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Folha de S. Paulo - 2011

São Paulo - Brasil

 

Ciclos defasados

Raras vezes o mundo conheceu fases tão dessincronizadas da política e da economia

26/12/2011

 

Rubens Ricupero

 

O ciclo político de terrorismo e guerras, desencadeado pelos ataques de 2001, toca o fim ao mesmo tempo em que o da crise econômica, iniciado em 2007, dissipa as ilusões de um próximo retorno à prosperidade. Raras vezes o mundo conheceu fases tão dessincronizadas da política e da economia, sem que uma contagiasse a outra.

Contágio significa aqui coisa diversa de influência. Os gastos militares americanos aprofundaram sem dúvida o deficit e enfraqueceram a economia dos Estados Unidos. Do mesmo modo, a crise financeira pesou na decisão de reverter a tendência à constante militarização da diplomacia americana.

O que não se observou até agora foi coincidência ou relação de causa e efeito, como nos anos 1930, de depressão econômica com alastramento de regimes e partidos totalitários do tipo do nazifascismo e do stalinismo. Talvez não tenha havido tempo para que a deterioração das condições de vida envenene a atmosfera política. Ou, quem sabe, o desemprego e o empobrecimento tenham sido desta vez atenuados pela legislação de bem-estar.

O fato é que o mundo parece um pouco melhor neste fim de ano. Salvo na África, o terrorismo recua em toda a parte. Há muito tempo a Al Qaeda não consegue repetir atentados espetaculares, seu chefe foi morto, os dirigentes são dizimados por aviões não pilotados. O basco ETA, último reduto terrorista no Ocidente, foi obrigado a reconhecer a derrota. Até o Hamas na faixa de Gaza anunciou que mudará a tática de resistência armada para popular.

Ante o desmantelamento da ameaça do terror, nem a sectária paralisação da política americana foi capaz de impedir que o presidente retirasse as tropas do Iraque e se preparasse para fazer outro tanto no Afeganistão. Aos poucos os EUA recuperam a capacidade de iniciativa.

Desponta o ano com o Oriente Médio livre de ditadores no Egito, na Tunísia, no Iêmen, na Líbia, talvez em breve na Síria, e reformas mais ou menos sinceras em quase todos os demais. Ações populares em favor de mais democracia principiam a aparecer na Rússia e na China. Cada vez sobra menos espaço para autocracias e violações de direitos humanos encobertas por anistias ou recusa de entrega dos culpados aos tribunais da ONU.

O Oscar de diplomacia mais inteligente na América Latina vai para o presidente da Colômbia, que se reconciliou com a Venezuela e o Equador, dissipando o mais sério foco de tensão regional. No mundo, o prêmio de diplomacia inovadora cabe à Turquia, que aceitou o risco de apostar na Primavera Árabe, em contraste com os Brics tucanamente pousados no muro da indecisão.

Até na mais improvável das causas, a ambiental, registrou-se algum progresso na Conferência de Durban. Apesar da crise econômica, megapoluidores como a China e o Brasil concederam afinal que terão de dar alguma contribuição para salvarem a si próprios, juntamente com o planeta.

Se não se foi mais longe nesse e outros foros, culpe-se a falta de liderança. Não há mais hegemonia dos EUA, mas o vácuo não foi ocupado por um multipolarismo responsável.

Ah! Estava esquecendo neste balanço de Papai Noel: a Itália e o mundo se livraram de Silvio Berlusconi. Esperemos que para sempre!


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