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Folha de S. Paulo - 2009

São Paulo - Brasil

 

Cavaleiros do apocalipse

Uma solução negociada para o conflito entre Israel e os palestinos teria incalculável impacto político-econômico

04/01/09

 

Rubens Ricupero

 

DOS QUATRO maiores focos de conflito não solucionados no degelo pós-Guerra Fria e que se arrastam há mais de 50 anos, três são vulcões intermitentes: Taiwan, Caxemira e Coreia do Norte. Só a questão árabe-israelense é vulcão em estado de erupção quase ininterrupta.


A dormência dos primeiros se explica porque todos os envolvidos (ou seus aliados) são potências nucleares, sujeitas ao mesmo mecanismo de autocontenção da violência, devido ao temor de que a guerra se converta de fria em incandescente e atômica.


No quarto exemplo, o desequilíbrio de poder e a impossibilidade moral de que o país forte elimine o outro lado condenam os adversários à violência permanente: ou a do terrorismo suicida, ou a do castigo desproporcional e inconclusivo. A inércia das potências internacionais sugere que elas se acomodariam ao status quo como mal menor. O problema é que "desequilíbrios estáveis" tendem a buscar equilíbrio mais duradouro, quase sempre com a explosão de crises perigosas. É o que se viu no domínio econômico-financeiro e se está vendo na faixa de Gaza.


Mesmo nas tréguas da carnificina, o conflito age como tumor contido na área da limpeza operatória, que se espalha por metástase pelo organismo. Começa pela radicalização e pelo endurecimento do adversário, de que são expressão o Hamas palestino e o Hizbollah libanês. Não para aí, todavia. Age como catalisador de todas as frustrações do mundo árabe-islâmico, precipitando-as sob forma violenta.


Liquidado com o Kosovo o contencioso balcânico e controlado o do Cáucaso pela derrota da Geórgia, a agenda mundial de crises se "islamizou". Isto é, em boa parte pelo efeito do contágio da questão crucial entre Israel e os palestinos, passou a ser dominada por ameaças que, embora de especificidade própria, têm em comum oporem ocidentais a muçulmanos: o terrorismo da Al Qaeda, Afeganistão-Paquistão, Irã, Iraque, Síria, Líbano, até a Somália e o corno da África.


A solução dessas últimas pouco altera o panorama geral da região, como se percebe da relativa redução da violência no Iraque. Em contraste, uma solução negociada entre Israel e os palestinos teria na área impacto político-econômico incalculável, comparável ao que o fim da Guerra Fria teve no mundo até em relação a problemas independentes como o apartheid.


Se fosse verdade que nenhuma questão grave se resolve sem uma crise aguda, Obama deveria estar agradecendo à sua estrela por lhe proporcionar a dupla oportunidade de enfrentar os dois maiores desafios econômico e político contemporâneos, no início do governo e ao mesmo tempo. Dependem ambos não somente, mas acima de tudo, dos Estados Unidos, do poder que só esse país possui, da disposição de utilizá-lo contra os poderosos lobbies que sempre impediram soluções de compromisso nesses setores, articulando as políticas adequadas, que, num caso e no outro, terão de contar com a participação ativa da ONU (Organização das Nações Unidas) e da maioria dos países. Tudo, enfim, ao contrário do que fez o atual governo Bush.


Dizia o candidato que os norte-americanos, sim, podiam e que desejavam mudar. Terá agora de passar dos slogans aos atos e provar que funcionam na realidade. Em outras palavras, o teste imediato a que será submetido o futuro presidente estará à altura das gigantescas e talvez excessivas expectativas que despertou.

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