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Folha de S. Paulo - 2012

São Paulo - Brasil

 

Crise existencial

Os governos têm medo de descer à raiz das coisas, e as agendas não abrem espaço para bons questionamentos

14/05/2012

 

Rubens Ricupero

 

Algo de grave deve estar ocorrendo no mundo quando os questionamentos profundos partem não das vítimas e contestadores do sistema, mas de seus dirigentes e intérpretes.

As críticas mais persuasivas e contundentes à ordem econômica que nos governa provêm hoje de pessoas como os bilionários Warren Buffett e George Soros, analistas como Pascal Lamy e Martin Wolf, para não falar dos críticos mais assíduos, os prêmios Nobel Paul Krugman e Joseph Stiglitz.

Nem por esforço de imaginação seria possível atribuir a algum deles a etiqueta de ideólogo, lunático ou radical. Embora diversos entre si, convergem todos em pontos cruciais: o colapso irremediável da financeirização da economia, a inaceitabilidade da desigualdade crescente, a inadequação da ênfase obsessiva na austeridade, a gravidade do desemprego. O que esses problemas têm em comum é que constituem, por qualquer critério, as questões essenciais que nos deveríamos colocar, mas se encontram quase sempre ausentes dos debates dos governos e das instituições internacionais.

É curioso, por exemplo, que Pascal Lamy, dirigente máximo da Organização Mundial do Comércio (OMC) e homem de reflexão exigente, tenha julgado necessário escrever artigos para exprimir ideias que seriam consideradas fora de lugar se expressas em sua organização.

Os governos, com efeito, têm medo de descer à raiz das coisas. Preferem, em nome da eficiência, concentrar-se na conjuntura, no curto prazo da crise. Controlam e burocratizam as agendas, que não abrem espaço para questionamentos de valor. Não é difícil imaginar o espanto que Lamy teria provocado na OMC se tivesse repetido o que escreveu no artigo "O futuro do capitalismo".

Nele citava a previsão de Schumpeter de que o capitalismo das grandes corporações acabaria por desencadear forte contestação. Esta teria chegado sob a forma de crise de legitimidade provocada por três causas: a tendência ao agravamento da desigualdade, o desemprego em níveis intoleráveis e um regime financeiro enlouquecido, ameaçando destruir o próprio sistema.

Escrito meses atrás, quando parecia esboçar-se uma recuperação tímida, o artigo vê suas previsões confirmadas por Martin Wolf, que denuncia um desemprego de jovens em 51% na Grécia e na Espanha, e 36% na Itália e em Portugal!

Em todos esses países, mais a Irlanda, a tendência é para queda ou estagnação da economia e crescimento da dívida, apesar da austeridade. Wolf conclui que alguma coisa precisa mudar, mas todos os caminhos estão bloqueados.

A alusão deve ser à austeridade, única das questões em pauta devido à eleição de Hollande na França e ao impasse na Grécia.

A reforma financeira foi praticamente abandonada pelos governos e pelo G20. A desigualdade e o desemprego jamais foram objetos de exame. No melhor dos casos, espera-se que desapareçam com a recuperação, embora já estivessem presentes antes do início da crise.

O aumento do extremismo nas eleições europeias sinaliza o perigo do bloqueio. Reconhecer que, além da conjuntura, as questões de fundo têm de ser enfrentadas e resolvidas é o único meio de garantir um processo político gerador de esperança.


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