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Folha de S. Paulo - 2009

São Paulo - Brasil

 

Obsessão cubana

A decisão da OEA sobre Cuba deve ser vista como gesto de contrição e emenda do próprio passado da AL

07/06/09

 

Rubens Ricupero

 

QUAL É o país mais importante da América Latina? Cuba, responde Moisés Naím em "El País", a julgar pelo debate político nos EUA ou por reuniões obcecadas pelo tema cubano, como a da OEA (Organização dos Estados Americanos), que acaba de se realizar em Honduras.


Ao menos para os latino-americanos, essa obsessão tem mais a ver com a má consciência pela cumplicidade de seu alinhamento outrora com a política anticubana de Washington do que com a relevância atual do regime castrista. Nesse sentido, a recente decisão de tornar sem efeito a suspensão da OEA do governo de Havana deve ser vista, acima de tudo, como gesto de contrição e emenda do próprio passado latino- -americano.


Dessa forma, ela se esgota em si mesma, não visando, a não ser de modo secundário, oferecer a Cuba reparação ou possibilidade de retorno à organização. É por isso que o desinteresse ou o desprezo cubanos são, no fundo, irrelevantes.


Demorou quase meio século para voltar atrás da malfadada decisão da reunião de Punta del Este de janeiro de 1962. O episódio me trouxe à memória o início de minha carreira, quando eu era em Brasília oficial de gabinete do ministro San Tiago Dantas, principal inspirador da resistência à pressão americana na reunião.


San Tiago foi a inteligência mais poderosa que conheci, capaz de iluminar as questões mais obscuras e prever todos os desdobramentos prováveis de uma ação. Percebeu que o isolamento e as sanções contra Castro apresentavam o mais grave defeito de qualquer política, a de ser contraproducente, tornando inevitável o que desejava evitar: a consolidação da influência soviética.
Não estive em Punta del Este, mas guardo no fundo de um baú perdido as anotações do minucioso relato que ouvi do embaixador Gibson Barboza, chefe de gabinete do chanceler.


Nele se descrevem as hesitações do pequeno grupo que nos acompanhou na resistência (México, Argentina, Peru, poucos mais). Sempre clarividente, San Tiago anteviu que, na hora da verdade, o presidente Goulart e o primeiro-ministro cederiam às pressões americanas. No momento em que soasse o fatídico telefonema do Brasil, combinou-se que o ministro estivesse "inencontrável". Do contrário, ele se demitiria e passaria a chefia da delegação.
Tudo se passou como ele previra.


Foi desse modo que votamos e fomos derrotados, sem perder a razão nem a honra. San Tiago não desistiu e continuou a insistir na sua proposta de "finlandização" de Cuba, isto é, um acordo pelo qual os americanos aceitariam a opção marxista de Havana em troca da neutralização da ilha nas questões políticas e estratégicas da Guerra Fria. Da mesma forma que ocorrera com a Finlândia em relação à URSS de Stálin após a guerra.


Nos livros de auxiliares de Kennedy, menciona-se o interesse que a proposta despertou. A fórmula de San Tiago teria poupado ao mundo a crise dos mísseis de outubro de 1962, o mais perto que se chegou do aniquilamento nuclear durante a Guerra Fria. Pena que a ideia fosse racional demais para o estágio de amadurecimento de americanos e de cubanos. A continuação do contraproducente bloqueio americano e a reação de Cuba à decisão de Honduras mostram que o amadurecimento ainda não se completou.


Agora que todos os protagonistas centrais já morreram, fica ao menos aqui esta pequena nota ao pé da página da história.


...


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