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Folha de S. Paulo - 2013

São Paulo - Brasil

 

Signo de contradição

Se vivemos em tempos sem fé e se a Igreja Católica é irrelevante e fala sozinha, segundo se apregoa, como explicar a fixação de manchetes de jornais e TV na renúncia de um papa octogenário?

04/03/2013

 

Rubens Ricupero

 

Se vivemos em tempos sem fé e se a Igreja Católica é irrelevante e fala sozinha, segundo se apregoa, como explicar a fixação de manchetes de jornais e TV na renúncia de um papa octogenário?

Em razão do ineditismo do gesto, da sensação criada por escândalos romanos, até se compreenderia o impacto do choque inicial.

Mas, dia após dia, semanas a fio, o fascínio da história convida a buscar outros motivos.

Um deles seria a carência de uma figura paterna, sobretudo em época pobre de grandes homens, quando os líderes são, por toda a parte, mornos e insossos. Mesmo desse ponto de vista, Bento 16 se enquadra de modo diferente.

Ele não é, como o antecessor, um grande papa político, cujo papel enérgico teria sido decisivo na queda do comunismo.

Tampouco tem aquele ar bonacheirão de avô bem humorado e contador de histórias de João 23.

Seu jeito é mais do mestre escolar de sorriso tímido. Todo seu pontificado não foi mais que uma lição repetida com infinita paciência.

Nisso me lembra Julius Nyerere, o fundador da Tanzânia, que conheci bem em Genebra. Um dos raros heróis da independência africana capaz de criar um país que superou os ódios tribais, Nyerere só aceitava um título -o de Mwalimu, o singelo professor que tinha sido e jamais cessou de ser.

Nyerere ensinou que não é o exercício absoluto do poder que constrói, mas sim o exemplo da abnegação, a capacidade de se impor limites, de deixar o poder quando o julgavam insubstituível.

Da mesma forma que seu vizinho Mandela, soube sair no momento em que todos queriam que ficasse.

Não foram os grandes líderes da guerra e da paz -Churchill, Roosevelt ou de Gaulle- os gigantes morais que dominaram o século.

O ensinamento do perdão e da reconciliação de Mandela e a pregação da não violência até o sacrifício da própria vida por Gandhi ou Martin Luther King se mostraram muito mais fecundos e duráveis que os efeitos do poder.

Ninguém exerceu o poder de modo mais brutal e absoluto que Stálin, do qual nada ficou a não ser a maldição dos descendentes de suas incontáveis vítimas. O próprio ditador confessou, num instante de melancolia, que, no final, quem ganhava sempre era a morte.

Ao confessar que em horas difíceis "o Senhor parecia dormir", ao revelar sua fragilidade, Bento 16 fez mais pela nova evangelização, alcançou mais corações que no uso dos meios do poder centralizado de pontífice.

Abrir mão da "glória de mandar", da vã cobiça "dessa vaidade a quem chamamos fama", faz parte do processo pelo qual o grão de trigo tem de morrer para poder dar fruto.

Sinal de contradição, Jesus legou à igreja a herança de continuar a ser a força dos fracos, a grandeza dos pequenos e humildes.

Ao encarnar de novo o signo de contradição, Bento 16 nos dá esperança de que tinha razão François Mauriac ao dizer pouco antes de morrer: "Às vezes penso que somos os últimos cristãos, mas depois me pergunto -será que somos os últimos cristãos ou seremos os primeiros?"


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