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Folha de S. Paulo - 2012

São Paulo - Brasil

 

Prisão perpétua

É como se estivéssemos condenados à prisão perpétua. A falta de perspectiva de recuperação inspirou essa descrição dramática de um analista inglês frustrado por cinco anos de crise sem fim à vista

20/08/2012

 

Rubens Ricupero

 

É como se estivéssemos condenados à prisão perpétua. A falta de perspectiva de recuperação inspirou essa descrição dramática de um analista inglês frustrado por cinco anos de crise sem fim à vista.

A frase revela mudança de percepção e expectativa para pior não só em relação à economia mundial. O fenômeno é generalizado e se refere a quase tudo: à salvação do euro e da própria unificação europeia; à ilusão de que os Brics compensariam a queda das economias avançadas; à crença na imunidade da China; e ultimamente à sustentabilidade do crescimento e do projeto de inclusão social do Brasil.

De todas as inversões, a mais negativa para nós afeta a maneira de perceber as possibilidades brasileiras. Como sempre ocorre, precedeu-a um otimismo precoce, dentro e fora do país.

Analistas imaturos ou manipuladores políticos fizeram as mais extravagantes afirmações.

Teríamos descoberto a fórmula mágica do desenvolvimento indolor: crescimento sem poupança e investimento, puxado por demanda e consumo, expansão de crédito e endividamento, com aumento real de salários no setor público e no privado sem proporção com ganhos de produtividade ou eficiência.

Não se quis ver que muitos avanços não resultavam de políticas governamentais: a melhoria sem precedentes das relações de troca decorrente da demanda chinesa por commodities; os efeitos sobre a distribuição de renda da brusca redução da taxa demográfica e de fertilidade; o alívio trazido pelo bônus de menos dependentes por pessoa empregada. Outros fatores da sensação de bem-estar como a moeda forte e o prazer de viajar e fazer compras apresentavam ambivalência perigosa.

Poucos foram os alertas sobre o absurdo aumento de vulnerabilidade de um país exportador de produtos primários que acumulava deficit crescente em conta-corrente mesmo no melhor momento de valorização das commodities.

Bastaram agora dois anos de crescimento rasteiro para denunciar os males disfarçados da economia: incapacidade de elevar a taxa de investimento, cinco pontos abaixo da do México, o novo preferido dos mercados; estagnação da indústria; falta de competitividade e ganhos pífios de produtividade; distorção nos combustíveis ameaçando o etanol; prejuízo na Petrobras; consumo espicaçado por dopagem contínua; greves pressionando ainda mais os gastos de custeio.

O governo vem tentando felizmente agir sobre fatores estruturais: juros, câmbio, custo da energia, folha de pagamento. Acaba de anunciar medidas para estimular investimentos privados em infraestrutura. Resta ver se desta vez terá desempenho melhor que nas licitações de rodovias, em Belo Monte, nos aeroportos. Se falhar de novo, não se vê de onde virá a expansão do investimento e da oferta.

Temos de aprender a não nos iludirmos com fases curtas de aceleração sem sustentabilidade. O teste definitivo do desenvolvimento é a capacidade de crescer, sem altos e baixos, por 25 ou 30 anos como na Ásia. Da mesma forma que nas Olimpíadas, ninguém conquista o ouro nessa competição com triunfalismo prematuro. A medalha pressupõe longo treinamento, trabalho duro, sacrifício e humildade.




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