a não ter executivo forte, nem uma voz unificada. Ônus adicional será o ingresso de sócio que inviabilizará de saída um acordo com seus numerosos desafetos por razões políticas ou pela prática repetida de expropriações. Não seria melhor rever a decisão ministerial que obrigou à negociação conjunta, devolvendo aos membros a liberdade de iniciativa em relação a terceiros? Não tanto para concluir acordos bilaterais com os Estados Unidos ou os europeus, cujas chances, sem Doha, são mínimas. A flexibilidade neutralizaria o dano potencial de Chávez. Além disso, permitiria negociar ajustes para evitar discriminação nos países latino-americanos que têm acordos com os Estados Unidos, os mesmos que nos apoiaram em Genebra. Na hora decisiva, as afinidades de orientação econômica e moderação política deles conosco contaram mais em termos objetivos do que a retórica do Mercosul.



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