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Folha de S. Paulo - 2013

São Paulo - Brasil

 

Hegemonia hamletiana

Nunca se viu coisa igual: o presidente e todos os líderes do Congresso querem atacar a Síria, mas o povo americano se recusa

16/09/2013

 

Rubens Ricupero

 

Nunca se viu coisa igual: o presidente e todos os líderes do Congresso querem atacar a Síria, mas o povo americano se recusa. A culpa seria de Obama, que teria mostrado repugnância inicial à ação militar e, ao se decidir, não adotou a implacável determinação dos "guerreiros de poltrona". A explicação não convence. No Reino Unido e na França, onde os governantes desde o começo favoreceram a agressão, a população também é contra.

O ataque à Síria seria a nona agressão ocidental a um país islâmico ou árabe em poucos anos. Tudo indica que os povos ocidentais finalmente decidiram dar um basta! Se guerras e morticínios resolvessem alguma coisa, os EUA não estariam atolados no Afeganistão numa guerra que já dura mais que o dobro da Segunda Guerra Mundial!

As mentiras e manipulação da invasão do Iraque têm muito a ver com a reação. Da mesma forma que ela reflete a falência da autoridade moral dos EUA. Depois de anos de horrores em Guantánamo, de centros de tortura secretos, de assassinatos com "drones", de massacres perpetrados por soldados enlouquecidos, ninguém mais acredita que a ação americana se inspire na defesa dos direitos humanos.

Não convém extrair conclusões exageradas de uma situação-limite de fadiga de guerra. No final dos anos 1970, os desastres do Vietnã, do Camboja e do Laos geraram também atitude de desengajamento de aventuras bélicas. O Congresso chegou a proibir operações clandestinas conduzidas por Kissinger, com a cumplicidade ativa da África do Sul do apartheid, para derrubar o governo de Angola, então defendido por Cuba.

Vivi de perto aqueles dias como conselheiro da Embaixada do Brasil em Washington. Lembro como a atmosfera política se assemelhava estranhamente aos tempos atuais. Um presidente democrata, Jimmy Carter, pacifista e voltado para temas internos; denúncias contra as agências de espionagem seguidas de leis para tentar discipliná-las; abstenção de novos conflitos militares no exterior.

Bastou o incidente dos reféns na embaixada americana em Teerã e a eleição de Reagan para que os EUA recuperassem o apetite pelas intervenções: Granada, Panamá, ajuda aos contras na Nicarágua, ofensiva em El Salvador, Guatemala etc.

Carter ficou com a imagem de fraco e irresoluto. Penso, ao contrário, que é um dos presidentes mais injustamente subestimados da história americana recente. Nenhum dos sucessores deixou como ele o sólido legado diplomático do maior avanço jamais registrado no Oriente Médio: os acordos de Camp David entre Israel de Begin e o Egito de Sadat (1979). Sem esquecer realização sempre ignorada: os tratados com Torrijos transferindo ao Panamá o controle do canal (1977).

Hoje, todo mundo esqueceu. Na época, porém, os republicanos acenavam com perigos mortais à segurança dos EUA se o canal passasse às mãos panamenhas. Sabe lá o que se teria sucedido com Reagan!

Carter só governou quatro anos e tinha ainda de enfrentar a União Soviética de Brejnev. Legou obra diplomática sólida, que dura até hoje. Agora que os EUA não enfrentam mais o desafio da Guerra Fria, o que deixará após dois mandatos o Prêmio Nobel Obama?


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