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Folha de S. Paulo - 2011

São Paulo - Brasil

 

Sobriedade e realismo

Brasil julga-se superior, mas, em alguns aspectos, países vizinhos mostram que caminham melhor

23/01/2011

Rubens Ricupero

 

O EX-CHANCELER Saraiva Guerreiro encarnou como ninguém virtudes que o Brasil do espetáculo e do egocentrismo parece haver desaprendido. Poucos fizeram tanto como ele para resolver alguns dos mais espinhosos desafios da diplomacia, entre eles o conflito com a Argentina sobre Itaipu e o da Guerra das Malvinas, em que soube manter o equilíbrio que daria base à confiança futura. No entanto, serão raros os brasileiros capazes de dizer quem foi esse diplomata cuja sabedoria só era igualada pela despretensão, dignidade e modéstia exemplares.

Sobriedade e realismo não são apenas qualidades que imprimem grandeza e beleza moral à personalidade. No nível dos povos constituem atributos indispensáveis para evitar a autocomplacência com os próprios defeitos, a empáfia que nos prepara mal para os inevitáveis choques da realidade.

Como esse doloroso golpe climático que, de repente, despertou com avalanche gelada país intoxicado pela apoteose propagandística de um fim de reino.
De súbito acordamos para descobrir o que na verdade somos: sociedade incapaz de lidar com a complexidade, inepta em prever, preparar planos de contingência, organizar a vida social de modo a minimizar a fatalidade. Em suma, que permanecemos -e quanto!- um país subdesenvolvido.

Um dos traços da megalomania é julgar-se excepcional e melhor que os demais. Vale a pena assim, na véspera da ida da presidente Dilma Rousseff à Argentina, desmistificar a atitude de superioridade que se adota com frequência em relação aos vizinhos.

Em alguns aspectos -inflação, atração de investimentos, clima político- o Brasil sem dúvida vai melhor. Mas em outros, nos elementos fundamentais da economia, a atualidade argentina surpreende.

Enquanto o Brasil via com alarme seu deficit em conta corrente chegar a 2,5% do PIB em 2010 e tender a dobrar no futuro, a Argentina obtinha respeitável saldo de 1,6%, que deve este ano alcançar 2,6%.

O Brasil, que faz malabarismos contábeis para inflar o superavit primário e esconder deficit orçamentário nominal de 2,5%, deve mirar com inveja o saldo argentino nominal de 0,4% em 2010, caminhando em 2011 para 0,8%.

Olhando em volta, a média do crescimento nos cinco últimos anos foi maior no Peru e na Argentina. Em conta corrente, os superavitários argentinos e chilenos nos superam, o mesmo ocorrendo em matéria fiscal com Argentina, Peru, Chile e México. As reservas em proporção ao PIB são iguais na Argentina e Chile e o dobro no Peru.
A conclusão é que há razões para satisfação, mas no fundo nossa posição é mais ou menos a mesma dos outros beneficiários do auge das commodities.

O que nos obriga a indagar se a melhoria não se deve a circunstâncias externas favoráveis, exceto nos pontos que dependeriam de nossos esforços e onde estamos pior que alguns (deficit fiscal, rombo na conta corrente).

No passado, achávamos os argentinos insuportáveis quando nos esfregavam a prosperidade na cara. Agora que a situação em parte se inverteu, o exemplo a imitar não é o do argentino das anedotas, mas o do ministro Guerreiro na sóbria confiança com que valorizava as forças profundas do Brasil, sem jamais ignorar suas persistentes fraquezas.


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